domingo, 2 de maio de 2010

tragédia de quem calou o corpo no intuito de melhor ouvir a alma

que trágica personagem é essa
amor possível que cumpriu a sua promessa
provocando-nos com a subtil sensualidade?

baixe-se o pano, agora que os actos estão consumados
volte o passar dos dias pela solidão impregnados
e o tempo se recuse a omitir a verdade


os aplausos que a principio se recusaram 
foram os que mais se fizeram ouvir
desejosos da promiscuidade dos que se amaram
quisemos já tarde, deixarmo-nos prostituir

mas os corpos já saciados
só na alma sentiam a mortífera fome
e não se prestaram a ser profanados
por quem não os soube chamar pelo nome

bem lhes gritamos o muito desejo
mas em cena já só actuavam os eleitos 
eclodiu o som de um magnífico beijo
e orgasmos foram celebrados como grandes feitos

tantos foram os deuses que ousaram nesse momento
elevarem-se à condição humana
mas ao verem-se desprovidos de sentimento
sentiram a imensidão do vazio que deles emana

demoram-se agora os amantes nesse efémero estado de graça
comprazidos na inveja que  nos provocam
indiferentes ao que à sua volta se passa
é somente a Eros que para a sua orgia convocam

que adianta termos a veleidade de enganar-mos a morte
se afinal morre-se um pouco todos os dias
e é esse lugar-comum o que apenas agora nos cabe em sorte
por termos declinado o convite do sensual messias


leal maria

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