domingo, 8 de setembro de 2024
sexta-feira, 6 de setembro de 2024
casal de cinco (velocidades de motorizada)
à memória do meu pai. à minha mãe e aos meus irmãos.
era de cinco; casal de cinco,
assim pelo povo comummente chamada.
na difusa memória,
é de cromado com óleo de motor e azul esbatido que a pinto;
e aos cinco de uma só vez, todos transportava,
ainda tão cheios da possibilidade de tudo e sem posse de nada.
sim, éramos cinco, que o outro, bom moço,
haveria de chegar mais tarde.
necessário hiato, que o constante parir requer do corpo muito esforço
e esmaece o fogo que nele arde.
os cinco dos seis que haveriamos de ser,
éramos confiantes passageiros na competência do timoneiro dessa magnífica barcaça;
que no mau asfalto ou terra batida,
a navegava como no mar houvera de ser
e as velas pelo vento enfunadas era o escape a expelir fumaça.
etéreo testemunho de explosão que se desvanecia em brevidade.
luz cedendo espaço ao intenso cheiro de hidro-carboneto queimado.
Imperfeita metáfora da saudade,
que não logra levantar do chão esse timoneiro ao húmus retornado.
é o que é, assim, a natureza de toda a coisa:
indiferente ao negro manto do luto e do remorso que sobre mim poisa.
aprisionada na Ininterrupta e natural sucessão de metamorfoses num eterno universo.
que perante a impossibilidade do verbo do princípio;
agarra a divindade possível da saudosa memória lavrada num verso.
Luís Filipe Soares Leal
segunda-feira, 26 de junho de 2023
Génesis
GÉNESIS
tão somente uma ínfima parte
do que dizia sentir;
com talvez aí metade da intensidade
que declarava empenhar em tal ofício.
na verdade,
nada o motivava a mentir:
não fora o dizer-se de tudo amante,
seu único vício.
poeta por necessidade e tacanhez,
titubeava perante a literalidade das flores.
incapaz de lhes descobrir na primaveril lânguidez,
sensíveis metáforas;
possível bálsamo para as suas dores.
mas o vínculo à concreta realidade;
a incapacidade
de passar adiante do imediatamente apreendido;
obrigaram-no
à domesticação das palavras e da sua sonoridade;
delas se assenhoreara,
ainda que por elas vencido.
embora coisa não houvesse
que mais o tentasse,
do que as vergar à vontade que no caos se ajeita;
deixara-se aprisionar na musicalidade da rima.
mas por mais que o quisesse,
e a tal se esforçasse;
baralhando as da esquerda para a direita
e as de baixo, oblíquamente para cima,
descobria-se sempre por ela escravizado;
imbuído num contraditório voluntarismo,
como se sofresse a malsã obsessão
daquele que por muito apaixonado,
percorre ruas num impenetrável mutismo
e as toma somente habitadas
pelas frias pedras a calcetarem o chão.
e chão lhe era, esse emaranhado de palavras,
construindo a frase viciosa.
melodramático, nele se sublimava prazeroso.
caminhava-o prosélito de uma teologia melodiosa;
mas com rosto sofrido como se o cingisse cilício,
que rasga a carne até ao ipifânio gozo.
assim paramentado,
não mais lhe restava do que o sarcedócio no luso idioma.
os sentidos obrigados
à liturgia a que se tinha agrilhoado.
desconsolado saciar de fome.
maná ofertado por um deus sem nome.
pão seco em que nada mais há que se coma.
mas poeta se dizia e sentia que o era;
ainda que resignado a essa sua limitação.
enfim,
não seria vinculado ao seu nome,
que a literatura entraria numa nova era;
e na sua falta de fé apenas se almejava,
subtraído na palavra, à inevitável podridão.
e porque não!?
o estirparmo-nos das pútridas entranhas,
pela grafia dos sentidos
arrancados às paixões da carne;
é recurso tão lícito
como outras quaisquer artimanhas,
nessa permanente luta
com a divindade que de nós escarne.
