domingo, 14 de abril de 2013

lavrador



confesso
nada há de espesso
nas miríades de palavras lavradas em vão
reconheço existir razão maior
(erra quem o considerar um pormenor)
no cavar a terra e emprenhar o chão

nos ofícios há o concreto
e a óbvia mais-valia
nas palavras
somente o pretensamente secreto
quando a inconfessável vaidade
ornamenta a prosa de poesia

mesmo um grande amor
quando nas palavras plasmado
não passa de um metamorfosear da paixão em dor
lamuriante e lamentável ritual de apaixonado

nocivo alimento
da eternização deste sentido em meu peito
arquitectura fundeada em oníricos ideais
sentimento adulterado pelo que tem de tão imperfeito
desejar com esperança o que satisfeito será jamais

sim, confesso
sou legitimo alvo desse dedo acusador em riste
somente peço
que o orgulho complemente a minha fisionomia algo triste

orgulho sim
é licito o meu crime porque o cometi convicto
sem outro intuito de que me declarar no fim
ser impossível ter-me mantido invicto

vencido já o era antes de o ser
quando couraçado no querer tanto querer
tão voluntariosamente parti para esta “guerra”
tão mais simples seria ao invés de palavras, lavrar a terra

leal maria

domingo, 21 de outubro de 2012

o corpo o suor e o sal (a dança)


puro dialecto da arte

exprimido

no vocabulário dos corpos entre o  desespero e a esperança

o todo e a parte

no parte e reparte

da fluída brusquidão dos movimentos

grandiosos como o sonho do Homem vir habitar Marte

ou estabilizar as voláteis fronteiras dos anárquicos sentimentos

o ir e o vir

em elipses tendentes à espiral

o corpo o suor e o sal

na pornográfica coreografia do sentir

ao ritmo da conquista do vazio

subtis nuances oscilando o quente e o frio

âmago do aparente sem nexo

promiscuidades consentidas

amor e ódio em prelúdios de sexo

rituais para os quais se faz pender todas as vidas

choro e riso na mesma fisionomia

grafia feita com a animalidade da humana anatomia

palco metafórico de tudo

megalomania de ser-se denominador comum do universo

sensuais caracteres de um idioma mudo

derrubando  fronteiras entre a prosa e o verso

orgíacos labirintos

explorado nos gestos cifrados do tronco pernas e braços

rostos rasgados por esgares de pretensiosos segredos

etérea e insuspeita leveza em firmes passos

esconjuro de todos os medos

orbita alucinada dos desejos

falso narcótico das mais intensas paixões

mãos que raptam aos lábios os beijos

e cobrem a nua carne de puras emoções

dialéctica do efémero com a eternidade

da vida com a morte

alicerce oscilante da saudade

de quem faz dos quatro pontos cardiais o seu Norte

 

 

leal maria

 

domingo, 14 de outubro de 2012

oculto


trôpegos lirismos
surgindo do nada
sem que os convocasse a vontade
sub-reptícios sentimentos
disfarçados de torpes lamentos
prometendo uma sempre adiada
maior-idade

mas efémeros
esvaem-se por entre os interstícios do querer
onde livremente fluem e adiante passam
falsa resignação para com o perder
como se urgisse um outro tempo
e novas as velhas quimeras que  se abraçam

substância dos dias que se foram
e se vai intuindo a mortalidade dos sonhos
persistindo a adivinhada imensidão do porvir
sentidos que se penhoram
em devaneios medonhos
com inabalável fé em promessas que tardam em se cumprir

atrapalha a linear memória das formas dos corpos que se amou
subtraídos às subtilezas dos cheiros da vida real
esconsas nuances do que obstinadamente se buscou
descobrir somente a memória alicerçar o nosso ideal  

entre tantos escombros  perdido
faltam em tamanha topografia do caos as referências
que orientassem num norte intuído
alma gerada por ocultas ciências

líricas tristezas
verossímeis  se as manifesto  assim de semblante tão circunspecto
mas a alegria que genuinamente sinto
contamina todas as minhas certezas
impregna o meu afecto
e coloridas são as as razões que na tela negra pinto


leal maria 

domingo, 30 de setembro de 2012

ao cuidado de V. Exas. deste Vosso...




porque não uma festa assim?
se dia após dia,
em circunspectos discursos, nos declaram guerra.
dizerem-nos: "não avançaremos mais… chegamos ao fim",
basta para que lhes provenha-mos leito em macia terra.

 
com a força do nosso braço,
alavancados em vontade de aço,
cavemo-las então companheiros, as sepulturas;
com a madeira do caixão os venha-mos a vestir.
há muito passou o tempo das ternuras.
exige-se mais do que o resistir.


