sábado, 19 de dezembro de 2009

Poema de homenagem a mim solicitado, pela bela coordenadora da biblioteca do Agrupamento de Escolas de Arrancada do Vouga, Professora Teresa Alexandra Rodrigues Olaio, para homenagear a poetiza popular residente na Freguesia de Valongo do Vouga, Águeda, Júlia Magalhães. A singela homenagem realizou-se no dia 30 de Novembro de 2009, quando a poetiza, no âmbito da feira do livro que decorria no citado Agrupamento de escolas, aí se deslocou para falar sobre poesia e ter assistido a trabalhos sobre os seus poemas pelos alunos do 5ª ano da EB2+3 de Arrancada do Vouga
Segue o poema transcrito e edição de vídeo:





venerandos murmurios
voz de uma ainda tão presente ancestralidade.
na memoria mumificada sem os seus dias espúrios;
travestida com a realidade que lhe incutiu a saudade.

fala-nos de um tempo que se desejava só pureza.
quando era outra a linguagem dos afectos.
e o Homem,
em enviesada promiscuidade com a natureza,
tentava talhar-lhe com firme pulso a forma,
limitando-a em toscas paredes e tectos.

o testemunho dos dias,
em que presumia-mos falar o dialecto dos elementos.
singularidades em simples poesias;
pondo-nos a nu o passado,
descobrindo-lhe as alegrias, anseios e lamentos.

persistente;
resgata ao esquecimento a história.
para que não nos sobrevenha aquela absoluta morte,
que é um povo sem memória,
cujo destino foi entregue à anarquia da boa ou má sorte.

nessa voz,
há o som da força bruta com que se constrói um país.
e uma elegia aos corpos sacrificados em nome de algo que se julgou maior.
alimentada nessa primordial raiz,
que é a força da vontade e, quem sabe, talvez amor


do tanto do que esse passado era feito,
muito ainda nos vai substanciando a alma.
não o podemos renegar sem que algo nos seja amputado ao peito.
e esperamos inresignados
mais um dia do futuro que se nos anuncia em cada fim de uma tarde calma.

irmanados ainda no ancestral sonho,
sabemos que em nossa demanda não estamos sós.
em busca desse destino perfeito e medonho,
pelo voz do poeta, acompanhar-nos-ão os nossos avós!




leal maria

sonho-a

sonho-a…
na verdade nunca a quis realmente.
foi sempre como sonho que a desejei.
tê-la comigo, assim, primordial semente;
louca quimera que a um deus egoísta roubei.

como sonho,
é mais cómodo tê-la em mim:
ser senhor de a continuar a amar ou decidir dar-lhe um fim.
sim, é muito melhor eu a sonhar!

não que não deseje que as minhas mãos a moldem ao meu querer.
agarrar-lhe as ancas e,
com ímpetos viris, dela tomar posse como minha mulher;
mas isso seria profanar a minha maneira de a amar.

conspurcaria a memória que em mim há,
do seu olhar prenhe de meiguice.
corromper-se-ia o dogmático sentido que em palavras lhe disse.
a subordinação do que sinto, às fomes de que trago o corpo farto,
fa-la-ia em mim renascer, num novo e agoniante parto.

sim,
como sonho é minha perene companheira.
é-me a sua fisionomia imutável.
gosto de a sentir à minha beira;
quando à imensidão da saudade vou resgatar o seu sorriso amável.

mas tudo está em mutação...
não sou sequer o mesmo que era há um minuto atrás.
os dias, vertiginosos, passam-me de raspão;
trazendo-me um poente de memórias que não me satisfaz.

esmaga-me a passagem do tempo e a sua inevitabilidade.
mas ela mantem-se a principal razão,
porque calcorreio os caminhos, onde em vão, procuro a ideal idade.

sonho-a…
a sua memória tem sido o leito sobre o qual adormeço.
a falta que me faz é a primeira a dar-me os bons dias.
eterno recomeço...
etéreo e ubíquo corpo que reparto desigual pelo meu desejo e poesias.





leal maria

sábado, 12 de dezembro de 2009

exílio

…é assim que de repente,
me vejo exilado nas memórias.
e como quem não sente,
nelas não reconheço as minhas histórias.
 
de onde venho esqueci...
tão pouco sei para onde vou!
estou exilado aqui
e o rosto que me dá forma não mostra o que sou.
 
deixei para trás,
dissolvidas nos lábios que em despedida beijei,
estéreis para os vindouros amanhãs,
as sementes que nesses corpos alheios semeei .
 