mas sabia-a invejosa (a divindade),
nesse seu de nós escarnecer.
obtuso espírito,
que só no mármore expressa a sua eternidade
e furibundas feições
nela foram cinzeladas para nos estarrecer.
o medo... ah o medo! sempre o medo...
esse grande disciplinador que a todos tolhe.
embrulham-no no enganador ânimo
do neófito introduzido ao segredo;
mas a verdade
é não haver deus algum que de nós cuide e olhe.
sabe-nos, o poeta pela rima manietado, sós!
sujeitados à bruta animalidade da nossa natureza.
condição que a todos nos tem atados em górdios nós
e o propalado livre arbítrio,
é doce ilusão atenuando a incerteza.
mas à frustração pela consciência dos seus limites;
preferiu a semântica da falsa fragilidade,
nas sombras projectadas na caverna de Platão
que deformadas por interpostas estalactites,
propõe alucinadas versões da concreta realidade.
fértil campo onde mais universos se semearão.
treme num desespero amansado,
a mão do rimador.
ávida das ténues e raras fontes de luminescência,
que se desvanecem
manejadas pela garatujada caligrafia.
e fica no peito amordaçada, a dor;
sentida ou a tal forçada, pela lírica ciência,
que são os ínvios caminhos da poesia.
resoluto,
antecedeu o verbo com consoantes e vogais;
sem coragem para contrariar,
essa natural hierarquia da precedência.
rastejante anfíbio dos pantanosos lamaçais,
ousou confrontar o rosto que de cima o estava a mirar
maravilhado de o ver desejar a árvore sem a sua anuência
não sendo espantosas,
viu que no entanto, eram coisas boas
e alumiavam, ainda que poucochinho.
leal maria
sábado, 21 de janeiro de 2023
nessas tuas delicadas mãos com cheiro de aconchego
domingo, 4 de dezembro de 2022
sangue
encarnado
a fugir à côr do vinho carrascão
assim é o sangue
na guerra vertido em profusão
concreto, literal e expremido à dor
pretendem-no sagrado
necessário unguento redentor
justificando cada corpo tombado
e ainda que aos cadáveres agora dele esvaídos
nenhuma metáfora lhes valha
não há demanda ideológica sem o seu quinhão de caídos
recorrente mão d'obra à disposição da mais reles escumalha
impetuosos e galantes generais
aspirando à inscrição nos livros da história
alicerçada a ambição na podridão dos demais
têm-se como merecedores de serem alçados à glória
e tu, satisfaz-lhes as vís vontades
alimentas-te nas suas enviesadas ideologias
tolo prosélito
a seu mando assediando cidades
semeando a triste morte onde houvera de crescer vida e alegrias
nas suas bem apetrechadas casernas
na elegância cerimonial dos seus palácios sumptuosos
congeminam embrutecer-te Homem das cavernas
requerendo de carne despida os teus ossos
são eles a essencial estrutura
dos projectos desses contra a humanidade mancomunados
horrenda arquitetura
de uma sociedade onde uns dominam e outros são dominados
e tu, satisfaz-lhes as vís vontades
alimentas-te nas suas enviesadas ideologias
tolo prosélito
a seu mando assediando cidades
semeando a triste morte onde houvera de crescer vida e alegrias
leal maria
terça-feira, 21 de junho de 2022
do pai, para beatriz:
pequena porção de vida
o ainda disforme como epítome da humanidade
descoordenada coreografia de recém-nascida
génese em mim
de incondicional amor
por tão poderosa fragilidade
foram-se as trancinhas no cabelo
eterna menina à minha revelia metamorfoseada em mulher
