Poema de homenagem a mim solicitado, pela bela coordenadora da biblioteca do Agrupamento de Escolas de Arrancada do Vouga, Professora Teresa Alexandra Rodrigues Olaio, para homenagear a poetiza popular residente na Freguesia de Valongo do Vouga, Águeda, Júlia Magalhães. A singela homenagem realizou-se no dia 30 de Novembro de 2009, quando a poetiza, no âmbito da feira do livro que decorria no citado Agrupamento de escolas, aí se deslocou para falar sobre poesia e ter assistido a trabalhos sobre os seus poemas pelos alunos do 5ª ano da EB2+3 de Arrancada do Vouga
Segue o poema transcrito e edição de vídeo:
venerandos murmurios
voz de uma ainda tão presente ancestralidade.
na memoria mumificada sem os seus dias espúrios;
travestida com a realidade que lhe incutiu a saudade.
fala-nos de um tempo que se desejava só pureza.
quando era outra a linguagem dos afectos.
e o Homem,
em enviesada promiscuidade com a natureza,
tentava talhar-lhe com firme pulso a forma,
limitando-a em toscas paredes e tectos.
o testemunho dos dias,
em que presumia-mos falar o dialecto dos elementos.
singularidades em simples poesias;
pondo-nos a nu o passado,
descobrindo-lhe as alegrias, anseios e lamentos.
persistente;
resgata ao esquecimento a história.
para que não nos sobrevenha aquela absoluta morte,
que é um povo sem memória,
cujo destino foi entregue à anarquia da boa ou má sorte.
nessa voz,
há o som da força bruta com que se constrói um país.
e uma elegia aos corpos sacrificados em nome de algo que se julgou maior.
alimentada nessa primordial raiz,
que é a força da vontade e, quem sabe, talvez amor
do tanto do que esse passado era feito,
muito ainda nos vai substanciando a alma.
não o podemos renegar sem que algo nos seja amputado ao peito.
e esperamos irresignados
mais um dia do futuro que se nos anuncia em cada fim de uma tarde calma.
irmanados ainda no ancestral sonho,
sabemos que em nossa demanda não estamos sós.
em busca desse destino perfeito e medonho,
pelo voz do poeta, acompanhar-nos-ão os nossos avós!
leal maria
sábado, 19 de dezembro de 2009
sonho-a
sonho-a…
na verdade, nunca a quis realmente.
foi sempre como sonho que a desejei.
tê-la comigo assim, primordial semente;
louca quimera que a um deus egoísta roubei.
como sonho,
é mais cómodo tê-la em mim:
ser senhor de a continuar a amar ou decidir dar-lhe um fim.
sim, é muito melhor eu a sonhar.
não que não deseje que as minhas mãos a moldem ao meu querer.
agarrar-lhe as ancas e com viris ímpetos, dela tomar posse como minha mulher;
mas isso seria profanar a minha maneira de a amar.
conspurcaria a memória que em mim há
do seu olhar prenhe de meiguice.
corromper-se-ia o dogmático sentido que em palavras lhe disse.
a subordinação do que sinto às fomes de que trago o corpo farto,
fa-la-ia em mim renascer, num novo e agoniante parto.
sim,
como sonho é minha perene companheira.
é-me a sua fisionomia imutável.
gosto de a sentir à minha beira;
quando à imensidão da saudade vou resgatar o seu sorriso amável.
mas tudo está em mutação...
não sou sequer o mesmo de há um minuto atrás.
os dias, vertiginosos, passam-me de raspão
trazendo-me um poente de memórias que não me satisfaz.
esmaga-me a passagem do tempo e a sua inevitabilidade.
mas ela mantem-se a principal razão,
porque calcorreio os caminhos onde em vão, procuro a ideal idade.
sonho-a…
a sua memória tem sido o leito sobre o qual adormeço.
a falta que me faz é a primeira a dar-me os bons dias.
eterno recomeço...