acompanha-me uma sensação de orfandade,
gerado num voluntário esquecimento.
prisão feita dessa liberdade,
onde nenhuma ânsia nos faz antecipar o momento.
 
volátil;
limito-me ao fruir dos dias
na mais absoluta lassidão.
Vendo desfilar diante de mim,
as suas horas só aparentemente vazias,
sem que tente segurar-lhes as rédeas na mão.
 
não quero exercer sobre eles qualquer soberania...
prefiro-os assim anárquicos!
a incerteza com o que tem de poesia;
à segurança dos dias estáticos!
 
sou migrante do sentido.
caminhante da sua sinuosa geografia…
à beira do precipício sustido;
entre a saudade do que vai haver e a ânsia do que havia…
 
  
 
 
leal maria

Um soldado de tocaia

as tuas mãos,
assim, firmemente cerradas;
hoje, como tantas outrora, ansiosas;
preparam-se para dar à luz,
os mesmos gritos que profanaram virgens madrugadas;
na mesma lei do dente por dente e olho por olho tão ciosas.
 
houve um tempo em que só caricias as ocupavam.
longínqua memória,
quando as manhãs te despertavam
ainda folha em branco,
onde havia a possibilidade de escreveres uma outra história.
 
mas se faz tão tarde...
tão tarde e tu sabe-lo bem!
em teu peito todo o amor sucumbiu ao ódio que nele arde;
és tu e mais ninguém!
 
acercas das virtudes da castrense camaradagem,
tantas foram as dissertações que ouviste.
vã sapiência,
que não evitou que viesses a ocupar, no grande rio da vida, a outra margem.
aí, bem firme e de pé, sabes bem que já caíste!
 
tombaste para o lado onde mais reina a solidão.
não interessa quantos são os abraços sempre que ganhas uma batalha.
a luz é efémera e em ti é lesta a sobrevir a escuridão;
habita-la e é já mais golpe menos golpe que na tua alma se talha.
 
hoje, como outros igual a ti ontem, semeias os mesmos medos.
fertilizas de sangue campos de morte;
embrenhando-te no mais terrível dos degredos,
que é a fraqueza de tentar fazer prevalecer a vontade do mais forte.
 
enviaram-te e tu, voluntarioso, sonhaste com a glória...
fortaleceste os músculos e apuraste as técnicas do eficiente matar.
reivindicas-te autor de uma parte substancial da história;
mas da tua obra, faz-se maior o ensurdecedor som do órfão a chorar!
 
tudo tem um término, porque cansa tudo o que tende a eternizar-se.
voltarás e homenagear-te-ão;
dizendo que continuas a ser parte importante da engrenagem de um projecto ainda a realizar-se.
uma medalha e um aperto de mão
e no alto pedestal do seu orgulho, deixarão ainda, a tua pessoa manifestar-se.
 
depois, remeter-te-ão ao subtil silêncio do dever cumprido.
paulatinamente, serás esquecido por haver outros em teu lugar.
mais frescos, sem que nada ainda os haja comprometido.
o choque da perda de inocência, não lhes fará buscar justificações para o indiscriminado matar.  
 
ouvirás ministrarem-lhes as mesmas ideologias tealogais
com que te conquistaram a alma para do teu corpo usufruírem.
e quando por fim os vires embarcar, heróicos, num triste cais,
anteverás o morrer de sonhos quando alguns por terra caírem.
 
dirás, para teu próprio consolo, que não tiveste alternativa.
que perante o chamamento do dever, não vacilaste.
pelo teu esforço é que a razão dos teus se mantém viva.
e que isso, por si só, justifica todos os que mataste.
 
em tua honra erguerás triunfante uma taça de vinho.
atrás dessa, outra virá, antecedendo muitas mais que virão.
quando olhares em teu redor, outros como tu fazer-te-ão sentir ainda mais sozinho.
e passarás a fruir os dias numa letárgica subtracção.
 
quando por fim, o tempo te subtrair o último dia,
encontrar-te-à sem honra nem glória, numa imunda sarjeta de uma qualquer cidade.
o incomodo do teu cadáver não merecerá uma elegia,
apodrecerá com a tua carne tudo aquilo que agora é em ti vontade.
 
mas que importa o futuro?!
interessa é alimentar essa raiva que te mantém alerta!
há que ser duro...
não tarda, alimentarás de mais dor a guerra, em mais um dia que desperta!
 
leal maria