perdurarás paradigma do belo
minha vontade somar-se-á ao que a tua quiser
leal maria
domingo, 14 de abril de 2013
lavrador
nada há de espesso
nas miríades de palavras lavradas em vão
reconheço existir razão maior
(erra quem o considerar um pormenor)
no cavar a terra e emprenhar o chão
nos ofícios há o concreto
e a óbvia mais-valia
nas palavras
somente o pretensamente secreto
quando a inconfessável vaidade
ornamenta a prosa de poesia
mesmo um grande amor
quando nas palavras plasmado
não passa de um metamorfosear da paixão em dor
lamuriante e lamentável ritual de apaixonado
nocivo alimento
da eternização deste sentido em meu peito
arquitectura fundeada em oníricos ideais
sentimento adulterado pelo que tem de tão imperfeito
desejar com esperança o que satisfeito será jamais
sim, confesso
sou legitimo alvo desse dedo acusador em riste
somente peço
que o orgulho complemente a minha fisionomia algo triste
orgulho sim
é licito o meu crime porque o cometi convicto
sem outro intuito de que me declarar no fim
ser impossível ter-me mantido invicto
vencido já o era antes de o ser
quando couraçado no querer tanto querer
tão voluntariosamente parti para esta “guerra”
tão mais simples seria ao invés de palavras, lavrar a terra
leal maria
domingo, 21 de outubro de 2012
o corpo o suor e o sal (a dança)
domingo, 14 de outubro de 2012
oculto
domingo, 30 de setembro de 2012
ao cuidado de V. Exas. deste Vosso...
alavancados em vontade de aço,
cavemo-las então companheiros, as sepulturas;
da saudade
sábado, 22 de setembro de 2012
cósmica imensidão de ínfima parte de mim
domingo, 1 de janeiro de 2012
Lá ao longe, a indefinida linha do horizonte.
sábado, 24 de dezembro de 2011
assim fugaz, a saudade...
frio metal que a alma trespassa
rasgando carne e verso
implacável tenaz
da saudade que ameaça
a ilusória quietude do universo
forma perfeita se declarou
suave curvatura
parte de humana anatomia
ínfima fracção do tudo que se amou
ternura
emergindo dos escombros da que havia
sábado, 22 de outubro de 2011
quis o poema (um estudo do sarcasmo e ironia)
e nos remetesse para a viagem
frente a uma bonita mulher
estranho ritual de acasalamento
num inspirado lirismo
um poema que subliminarmente
dos demais diferente
sábado, 15 de outubro de 2011
revolta
para fazeres valer a tua verdade
sacia na violência a tua fome
torna maldito o teu nome
sábado, 17 de setembro de 2011
divagações
vãs quimeras que persegui.
toscas molduras de memória
da nítida fisionomia de um rosto que comigo se cruzou.
loucas teologias
que um semi-deus na sua loucura me sussurrou.
labirintos...
labirintos de mim mesmo.
por tentativas,
tento encontrar uma saída.
entro por vielas a esmo,
sem que me fixe numa direcção definida.
o sentir mais profundo,
o mais banal,
tudo na mesma amalgama...
obstinado e irracionável desesperar.
umbilical vinculo a algo não fundamental:
finita será a esperança de quem anda a procurar.
é um facto:
a esperança não mais me vai possuir.
abstenho-me do mínimo acto.
entrego-me ao acaso...
deixo-me simplesmente ir.
algum destino há-de haver.
de um modo ou outro lá chegarei.
a força de um “tem que ser”
como destino maior que almejei.
ou talvez não seja nada disto.
devaneios meus com que me armo em poeta.
algo amiúde visto
por quem dá alguma importância a estas coisas da treta.