etéreo e ubíquo corpo que reparto desigual pelo meu desejo e poesias.
leal maria
na verdade, nunca a quis realmente.
foi sempre como sonho que a desejei.
tê-la comigo assim, primordial semente;
louca quimera que a um deus egoísta roubei.
como sonho,
é mais cómodo tê-la em mim:
ser senhor de a continuar a amar ou decidir dar-lhe um fim.
sim, é muito melhor eu a sonhar.
não que não deseje que as minhas mãos a moldem ao meu querer.
agarrar-lhe as ancas e com viris ímpetos, dela tomar posse como minha mulher;
mas isso seria profanar a minha maneira de a amar.
conspurcaria a memória que em mim há
do seu olhar prenhe de meiguice.
corromper-se-ia o dogmático sentido que em palavras lhe disse.
a subordinação do que sinto às fomes de que trago o corpo farto,
fa-la-ia em mim renascer, num novo e agoniante parto.
sim,
como sonho é minha perene companheira.
é-me a sua fisionomia imutável.
gosto de a sentir à minha beira;
quando à imensidão da saudade vou resgatar o seu sorriso amável.
mas tudo está em mutação...
não sou sequer o mesmo de há um minuto atrás.
os dias, vertiginosos, passam-me de raspão
trazendo-me um poente de memórias que não me satisfaz.
esmaga-me a passagem do tempo e a sua inevitabilidade.
mas ela mantem-se a principal razão,
porque calcorreio os caminhos onde em vão, procuro a ideal idade.
sonho-a…
a sua memória tem sido o leito sobre o qual adormeço.
a falta que me faz é a primeira a dar-me os bons dias.
eterno recomeço...
etéreo e ubíquo corpo que reparto desigual pelo meu desejo e poesias.
leal maria
sábado, 12 de dezembro de 2009
exílio
…é assim que de repente,
me vejo exilado nas memórias.
e como quem não sente,
nelas não reconheço as minhas histórias.
de onde venho esqueci...
tão pouco sei para onde vou!
estou exilado aqui
e o rosto que me dá forma não mostra o que sou.
deixei para trás,
dissolvidas nos lábios que em despedida beijei,
estéreis para os vindouros amanhãs,
as sementes que nesses corpos alheios semeei .
acompanha-me uma sensação de orfandade,
gerado num voluntário esquecimento.
prisão feita dessa liberdade,
onde nenhuma ânsia nos faz antecipar o momento.
volátil;
limito-me ao fruir dos dias
na mais absoluta lassidão.
Vendo desfilar diante de mim,
as suas horas só aparentemente vazias,
sem que tente segurar-lhes as rédeas na mão.
não quero exercer sobre eles qualquer soberania...
prefiro-os assim anárquicos!
a incerteza com o que tem de poesia;
à segurança dos dias estáticos!
sou migrante do sentido.
caminhante da sua sinuosa geografia…
à beira do precipício sustido;
entre a saudade do que vai haver e a ânsia do que havia…
leal maria
me vejo exilado nas memórias.
e como quem não sente,
nelas não reconheço as minhas histórias.
de onde venho esqueci...
tão pouco sei para onde vou!
estou exilado aqui
e o rosto que me dá forma não mostra o que sou.
deixei para trás,
dissolvidas nos lábios que em despedida beijei,
estéreis para os vindouros amanhãs,
as sementes que nesses corpos alheios semeei .
acompanha-me uma sensação de orfandade,
gerado num voluntário esquecimento.
prisão feita dessa liberdade,
onde nenhuma ânsia nos faz antecipar o momento.
volátil;
limito-me ao fruir dos dias
na mais absoluta lassidão.
