sábado, 10 de julho de 2010

Cronologias dos afectos


meus sentidos sob jurisdição da anarquia,
imunes a limites ou fronteiras;
estruturados numa cronologia de fantasia,
recusam deixarem-se contaminar pelas coisas verdadeiras.

passado e presente conjugam-se-me agora
na confusa amalgama  de uma indefinida percepção.
desejoso em ir-me embora,
a persistente  memória retém-me na cruel carícia da sua  mão.

de ontem cheguei a hoje,
na natural tentativa de alcançar o amanhã
com todas as responsabilidades que tomei como minhas.
mas consumidas tantas esperanças  em projectos de natureza vã,
surge-me o futuro ancorado a significados algo ocultos,
que emergem como ancestrais dialectos de misteriosas ladainhas.

seguirei em frente porque em frente é o caminho possível.
aos obstáculos os derrubarei se persistirem em manterem-se de pé.
tentarei subir o nível;
alicerçado numa obstinada fé.

não há como fugir a esta luta.
para ela foi que me muni de todas as mascaras que me talham a fisionomia.
árdua labuta,
onde esgrimo argumentos caducos,
entre os sentidos que hoje há e os que ontem havia.

tudo me aponta para futuro
e o futuro que eu vejo é-me demasiado perto.
faz-se sobre ele luz, quando o desejava adivinhar no escuro
e vejo-me na contingência de escolher entre o errado e o certo.

escolherei um lado como sempre o fiz.
ou então, talvez tudo esteja já definido.
tento alçar-me em voo, mas prende-me uma inviolável raiz,
umbilical afecto onde me tenho sustido.







leal maria