segunda-feira, 23 de agosto de 2010

crónica da impossibilidade de um possível amor


sabes? dá-me agora para a nostalgia.
sim;
vêm-me à memória aqueles nossos calmos passeios à beira mar.
mãos entrelaçadas; comentava-mos as fúrias que ele escondia…
a imensidão, essa; aprisionava-la no teu olhar.

e no campo;
as correrias que o teu largo e sincero sorriso tornavam instáveis…
como tão nítida, com a memória, agora te vejo.
coisas que me davas e não eram permutáveis.
a ternura do teu abraço lançava às feras o meu desejo.

as noites… lembras-te que as dizia-mos só nossas?
com que ímpetos nos oferecia-mos sem qualquer pudor...
de nada valem as realidades que apresentar-me possas,
se já nada influis neste meu amor.  

não; tu não o sabes e, provavelmente, nem o sonhas,
o quanto toda esta nostalgia te faz presente em mim.
que interessa os contrários argumentos que como obstáculo nesta minha saudade ponhas;
se no mais intimo de nós as coisas raramente têm um fim.

sim, é bom recordar esses momentos muito nossos.
ainda que me digas louco,
arrepio-me até aos ossos;
ao recordar-me que não quantificava-mos o amor em muito ou pouco .

sim, serei louco; alucinado; …
amo-te como nunca a outrem amei!
pouco importa ser nostalgia de momentos que nunca entre nós se tenham passado.
a minha realidade tem como substância o etéreo brilho que no teu olhar vislumbrei.


leal maria

terça-feira, 17 de agosto de 2010

anatomia em sob-luz (inspirado na fotografia de Francesca Woodman)

alma…
obstinadamente a procuro
ao devassar corpos
ao exigir a subserviência do olhar
sim, a alma
esse primordial húmos
que promete resgatar-me à putrefacção
que em desespero tento adiar

e as sombras
decifrando-me a morfologia dos sentidos
numa ideal grafia para imperfeitos dialectos
sustêm as ruínas
albergue dos meus amores perdidos
numa anatomia de sob-luz que desejo perfeita e feita de afectos

subtis desejos
vindimo-os no anárquico turbilhão do que sinto
e com eles profano
o total despojamento de anónimos lugares
ínfimos instantes
em que não sei se falo a verdade ou minto
as memórias como refinados vinhos esquecidos em esconsos lagares

tudo em mim converge numa alucinada espiral
para o limiar de uma porta
onde se realiza uma crucificação pagã
dogma a tinta indelével sobre uma linha direita
onde um semi-deus escreveu numa caligrafia torta
inúteis instruções
para a tentação que tenho em comer a maçã

num abraço frio e virgem
a terra acolhe todos os corpos que amei
assim inertes, têm a dinâmica da vertigem
mas não lhes reconheço no rosto a alma que neles invoquei



leal maria

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

esquizofrenia

houve um tempo em que tive a veleidade de tombar gigantes.
moldar o mundo à conveniência do meu querer.
sim;
um tempo feito pela medida dos meus perfeitos instantes.
e o sonho era o único caminho que me permitia percorrer.

mas o tempo é-me isto mesmo:
albergue dos fantasmas de mim que fui deixando para trás ao longo do caminho.
afoito, desbravei-o a esmo;
e dos muitos que fui, somente sou este que agora aqui vai caminhando sozinho.

mas ainda lhes ouço as vozes.
lamurias que desejava incompreensíveis.
mau grado a etérea natureza dos seus corpos; correm velozes,
apanhando-me neste tempo de naturezas tão susceptíveis.

nos seus antigos dialectos, relembram-me que foi por eles que falei.
fazem-me saber que os anseios sob os quais pereceram eram os meus.
forçam-me a almejar de novo o que então em desespero busquei.
obrigam-me a representar de novo o Homem-Deus.

mas perdi o jeito para brincar a ser um dos senhores do mundo.
os discursos entaramelam-se-me em incompreensíveis retóricas.
esvaio as palavras do seu sentido mais profundo,
no devaneio de travar batalhas de igual importância a outras históricas.