Vendo desfilar diante de mim,
as suas horas só aparentemente vazias,
sem que tente segurar-lhes as rédeas na mão.
não quero exercer sobre eles qualquer soberania...
prefiro-os assim anárquicos!
a incerteza com o que tem de poesia;
à segurança dos dias estáticos!
sou migrante do sentido.
caminhante da sua sinuosa geografia…
à beira do precipício sustido;
entre a saudade do que vai haver e a ânsia do que havia…
leal maria
golpe de mão
as tuas mãos
assim, firmemente cerradas
hoje, como tantas outrora, ansiosas
têm nelas a germinar
os mesmos gritos que profanaram virgens madrugadas
na mesma lei do dente por dente e olho por olho tão ciosas.
houve um tempo em que só caricias as ocupavam
longínqua memória
quando as manhãs te despertavam
ainda folha em branco,
onde havia a possibilidade de uma outra estória.
mas se faz tão tarde...
tão tarde e tu sabe-lo bem
em teu peito todo o amor sucumbiu ao ódio que nele arde
és tu e mais ninguém
acerca das virtudes da castrense camaradagem
tantas foram as dissertações que ouviste
vã sapiência
que não evitou que viesses a ocupar, no grande rio da vida, a outra margem
aí, bem firme e de pé, sabes bem que já caíste
tombaste para o lado onde mais reina a solidão
não interessa os abraços a celebrar vitória na batalha.
a feérica luz é efémera e em ti é lesta a sobrevir a escuridão
habita-la e é já mais golpe menos golpe que na tua alma se talha
hoje, como outros igual a ti ontem, semeias os mesmos medos
fertilizas de sangue campos de morte
embrenhando-te no mais terrível dos degredos
que é a fraqueza de tentar fazer prevalecer a vontade do mais forte.
enviaram-te e tu
voluntarioso, sonhaste com a glória
fortaleceste os músculos e apuraste as técnicas no eficiente matar.
reivindicas-te autor de uma parte substancial da história
mas da tua obra, faz-se maior o ensurdecedor som do órfão a chorar
tudo tem um término, porque cansa tudo o que tende a eternizar-se
voltarás e homenagear-te-ão
dizendo que continuas a ser parte importante da engrenagem de um projecto ainda a realizar-se
uma medalha e um aperto de mão
e no alto pedestal do seu orgulho, deixarão ainda, a tua pessoa manifestar-se
depois, remeter-te-ão ao subtil silêncio do dever cumprido
paulatinamente, serás esquecido por haver outros em teu lugar
mais frescos, sem que nada ainda os haja comprometido
o choque da perda de inocência, não lhes fará buscar justificações para o indiscriminado matar
ouvirás ministrarem-lhes as mesmas ideologias tealogais
com que te conquistaram a alma para do teu corpo usufruírem
e quando por fim os vires embarcar
heróicos, num triste cais
anteverás o morrer de sonhos quando muitos por terra caírem
dirás, para teu próprio consolo, que não tiveste alternativa
que perante o chamamento do dever, não vacilaste
pelo teu esforço é que a razão dos teus se mantém viva
e que isso, por si só, justifica todos os que mataste
em tua honra erguerás triunfante uma taça de vinho
atrás dessa, outra virá, antecedendo muitas mais que virão
quando olhares em teu redor, outros como tu fazer-te-ão sentir ainda mais sozinho
e passarás a fruir os dias numa letárgica subtracção
quando por fim, o tempo te subtrair o último dia
encontrar-te-á sem honra nem glória, numa imunda sarjeta de uma qualquer cidade
o incomodo do teu cadáver não merecerá uma elegia
apodrecerá com a tua carne tudo aquilo que agora é em ti vontade
mas que importa o futuro?
interessa é alimentar essa raiva que te mantém alerta
há que ser duro...
não tarda, alimentarás de mais dor a guerra, em mais um dia que desperta
leal maria
assim, firmemente cerradas
hoje, como tantas outrora, ansiosas
têm nelas a germinar
os mesmos gritos que profanaram virgens madrugadas
na mesma lei do dente por dente e olho por olho tão ciosas.
houve um tempo em que só caricias as ocupavam
longínqua memória
quando as manhãs te despertavam
ainda folha em branco,
onde havia a possibilidade de uma outra estória.