leal maria 

da saudade


demasiada a intermitência das alegrias
tudo o mais  tristeza da ausência
da saudade a dor
se  mal recordo palavra das que me dizias
há a memória de cada suave acidente do teu rosto ao pormenor

dias que para trás ficaram
e ancorados os gestos coreografados pelo teu embaraço
gestos desenhando o limite onde meus sonhos se aprisionaram
o que mais de ti tive aproximado a um abraço

e insisto nestas recordações
como se a consequência de me abster desse exercício  
me privasse à tempestade das fortes emoções
d´uma alma em bulício

comigo as trago
sem a mínima convicção de necessitar a sua companhia
somente não consigo delas me livrar
capricho de não me abster do tanto que queria 
absurda insistência em continuar amar 

contradições com que sigo adiante
não vislumbrando mais que o imediato instante
e tudo se me depara já irreversível

obstinada é a vontade
quando impelida a saudade
ainda que de antemão se saiba a natureza do derradeiro nível



leal maria

sábado, 22 de setembro de 2012

cósmica imensidão de ínfima parte de mim


etérea natureza
ténue  luz  na memória coalhada
dolorosa certeza:
mudo é o grito da vontade frustrada
e covardia
não ter cumprido promessa que então  fazia
ao lábio que sorria
não ter permitido o desejo
atenuasse o cio pelo beijo

etérea natureza do esgrimir palavras
tentando a custo encontrar-lhes o ritmo certo
embrenhar-me nas mais complexas lavras
p´ra que na alma não me magoe mais este aperto

alma minha de consolo desejosa
nada profetizava  este vazio que em ti sobrevive
nada há que fazer se possa
alma de um quase nada
de ser quase, moribunda vive

e como decidir qual o lado
em que a luta me merece o trabalho mercenário
se tudo foi às sortes jogado
e mesmo assim não arrisquei o necessário

desta dor sei em detalhe a fisionomia
límpida imagem das dores que voluntariamente procuro
masoquismo metamorfoseado em poesia
dando corpo a afectos que na realidade descuro

obscura amálgama de emoções
tortuoso caminho feito a sorrir e verdadeiramente feliz
bater dessincronizado do meu com outros corações
opressiva liberdade tornando-me apátrida…
sem que me prenda nenhuma raiz

mas há um porto em que sonho aportar…
motiva esta deriva em que navego
a barbara circunstância de cada vez mais me afastar
testemunha ser o desenho do teu rosto o azimute onde no sonho me aconchego   




leal maria 

domingo, 1 de janeiro de 2012

Lá ao longe, a indefinida linha do horizonte.

espaço aberto
um  futuro de somente duas ou três possibilidades
para trás  
um passado milhentas vezes reinventado
e a esperança
persistindo em ver p´ra lá do deserto
ainda que contaminada pelas saudades
parece obedecer a um plano previamente talhado 

é o ignóbil deus chamado acasos
corrompido pela vontade do Homem
calcorreia-se o caminho pela marca d´outros passos
que os dias passados não escondem

segue-se em frente por forças das circunstâncias
olha-se o céu à espera de nele ver o sol refulgente
as necessárias transumânsias
à revelia do que mais profundamente se sente

ficam os lugares a que outrora chamamos nossos
e de nada nos vale reivindicar a sua posse
em pó transformar-se-ão como os nossos ossos
enquanto o diabo esfrega um olho e o deus da maiúscula tosse  

é à palavra que em desespero  nos agarramos
azimute mutável pela subjectividade semântica
carne amarga onde o dente ferramos
já tão adulterada por dela termos uma ideia romântica


leal maria

sábado, 24 de dezembro de 2011

assim fugaz, a saudade...

assim fugaz
frio metal que a alma trespassa
rasgando carne e verso
implacável tenaz
da saudade que ameaça
a ilusória quietude do universo

forma perfeita se declarou
suave curvatura
parte de humana anatomia
ínfima fracção do tudo que se amou
ternura
emergindo dos escombros da que havia



leal maria

sábado, 22 de outubro de 2011

quis o poema (um estudo do sarcasmo e ironia)

quis o poema
o perfeito ritmo do fonema
com sentido e válida mensagem

e nos remetesse para a viagem
ao citar o nome de uma rua qualquer
numa cidade estrangeira e norte europeia
referindo o curioso autóctone desvelado numa onomatopeia
frente a uma bonita mulher
de anca esguia e olho azul
uma diferente beleza destas nossas mulheres do sul

estranho ritual de acasalamento
improvável exotismo 
evidenciando a universalidade do sentimento
num inspirado lirismo 

um poema que subliminarmente
de mim dissesse ser cosmopolita
perpétuo migrante no mundo


dos demais diferente
que na cidade estranja habita
o ideal mais profundo

um poema assim ao modo como fazem  nossos poetas
conhecedores da toponímia de Estocolmo e Amesterdão
desinteressados das nacionais tretas
como se para com eles tivéssemos uma divida de gratidão

mas somente me saíram palavras mal alinhavadas
amontoado de ideias desconexas
monumento à contradição

onde exercito manter alinhadas
as formas côncavas e convexas
das tempestades que me assolam o coração

cosmopolitismo introspectivo
viagem por topografias acidentadas
com cada rua sem o nome respectivo
tal a  violência em que foram geradas

em todo caso
sei o nome de algumas ruas de Lisboa
também de Aveiro
onde se passeia tanta mulher boa
e meus sentidos gritam para que delas me faça companheiro

é assim torta toda a grafia gerada por minha mão
sem outro sentido do que o usual tesão.




leal maria

sábado, 15 de outubro de 2011

revolta

atira pedras
imprime ao braço a necessária intensidade
a violência onde medras
dir-te-á  até onde irás
para fazeres valer a tua verdade

não ponderes os prós e contras
é necessária alguma loucura
os filhos da puta que agora encontras
não merecem nenhuma ternura

vai em frente

sacia na violência a tua fome
anuncia-te num grito de revolta
torna maldito o teu nome
sê o diabo à solta




leal maria