Irra… deixai-me!
Ide;
ide-vos embora.
e despojai-me…
sim; despojai-me daqueles que fui outrora.

estou no antípodas do que é paradigma da intemporalidade,
efémera é-me toda a imortalidade de um momento perfeito a acontecer:
sou a mão calejada de um deus despojado de divindade…
não ouso mais os sonhos que me faziam ansiar cada novo amanhecer.

deixai-me nesta letárgica e doce penumbra,
onde só me rege essa necessidade maior:
não prestar vassalagem a todo o fogo fátuo que me deslumbra;
purgar o essencial ao seu mais ínfimo pormenor.

deixai-me assim; de tudo tão despojado;
recuso o que me dais.
não… não pretendo chegar a nenhum lado;
quero somente a deriva… não aportar em nenhum cais.

se ninguém logrei arregimentar para as minhas causas,
foi porque nelas perdi a fé.
suaves pausas
são aquelas em que não tenho de manter-me firme e de pé.





leal maria

sábado, 10 de julho de 2010

cronologia


cronologia

meus sentidos sob jurisdição da anarquia,
imunes a limites ou fronteiras;
estruturados numa cronologia de fantasia,
recusam deixar-se contaminar pelas coisas verdadeiras.

passado e presente conjugam-se-me agora
na confusa amálgama  de uma indefinida percepção.
desejoso em ir-me embora,
a persistente  memória retém-me na cruel carícia da sua  mão.

de ontem cheguei a hoje,
na natural tentativa de alcançar o amanhã
com todas as responsabilidades que tomei como minhas.
mas consumidas tantas esperanças  em projectos de natureza vã,
surge-me o futuro ancorado a significados algo ocultos,
que emergem como ancestrais dialectos de misteriosas ladainhas.

seguirei em frente porque em frente é o caminho possível.
aos obstáculos os derrubarei se persistirem manter-se de pé.
tentarei subir o nível;
alicerçado numa obstinada mas agnóstica fé.

não há como fugir a esta luta.
para ela foi que me muni de todas as máscaras que me talham a fisionomia.
árdua labuta,
onde esgrimo argumentos caducos,
entre os sentidos que hoje há e os que ontem havia.

tudo me aponta para futuro
e o futuro que vejo é-me demasiado perto.
faz-se sobre ele luz, quando o desejava adivinhar no escuro
e encontro-me na contingência de escolher entre o errado e o certo.

escolherei um lado como sempre o fiz.
ou então, talvez tudo esteja já definido.
tento alçar-me em voo, mas prende-me uma inviolável raiz,
umbilical afecto onde me tenho sustido.

leal maria

domingo, 20 de junho de 2010

do chão se levanta a palavra; numa elegia ao corpo que à terra desce (pela memória de José Saramago)


imune à passagem do tempo,
não ficará sequer o nome que te chamam.
inevitavelmente, sobrevirá , implacável, o esquecimento;
àqueles, que comovidos, invocando-o, te aclamam.

aquele intermitente esquecimento de quem tem de viver o dia a dia,
sem permanentemente pensar
nos que soçobraram perante a inevitável regra da natureza.
relembrar-te-ão, talvez, ao ler uma prosa tua, uma poesia,
mas ao mais das horas,
tributar-lhes-ão os mesmos anseios, tão cheios de incerteza.

mas que isso te serviu de consolo, sei-o eu.
ao antever o fim do teu caminho, reconfortou-te essa ideia de perenidade.
por muito que seja o que a vaidade nos prometeu,
reconforta no fim
saber-nos um alicerce entre tantos que vão fundeando a ideia da ideal cidade.

fica feito o percurso que fizeste.
e se mais não foi possível, podes sempre alegar a falta de oportunidade.
mas para que conste e o saibam, quiseste;
óooh se quiseste, chegar ao exacto ponto onde começa a eternidade.

somos assim, nós, os ateus;
intrinsecamente religiosos.
sabemos não ser definitivo o adeus,
quando ao pó retornarem os nossos ossos.

impelido pelo desassossego que te consumia,
tentaste aprisionar nas palavras o caos que sabias reinar.
levantaste-te do chão em cada novo nascer do dia;
e para divinizares a humanidade, à noite, era sobre o lodo original que te ias deitar.