mas se faz tão tarde...
tão tarde e tu sabe-lo bem
em teu peito todo o amor sucumbiu ao ódio que nele arde
és tu e mais ninguém
acerca das virtudes da castrense camaradagem
tantas foram as dissertações que ouviste
vã sapiência
que não evitou que viesses a ocupar, no grande rio da vida, a outra margem
aí, bem firme e de pé, sabes bem que já caíste
tombaste para o lado onde mais reina a solidão
não interessa os abraços a celebrar vitória na batalha.
a feérica luz é efémera e em ti é lesta a sobrevir a escuridão
habita-la e é já mais golpe menos golpe que na tua alma se talha
hoje, como outros igual a ti ontem, semeias os mesmos medos
fertilizas de sangue campos de morte
embrenhando-te no mais terrível dos degredos
que é a fraqueza de tentar fazer prevalecer a vontade do mais forte.
enviaram-te e tu
voluntarioso, sonhaste com a glória
fortaleceste os músculos e apuraste as técnicas no eficiente matar.
reivindicas-te autor de uma parte substancial da história
mas da tua obra, faz-se maior o ensurdecedor som do órfão a chorar
tudo tem um término, porque cansa tudo o que tende a eternizar-se
voltarás e homenagear-te-ão
dizendo que continuas a ser parte importante da engrenagem de um projecto ainda a realizar-se
uma medalha e um aperto de mão
e no alto pedestal do seu orgulho, deixarão ainda, a tua pessoa manifestar-se
depois, remeter-te-ão ao subtil silêncio do dever cumprido
paulatinamente, serás esquecido por haver outros em teu lugar
mais frescos, sem que nada ainda os haja comprometido
o choque da perda de inocência, não lhes fará buscar justificações para o indiscriminado matar
ouvirás ministrarem-lhes as mesmas ideologias tealogais
com que te conquistaram a alma para do teu corpo usufruírem
e quando por fim os vires embarcar
heróicos, num triste cais
anteverás o morrer de sonhos quando muitos por terra caírem
dirás, para teu próprio consolo, que não tiveste alternativa
que perante o chamamento do dever, não vacilaste
pelo teu esforço é que a razão dos teus se mantém viva
e que isso, por si só, justifica todos os que mataste
em tua honra erguerás triunfante uma taça de vinho
atrás dessa, outra virá, antecedendo muitas mais que virão
quando olhares em teu redor, outros como tu fazer-te-ão sentir ainda mais sozinho
e passarás a fruir os dias numa letárgica subtracção
quando por fim, o tempo te subtrair o último dia
encontrar-te-á sem honra nem glória, numa imunda sarjeta de uma qualquer cidade
o incomodo do teu cadáver não merecerá uma elegia
apodrecerá com a tua carne tudo aquilo que agora é em ti vontade
mas que importa o futuro?
interessa é alimentar essa raiva que te mantém alerta
há que ser duro...
