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domingo, 12 de dezembro de 2010

d´outro tempo que a memória foi buscar

sobretudo
a memória de fragmentos de manhãs
e um corpo fêmea molde do meu desejo
respirar mudo
amiúde violado com palavras vãs
não fosse denunciar-se em mim a urgência do beijo

inapropriado palco
para a representação de uma peça de ingénuo argumento
minha perfeita actuação de um triste entardecer
tosca dramaturgia
fazendo-me dramaturgo do perpétuo lamento
busca desesperada
de um sinal no olhar que me fazia enternecer

há ténues brisas sobre o que resta desses dias
levantam o pó
ao que agora são dolorosas recordações
pondo a descoberto
uma saudade mal diluída em palavras de poesias
remetidas para um baú sobrelotado de emoções

sou também Atlas
carrego sobre as costas um secreto mundo
cheio de nações a que não posso dar nome
sem retirar às palavras o seu significado mais profundo
empenho-me num inócuo chamamento que em ecos se some

sempre amei com o amor impossível da mitologia
fecundo de tanta ilusão
mas daquela luz que no horizonte luzia
não logrei reclamar para mim um quinhão

perdido o alento
para continuar em demanda de quimeras que persegui
resta-me desconstruir as que a resignação ainda não desmoronou
evitarei os caminhos que então segui
extemporânea decisão
que já não permite reencontrar-me com o que verdadeiramente sou


leal maria

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Recriação fora do paraíso (variação do poema também de minha autoria: Nascimento de Deus )

ergo-me em majestade
de um milenar fogo em que me imolei
e é num templo de mentira sobre a verdade
que afoito, me recriei

para trás ficaram caminhos que percorri
pejado com as fúrias dos meus antigos semblantes
com amargos sorrisos que de novo os senti
no meu corpo decepado aos prazeres dos amantes

mas recriei-me de tudo senhor
para que a minha vontade seja a única lei
parida com recurso a alheia dor
arrancada às almas das quais me alimentei

vi-me anunciado num verbo de eternidade
em todas as profecias que me precederam
castrei-me às hostes da humanidade
ao criar uma lápide onde o meu nome escreveram

e os meus desejos feitos nestas simples alquimias
tremem no periclitante pedestal onde se sustêm
tenho a alma amordaçada em poesias
e é cheio de vazio o amor que elas em segredo contêm


leal maria

domingo, 4 de janeiro de 2009

O nascimento de Deus

ergui-me em toda a minha majestade
do milenar fogo em que me imolastes
e foi num templo de mentira sobre a verdade
que vós, loucos, tão afoitos me criastes

aplanastes os caminhos que percorri
destes novas fúrias aos meus semblantes
foi com amargos sorrisos que eu vos vi
castrar aos corpos as esperanças dos amantes

e com as vossas simples alquimias
fizestes dos silêncios uma espada afiada
lançastes a morte à palavra esculpida das poesias
a liberdade foi da vossa nação escorraçada

criastes-me rei e senhor
para que tudo se sujeitasse à vontade da vossa lei
paristes o meu nome com alheia dor
arrancada às almas das quais vos alimentei

e todos os profetas que me precederam
anunciaram-me no verbo da eternidade
barricados no exercito que em meu nome fizeram
castraram o paraíso à humanidade





leal maria

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

violentas liturgias

as circunstâncias consomem-me os dias
devorando-me aos sonhos o sentido original
percorro o ilusório caminho das poesias
faço-me um deus para lá do bem e do mal

e as horas que aborto de um prazer desmedido
metamorfoseando o tempo num embaraço
barricam-me entre o que encontrei e o que tenho perdido
nas violentas noites em que de solidão me abraço

vejo nos corpos com quem permutei ilusões
contabilizadas as almas que logrei enganar
assaltam-me inquietudes em feéricas explosões
deslumbrado, vejo a destruição em mim de tanto amar

cinzentas; as ruas da minha cidade
pejadas de tantas gentes que a fazem deserta
matizam-se entre a indiferença e a saudade
e é para o pesadelo que o meu sonho desperta

nos passos apressados de quem de si se esquece
um burburinho de gente amansada é o que ouço
predador… sempre à espreita do que acontece
um ultimo e desesperado assalto àquele olhar não ouso

deixo-o estar no limbo para o qual remeto o divino
nesse paraíso feito da substância do sonhos
entre a glória grávida no gesto mais pequenino
e o violento rugir de batalha dos deuses medonhos

