à memória do meu pai. à minha mãe e aos meus irmãos.
era de cinco; casal de cinco,
assim pelo povo comummente chamada.
na difusa memória,
é de cromado com óleo de motor e azul esbatido que a pinto;
e aos cinco de uma só vez, todos transportava,
ainda tão cheios da possibilidade de tudo e sem posse de nada.
sim, éramos cinco, que o outro, bom moço,
haveria de chegar mais tarde.
necessário hiato, que o constante parir requer do corpo muito esforço
e esmaece o fogo que nele arde.
os cinco dos seis que haveriamos de ser,
éramos confiantes passageiros na competência do timoneiro dessa magnífica barcaça;
que no mau asfalto ou terra batida,
a navegava como no mar houvera de ser
e as velas pelo vento enfunadas era o escape a expelir fumaça.
etéreo testemunho de explosão que se desvanecia em brevidade.
luz cedendo espaço ao intenso cheiro de hidro-carboneto queimado.
Imperfeita metáfora da saudade,
que não logra levantar do chão esse timoneiro ao húmus retornado.
é o que é, assim, a natureza de toda a coisa:
indiferente ao negro manto do luto e do remorso que sobre mim poisa.
aprisionada na Ininterrupta e natural sucessão de metamorfoses num eterno universo.
que perante a impossibilidade do verbo do princípio;
agarra a divindade possível da saudosa memória lavrada num verso.
Luís Filipe Soares Leal
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