não tarda, alimentarás de mais dor a guerra, em mais um dia que desperta
leal maria
sábado, 14 de novembro de 2009
individualismo
vejo-os irem
massa compacta em convicção absoluta
jurando-se de uma lealdade a toda a prova
não é esse o meu lado da luta
castrar-me-iam a curiosidade
que permanentemente em mim se renova
assediam-me com falsos brilhos
refulgentes
mas são outros os meus trilhos
egoísta
recuso contribuir para a dialéctica entre essa miríade de mentes
não avalizarei credos que outros têm
vãs glórias são os grande feitos por ser tanta a podridão que lhes houve
aliados não me convêm
sou submisso a uma razão que mais nenhuma razão ouve
às ideias que a tantos irmanaram
nenhuma tentação lhes encontrei
aos deuses que adoraram
não lhes fiz nenhuma libação
aos que querem saber para onde vou respondo que o não sei
tão pouco obedeço ao coração
insubmisso
vou sempre contra a corrente
ainda que ela
eventualmente
possa correr para o lado certo
sigo o rumo contrário ao de toda a gente
viro as costas ao oásis e tomo o caminho do deserto
nada me move a não ser a contradição
não gosto que me indiquem o caminho
recuso quem me estende a mão
é de uma só casta que faço o meu vinho
aliciam-me para que com eles eu vá
em doces palavras
mas digo-lhes adeus
acenando-lhes na sobranceria das minhas loucuras
são outras as minhas lavras
semeio uma miscelânea de ódios; indiferenças e ternuras
resisto
resisto até aos meus próprios desejos
e não desisto
enquanto a definitiva derrota não me violentar com os seus frios beijos
leal maria
massa compacta em convicção absoluta
jurando-se de uma lealdade a toda a prova
não é esse o meu lado da luta
castrar-me-iam a curiosidade
que permanentemente em mim se renova
assediam-me com falsos brilhos
refulgentes
mas são outros os meus trilhos
egoísta
recuso contribuir para a dialéctica entre essa miríade de mentes
não avalizarei credos que outros têm
vãs glórias são os grande feitos por ser tanta a podridão que lhes houve
aliados não me convêm
sou submisso a uma razão que mais nenhuma razão ouve
às ideias que a tantos irmanaram
nenhuma tentação lhes encontrei
aos deuses que adoraram
não lhes fiz nenhuma libação
aos que querem saber para onde vou respondo que o não sei
tão pouco obedeço ao coração
insubmisso
vou sempre contra a corrente
ainda que ela
eventualmente
possa correr para o lado certo
sigo o rumo contrário ao de toda a gente
viro as costas ao oásis e tomo o caminho do deserto
nada me move a não ser a contradição
não gosto que me indiquem o caminho
recuso quem me estende a mão
é de uma só casta que faço o meu vinho
aliciam-me para que com eles eu vá
em doces palavras
mas digo-lhes adeus
acenando-lhes na sobranceria das minhas loucuras
são outras as minhas lavras
semeio uma miscelânea de ódios; indiferenças e ternuras
resisto
resisto até aos meus próprios desejos
e não desisto
enquanto a definitiva derrota não me violentar com os seus frios beijos
leal maria
sábado, 7 de novembro de 2009
Onírica soberania
fossem os sonhos soberanos
e erguer-me-ia de cada corpo
renascido
emergindo triunfante de todos os abismos em que me embrenhasse
sem que por nada fosse possuído
somente refém das memórias dos sentidos com que amasse
fossem os sonhos soberanos
e o meu país albergaria os lugares onde todos os desejos nasceriam
teria sua geografia a suave forma da ternura que se adivinha num abraço
as incertezas então seriam
diáfanas luzes preenchendo o que de vazio houvesse no meu espaço
fossem os sonhos soberanos
e bastar-me-ia um olhar para que tudo se dissesse
estenderia minha mão e a aceitariam sem constrangimentos
seria o mundo uma síntese do que eu quisesse
fluir-me-iam sem barreiras os sentimentos
fossem os sonhos soberanos
olharia em redor e vislumbraria múltiplas saídas
em aberto todas as possibilidades
um fruir ubíquo da vida em muitas mais vidas
ausentes somente as saudades
seja-me então o sonho soberano
erga-me do teu corpo renascido
emirja triunfante de todo o abismo em que me embrenhe
somente possuído
pela memória do sentido de que por ti ando há muito prenhe
sejam-me então o sonho soberano
faça de mim o país onde todos os desejos nascerão
e suave a sua geografia
como a prometida carícia exposta na tua impoluta mão
profusas e diáfanas luzes da poesia
me preencham a barbara alma
seja-me cada manhã uma incerteza
e somente me aquiete lá pela tarde calma
embriagado no perfume da tua humana natureza
leal maria
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
uma leitura dos silêncios
…e afinal,
há mais para além dos silêncios
que ausências tornaram um espaço vazio:
ouve-se o sussurro das palavras que ficaram por dizer.
são elas um corpo frio…
acabarão por perecer.
as certezas são aparentes e adivinham-se-me fingidas.