amantíssimo da força desmedida
o mais das vezes fornicando-a num leito de espanto
a surpresa com que me encontro no lado frágil da vida
amordaça-me em melodias de um triste encanto

sonho… sonho… sonho…
habito o vazio do que de nada se substância
altar de engano onde o meu holocausto ponho
em adoração a um demónio, que inocente; de nada sabia




leal maria

domingo, 7 de dezembro de 2008

sombras de fogos-fátuos

ofuscam-me as intensas luzes que achei
dissimuladas, são de outros as suas verdades
em vão foi que afoito as busquei
não servem para me iluminar as cidades

querem-me na forma que lhes convém
desenhado segundo os seus desejos
mas as minhas razões votam-nos ao desdém
que mentiras tenho eu de sobejos

às realidades que me querem impor
respondo-lhes de dedo em riste
que nos fogos-fátuos em que alardeiam ardor
vislumbro a escuridão que neles subsiste

não serão eles dizer-me para onde vou
renego esses fornicadores de almas alheias
vejo bem a petulância que tanto os inchou
ao alimentarem-se dos cadáveres que repartem a meias

porque lá… no mais profundo que há em mim
outros são os abraços em que me irei amortalhar
recuso que me destinem um fim
não será pela força que me farão soçobrar

do passado, ouço os gritos dos nossos avós
sepultados no limbo dos injustiçados
perfilam-se no caminho para que não o faça-mos sós
que passou o tempo dos homens escorraçados

vem então… junta a tua à minha vontade
retesa o braço para a batalha que se anuncia
assaltaremos a fortificada cidade
vergar-lha-emos à força da nossa poesia

na talha da palavra descobriremos
o que há p´ra lá do que nos querem mostrar
e então o futuro far-se-á como queremos
e os gritos serão das canções que iremos cantar

por certo que erraremos algum compasso
haverá notas deslocadas das pautas
mas à nossa frente, todo esse mar aberto no espaço
encontrar-nos-á intrépidos nautas

e do passado…
sepultados no limbo dos injustiçados
ouviremos os gritos dos nossos avós:
não queremos mais homens escorraçados
perfilar-nos-emos no caminho…
não o fareis sós!



leal maria

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

no teu olhar que me interroga...

no teu olhar há uma interrogação
sobre a natureza das coisas onde te perdeste
olhas
vês disforme a sombra que te desenha no chão
e tens consciência que nela te reconheceste

numa súplica desesperada,
procuras agarrar a esperança que há muito te fugiu
e a vida adiada 
nega-te o futuro que a poucos permitiu

recusa essa mortalha de desespero
vem
segue-me como antes
vou em busca do que quero
a vida,
é-me eterna nos seus breves instantes

olha mais adiante
olha p´ra lá daquilo que te querem deixar ver
cerra os punhos
que viver de cócoras é a pior forma de se morrer

quantos semblantes por ti se emudeceram?
que dores se aumentaram com a tua tristeza?
nenhumas lágrimas por ti se enterneceram
pouco lhes importa a tua sensível natureza

tira do rosto o que em teu coração se sente
dissimula no olhar essa ânsia que te consome
somente nos reconhecerão
quando lhes ferrarmos o dente
nas suas carnes golpeadas é que nos descobrirão o nome





leal maria

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

...

um novo rumo; um novo recomeço
para trás deixo à espera a memória
porque o que fui não esqueço
e eu sou tudo aquilo que se fez a minha história


esse caminho que agora enceto
não é mais do que a continuação dos que já fiz
porque tenho o longe e o perto
na raiz dos sonhos que eu sonhar quis


e os sentidos enganam-me a cronologia
baralhando o passado com os futuros
esculpem-me no desejo a ancestral geografia
e à vontade dão-me a força para derrubar todos os muros


e tu,
aí tão escondida na minha conveniência
sempre à espreita de uma oportunidade
complicas-me essa tão aparente simples ciência
que é eu fazer-te de mim ausente; dura e doce saudade


mas deixo para trás o que para trás ficou
tenho ali outros mundos para habitar
porque o sonho modifica-se mas ainda não soçobrou
e eu aqui parado recuso-me a ficar


não digo mais nenhum adeus
foram tantos na minha vida que já me bastam
todos os que acenei assumo como meus
e mesmo assim as quimeras ainda me arrastam


para quê então as despedidas
lágrimas sempre as haverá
haja um adeus ou não
prefiro a perpétua busca das coisas perdidas
do que ver vazio de esperança o meu coração


seja feita a minha vontade então!!


leal maria