a mortalha da genial metáfora resgatar-te-á 
aos olhares dos que tentarem vislumbrar-te na podridão.
e o dogma cairá,
se por ela se guiar o Homem que cego, tacteia a escuridão.

essencial substância da aleatória arquitectura do universo,
fizeste mais que a tua parte.
na tentativa de dar forma a uma alma pela prosa e pelo verso,
deste ao nosso embrutecimento as ambíguas subtilezas de uma refinada arte.




leal maria

sábado, 8 de maio de 2010

jogo viciado





consumida a parte de leão das horas do dia
há muito desvanecido
o adocicado cheiro a terra molhada
mergulho em palavras de anónima poesia
perfilo bastas legiões na alma
mais uma batalha em mim será travada

prenuncio de sangue flutuando no ar
não sangue de mortos
tombados por uma causa qualquer
uma efervescência de homem
vã intuito de procriar
antecipação  do prazer que irá desaguar em corpo de mulher

a noite
mãe adoptiva de todos os meus vícios
sublima-me pela ilicitude que neles há
habitando-a, aliviam-se-me todos os cilícios
metamorfoseio-me na boca de Eva que mordeu a maçã

aos vícios
fui beber todas as tácticas belicistas que concebi
e líder
 todo eu fui uma plêiade de embrutecidos
umas vezes derrotado, outras vitorioso
 vivi
tão para lá dos limites dos mais prosaicos sentidos

porque não faze-lo também esta noite?
na vanguarda do meu querer há metáforas amordaçadas
forma do tesão universal de todo o corpo onde me afoite
irei a jogo com o baralho de cartas já viciadas



leal  maria  

domingo, 2 de maio de 2010

tragédia de quem calou o corpo no intuito de melhor ouvir a alma

que trágica personagem é essa
amor possível que cumpriu a sua promessa
provocando-nos com a subtil sensualidade?

baixe-se o pano, agora que os actos estão consumados
volte o passar dos dias pela solidão impregnados
e o tempo se recuse a omitir a verdade


os aplausos que a principio se recusaram 
foram os que mais se fizeram ouvir
desejosos da promiscuidade dos que se amaram
quisemos já tarde, deixarmo-nos prostituir

mas os corpos já saciados
só na alma sentiam a mortífera fome
e não se prestaram a ser profanados
por quem não os soube chamar pelo nome

bem lhes gritamos o muito desejo
mas em cena já só actuavam os eleitos 
eclodiu o som de um magnífico beijo
e orgasmos foram celebrados como grandes feitos

tantos foram os deuses que ousaram nesse momento
elevarem-se à condição humana
mas ao verem-se desprovidos de sentimento
sentiram a imensidão do vazio que deles emana

demoram-se agora os amantes nesse efémero estado de graça
comprazidos na inveja que  nos provocam
indiferentes ao que à sua volta se passa
é somente a Eros que para a sua orgia convocam

que adianta termos a veleidade de enganar-mos a morte
se afinal morre-se um pouco todos os dias
e é esse lugar-comum o que apenas agora nos cabe em sorte
por termos declinado o convite do sensual messias


leal maria

Canção da vã demanda

procuras agora
tão para lá dos azimutes
onde te diziam ires encontrar
e por mais tentes
por mais que lutes
sentes que marcas passo
não sais do mesmo lugar

mas tudo à tua volta
se emprenha de uma natureza mutável
e na anarquia dos teus sentidos à solta
vais da mais pura fúria, à palavra mais amável

militaste em ideologias
que acabaram por te desiludir
amaste corpos
sem que lhes entendesses os dialectos da alma
segues o caminho que se te apresenta pela frente
e é como se estivesses a fugir
logo pela manhã prenuncias o ocaso
que tingirá de rubro a tarde soalheira e calma

sim; estás a entardecer
suavemente e sem convulsões
mas no antípodas de um maduro enternecer
antes um desencantado amputar de ilusões

a vida pode ser uma subtracção ou um acumular
só que recusas exercer o teu direito de opção
deixas-te simplesmente naufragar
no letárgico  fim de cada ilusão

ao tempo
não lograste dele fazer, uma metáfora suavizante
deixaste algo para trás e não sabes o quê
o teu manancial de sentidos esvai-se, sem rumo, a jusante
e nem te dás ao trabalho de saber porquê