Imponho convicção aos gestos para que me não denunciem.
exíguas singularidades de tão repartido por tantas vidas
há mais para além dos silêncios
que ausências tornaram um espaço vazio:
ouve-se o sussurro das palavras que ficaram por dizer.
são elas um corpo frio…
acabarão por perecer.
as certezas são aparentes e adivinham-se-me fingidas.
Imponho convicção aos gestos para que me não denunciem.
exíguas singularidades de tão repartido por tantas vidas
suspenso
ávido por um qualquer sinal que me enviem.
quanto mais avanço,
ávido por um qualquer sinal que me enviem.
quanto mais avanço,
mais me afasto do que quero.
Inevitavelmente,
Inevitavelmente,
preso às memórias do que vai ficando para trás.
espero,
impacientemente, mas espero,
aquele sossego d´alma que nos irmana com a paz.
haverá sempre alguém a partir…
olha-se o horizonte na esperança de ver outro alguém chegar.
devia talvez,
espero,
impacientemente, mas espero,
aquele sossego d´alma que nos irmana com a paz.
haverá sempre alguém a partir…
olha-se o horizonte na esperança de ver outro alguém chegar.
devia talvez,
tomar o destino em mãos e ser eu a ir,
de encontro ao que quero achar.
mas já nada me move para além da inércia usual...
deixo-me levar ao sabor do acaso.
nada relativizo e tudo aceito como fundamental.
vejo sinais de um destino maior em todo o caminho por onde passo .
leio silêncios com sobranceira literacia,
numa enviesada e conveniente leitura.
tentativa de espremer-lhes uma impossível poesia,
com que daria corpo a uma possível ternura.
todo eu sou uma intensidade letárgica.
avassalador turbilhão contido num corpo que o tempo vai vencendo.
a toada trágica,
de um personagem que, ingloriamente, vai da peça desaparecendo…
leal maria
de encontro ao que quero achar.
mas já nada me move para além da inércia usual...
deixo-me levar ao sabor do acaso.
nada relativizo e tudo aceito como fundamental.
vejo sinais de um destino maior em todo o caminho por onde passo .
leio silêncios com sobranceira literacia,
numa enviesada e conveniente leitura.
tentativa de espremer-lhes uma impossível poesia,
com que daria corpo a uma possível ternura.
todo eu sou uma intensidade letárgica.
avassalador turbilhão contido num corpo que o tempo vai vencendo.
a toada trágica,
de um personagem que, ingloriamente, vai da peça desaparecendo…
leal maria
domingo, 25 de outubro de 2009
assassino de deuses me confesso
putrefactas,
vi as palavras dos profetas jazidas pelo chão...
obscuras actas,
da divina escuridão.
adivinhei-lhes todos os grilhões com que amordaçaram ideias.
ouvi-lhes todos os gritos dos que torturaram em nome da fé.
senti o cheiro a gordura
dos cadáveres que alimentaram as suas candeias;
soube-lhes todas as artimanhas com que derrubaram o Homem em pé.
para quê a suas promessas de eternidade?
que felicidade encerra uma perpétua submissão?
se a isso chamam a comunhão com a divindade;
com orgulho me declaro mortal,
que minha mãe é a terra e meu ventre foi o seu chão.
os deuses que em mim houve, morreram...
definharam consoante me ia clareando o dia.
obtusa negação das razões pelas quais em mim nasceram;
esconjurei-os pela liberdade que em mim nascia.
apátrida de todo o prometido céu,
aliei-me à pureza instintiva do demónio que em mim existe.
com orgulho me assumo réu;
por obstinada recusa em lhes talhar a fisionomia furibunda e triste.
afastei o cálice que me estenderam…
meu sangue e lágrimas não dará ao seu nefasto conteúdo o sabor.