leal maria
segunda-feira, 13 de junho de 2011
geocoreografia do erro e da saudade
invade o que tendia ser silêncio absoluto
resignada saudade
de quem já não espero que regresse
adulterada vontade
travestindo-me a fisionomia com um indissolúvel luto
a inconsistência das ideias
faz grande a perturbação
não há simplicidade no repartido a meias
imensa é a complexidade
no singelo gesto de estender a alguém a mão
sem norte e sem lei
ou o límpido objectivo de quem se atreve
tento concretizar o que em meus devaneios sonhei
quando para parte incerta voei
sem que me baste vida tão breve
e exige-me a contra-senha da felicidade
uma pronúncia de clara dicção
reinventar os lugares da velha cidade
na pura demagogia de um oportuno sermão
mas a arquitectura desses lugares
torna-os imunes ao meu querer
as emoções são por mim representadas em descoordenados esgares
nesse palco cujas dimensões deveria saber
deveria, mas não sei
tropeço em sucessivos enganos escondidos na dramaturgia
e no embaraço de descobrir que me estatelei
leio prosa quando devia declamar poesia
ininterrupta sucessão do erro
que me furta ao desejado anonimato no meio de rostos reconhecidos
alma migrante de desterro em desterro
obrigando-me a ser actor numa cenografia de vencidos
apesar de tudo e agora num diálogo mudo
prossigo o espectáculo
com apupos sobrepondo-se a aplausos algo incongruentes
de obstáculo em obstáculo
vou desenhando no palco
uma geocoreografia de movimentos inconsequentes
geografia dolorosamente talhada
na brutal coreografia das circunstâncias
alma retalhada
pela sobrevalorização de insignificâncias
leal maria
Nota do autor: -geocoreografia - é “erro” intencional
estás aqui
possibilidade do aconchego de um abraço
reconfortante ilusão
de pensar-me naquilo que desejas
persistente habitante de todos os castelos de areia que faço
há um prenúncio de sol que nasce
se a solidão cede lugar ao suave som da tua voz
e é bom saber-te aqui
a felicidade pode bem ser
a simples vontade de eu e tu ser-mos nós
não entrares na contabilidade do que perdi
leal maria
domingo, 27 de março de 2011
hoje não quero ouvir-vos as lamurias
tão farto ando dos vossos ais.
gestos prometendo-me as acções mais espúrias...
pouco me interessam as fortes razões com que os justificais.
mais ruga de furibundo ou menos ruga,
pouco contribuiria para a fealdade do meu rosto.
nem me sinto assim tão zangado.
afinal, há muito ando em fuga,
abandonei o meu posto,
por este exigir uma fisionomia de homem irado.
aqui nesta doce mansidão,
observando o tumulto, onde sôfregos, dirimis argumentos,
antecipo mais solidão,
depois de concretizados vossos intentos.
solidão por solidão,
fico-me pela companhia que há muito me acompanha.
nela habitam os meus fantasmas.
corpos que deram maior consistência ao meu tesão...
não! não integrarei as fileiras da vossa campanha.
é outra a minha guerra.
para a lutar,
pouco valem as retóricas com que arregimentais vossas gentes.
sou metade sol e metade podridão da terra;
húmus dando lugar às novidades emergentes.
hoje recuso-vos o sopro com que quereis criar a tempestade.
interessa-me calmas as águas…
migraram todas as minhas mágoas;
até parece que encontrei a felicidade.
uma mão divina afaga-me num sensual movimento...
pode não ser mais do que um breve interlúdio na realidade,
e somente a fúria interessar.
mas há o sentimento,
há a intensidade,
todo um mundo,
que na sua metamorfose se recusa a desmoronar.
sim, hoje quero a quietude,
sem que nela haja certezas.
a passiva expectativa como máxima virtude,
antes que tudo fique às avessas.
seja eu surpreendido
com o mau ou bom que aí vier.
independentemente do que quiser.
ainda tudo fique fodido,
e nada venha a fazer sentido,
será isso o que vou escolher .
todo eu serei desejo.
todo eu irei possuir.
venha daí o que nem sequer antevejo;
receberei o porvir com o rugido que um corpo faz ao se vir.
nesse orgasmo universal,
serei ontem hoje amanhã.
a parte que os dentes de Adão amputaram à maçã.
o caralho fundamental.
falo intruso nas entranhas de fêmea sideral,
a criar universos de natureza boa e malsã.
pois então,
como quereis que esteja disposto a ouvir-vos?
é-me suficiente sentir-vos…
não quero ouvir o que tendes a dizer-me!
leal maria