perdeste-te em geografias de loucura
e é numa esconsa forma
que moldas os amores que te tributam
imune a qualquer censura
é sem o mínimo critério
que aceitas os afectos que contigo permutam

antevês os precipícios à tua frente
e mesmo assim não recuas
perante as indefinidas sensações que em ti se sente
recusas ver que a verdade
está para lá das mascaras… incrustada nas almas nuas

sim; estás a entardecer
suavemente e sem convulsões
mas no antípodas de um maduro enternecer
antes um desencantado amputar de ilusões

a vida pode ser uma subtracção ou um acumular
só que recusas exercer o teu direito de opção
deixas-te simplesmente naufragar
no letárgico  fim de cada ilusão


leal maria

domingo, 18 de abril de 2010

dialectos gestuais

soam sempre mais alto
os gritos emitidos pelos silêncios dos gestos
tomando-nos de assalto
a ambígua leitura que neles fazemos de possíveis afectos

é sobretudo pelos teus gestos
que em mim é mais nítida a recordação da emoção por ti sentida
umas vezes embaraçados, umas vezes lestos…
pontuam indelevelmente uma etapa no percurso da minha vida

confesso que me forço a não olhar para trás
obstinado
cada paço que dou é um dramático apelo ao esquecimento
inglório esforço que minha alma faz
numa infrutífera tentativa de escapar ao vã sofrimento

bem me agarro á esperança do lugar comum: “o tempo tudo cura”
mas atraiçoa-me a memória
dos teus gestos quando lhes senti a tortura de uma contida ternura
tendo como pano de fundo o tempo e a sua natureza conjuratória

sim
o tempo conjurou contra nós
o tempo
e a circunstância das palavras impossíveis de se reproduzir pela voz

é triste quando só falam os gestos no dialecto dos seus silêncios
e sentimos limitado o vocabulário que para o falar se usa
inevitavelmente ficaremos suspensos
numa memória
que a inexorável passagem do tempo tornará cada vez mais injustificada e obtusa  


leal maria 

sábado, 17 de abril de 2010

Prelúdios da loucura

amiúde
muito amiúde me enfureço
e tão violentas são as fúrias que me assolam
se bem que
repentinamente as esqueço
as ruínas que delas resultam pouco me consolam

enfureço-me e é o caos que almejo
por nenhuma razão especial
apenas um singelo desejo
de ao bem se sobrepor o que em mim há de mal

e porque haveria eu de negar esta minha natureza?
é em mim tão intrínseca
amputar-me-ia ao a renegar
uma só certeza
o não saber o que afoito ando a procurar

amiúde
muito amiúde
sou parcimonioso na minha severidade
naquele exercício de pura virtude
de não ser  tão cioso do que tomo como a minha verdade
ouvindo razões que outros têm
permitindo-me a liberdade
de tomar como minhas
causas que me não convêm

amiúde
muito amiúde
transijo  em gestos da maior amplitude
embriagado nas mais explicitas incoerências
num ostensivo desafio às públicas boas consciências

umas vezes por bem
outras tantas por mal
noutras assim assim

verdadeiramente
 a única substância que o dogma contém
é o ser fundamental
para que à esperança sobrevenha sempre o desejável fim

para ser senhor do destino
ergo  minha taça em libação a todo o deus e às suas ideologias
usurpando-lhes sacerdócios em liturgias que não domino
numa superficial invocação de lágrimas em emotivas elegias

elegias com que os celebro depois de os ter morto
num indisfarçado sarcasmo pelas eternidades com que se investiram
encerro-os sempre num sarcófago torto
tão torto como as “verdades” com que nos mentiram


sempre que gritei: “filhos-da-puta”
nunca foi em surdina que o fiz
não negligenciei a oportunidade
de acabar com os silêncios a que circunstancialmente me impus
emergiram puras as cacofonias que criei desde a raiz
gritos fragmentados de almas que ultrajei ao habitar os seus corpos nus

a bem dizer
não odeio nem amo
não há espartilho onde caiba a intensidade do meu sentir
é o absoluto que a gritar chamo
loucura é o precipício para o qual ganho coragem em me deixar cair




leal maria