serei aquele que eles para sempre perderam;
dual, alternado entre o ódio e o amor.
nego proselitismo ao seus ministérios.
anárquico, sempre, perante os divinos critérios!
morreram os deuses que me habitaram.
há muito os sepultei.
ao olhar a obra que criaram,
nenhum remorso me subsiste…
com alegria em mim os matei!
leal maria
vi as palavras dos profetas jazidas pelo chão...
obscuras actas,
da divina escuridão.
adivinhei-lhes todos os grilhões com que amordaçaram ideias.
ouvi-lhes todos os gritos dos que torturaram em nome da fé.
senti o cheiro a gordura
dos cadáveres que alimentaram as suas candeias;
soube-lhes todas as artimanhas com que derrubaram o Homem em pé.
para quê a suas promessas de eternidade?
que felicidade encerra uma perpétua submissão?
se a isso chamam a comunhão com a divindade;
com orgulho me declaro mortal,
que minha mãe é a terra e meu ventre foi o seu chão.
os deuses que em mim houve, morreram...
definharam consoante me ia clareando o dia.
obtusa negação das razões pelas quais em mim nasceram;
esconjurei-os pela liberdade que em mim nascia.
apátrida de todo o prometido céu,
aliei-me à pureza instintiva do demónio que em mim existe.
com orgulho me assumo réu;
por obstinada recusa em lhes talhar a fisionomia furibunda e triste.
afastei o cálice que me estenderam…
meu sangue e lágrimas não dará ao seu nefasto conteúdo o sabor.
serei aquele que eles para sempre perderam;
dual, alternado entre o ódio e o amor.
nego proselitismo ao seus ministérios.
anárquico, sempre, perante os divinos critérios!
morreram os deuses que me habitaram.
há muito os sepultei.
ao olhar a obra que criaram,
nenhum remorso me subsiste…
com alegria em mim os matei!
leal maria
domingo, 18 de outubro de 2009
sobrevive a esperança ao bucólico desencanto
deu a alma toda dispondo o corpo completo
à gula de quem tomou como traje a pele do predador
submissa, aguardou que algum afecto
fosse o desejado bálsamo para a sua dor
mas ausências amputaram-lhe sonhos
tão grávida de segredos
dentro de si os trouxe como se fora filhos
havia-os gerado nos esforços medonhos
ao desbravar novos trilhos
mas ali,
suave como sempre o fora
decantou com o olhar
tudo o que a flor tinha como essência da primeira hora
e desejou-a um mundo perfeito
forma do grito trazido amordaçado no peito
que crescesse junto ao suave canto
que a trazia no espanto
das coisas a crescer anárquicas e sem espartilhos.
pétala a pétala ia-se descobrindo
moldando corpo e alma ao desejo
como a primeira nota da melodia de um deus rindo
ansioso lábio à espera do beijo
há muito fertilizava-a o pólen das coisas inquietas
às memórias dos tempos que foram duros
sobreporia a luz das manhãs despertas
libertar-se-ia das sombras existentes entre muros
em comunhão com o destino da flor
perenes
somente ser-lhe-iam as boas recordações
ainda que efémeras as glórias do amor
numa ideia de eternidade germinar-lhe-iam as emoções
leal maria
à gula de quem tomou como traje a pele do predador
submissa, aguardou que algum afecto
fosse o desejado bálsamo para a sua dor
mas ausências amputaram-lhe sonhos
tão grávida de segredos
dentro de si os trouxe como se fora filhos
havia-os gerado nos esforços medonhos
ao desbravar novos trilhos
mas ali,
suave como sempre o fora
decantou com o olhar
tudo o que a flor tinha como essência da primeira hora
e desejou-a um mundo perfeito
forma do grito trazido amordaçado no peito
que crescesse junto ao suave canto
que a trazia no espanto
das coisas a crescer anárquicas e sem espartilhos.
pétala a pétala ia-se descobrindo
moldando corpo e alma ao desejo
como a primeira nota da melodia de um deus rindo
ansioso lábio à espera do beijo
há muito fertilizava-a o pólen das coisas inquietas
às memórias dos tempos que foram duros
sobreporia a luz das manhãs despertas
libertar-se-ia das sombras existentes entre muros
em comunhão com o destino da flor
perenes
somente ser-lhe-iam as boas recordações
ainda que efémeras as glórias do amor
numa ideia de eternidade germinar-lhe-iam as emoções
leal maria
marinheiros deste barco
tu
o outro de mim que lá vens
sossega o passo e adia o destino que levas
senta-te aqui e mostra-me o que dentro de ti conténs
a cada descanso que te permites
é mais um lugar onde a luz dissipa as trevas
sei que contigo não trazes nenhuma verdade
por isso reclamo a tua companhia
basta-me saber que do futuro sentes saudade
e ao passado olha-o como se fora um verso mais da universal poesia
deixa-te aqui estar mais um bocadinho
falemos dos amores que perdemos mas também do que podemos vir a encontrar
que quando definitivamente te fores
não irás sozinho
ver-me-ás ao teu lado caminhar
afinal
desde sempre os nossos caminhos seguem paralelos
e ainda que muitas das vezes divirja-mos sobre perspectiva com que um problema se deve abordar
são sempre os nossos diálogos tão belos
que inexoravelmente é a um mar de novas perguntas onde acabamos por desaguar
é bom ser este rio sem um peixe costumeiro
sinuoso mas ainda assim inteiro
onde o navegar não se espartilha numa ciência exacta
e nenhuma barragem nos mata
porque nesta nossa flexibilidade
encontramos sempre uma outra possibilidade
recanto onde acentuamos a erosão
e nos permite passarmos adiante
perene tentativa de domar o destino na mão
contribuindo um pouco mais para o ancestral sonho do infante
levantemo-nos então
olhemos o caminho em frente com a original emoção
como se de agora em diante fosse o primeiro dos dias
seja-mos marinheiros sequiosos de matinais maresias
agarremos firmes os cabos e a esperança
ancorados somente na determinação
que o sonho nunca se alcança
se ganharem raízes os pés quando os pousamos no chão
tu
o outro que eu sou
aquele que comigo o sonho buscou
vem daí e chama também os muitos outros que somos
saiba-mos realizar alguns dos sonhos que sonharam aqueles que fomos
e nesta promíscua multiplicidade
saibamos antever somente o ténue vislumbre da absoluta verdade
vai ser bom chegar ao fim e ainda tanto por realizar
saber que fica ainda tanto por navegar
leal maria
o outro de mim que lá vens
sossega o passo e adia o destino que levas
senta-te aqui e mostra-me o que dentro de ti conténs
a cada descanso que te permites
é mais um lugar onde a luz dissipa as trevas
sei que contigo não trazes nenhuma verdade
por isso reclamo a tua companhia
basta-me saber que do futuro sentes saudade
e ao passado olha-o como se fora um verso mais da universal poesia
deixa-te aqui estar mais um bocadinho
falemos dos amores que perdemos mas também do que podemos vir a encontrar
que quando definitivamente te fores
não irás sozinho
ver-me-ás ao teu lado caminhar
afinal
desde sempre os nossos caminhos seguem paralelos
e ainda que muitas das vezes divirja-mos sobre perspectiva com que um problema se deve abordar
são sempre os nossos diálogos tão belos
que inexoravelmente é a um mar de novas perguntas onde acabamos por desaguar
é bom ser este rio sem um peixe costumeiro
sinuoso mas ainda assim inteiro
onde o navegar não se espartilha numa ciência exacta
e nenhuma barragem nos mata
porque nesta nossa flexibilidade
encontramos sempre uma outra possibilidade
recanto onde acentuamos a erosão
e nos permite passarmos adiante
perene tentativa de domar o destino na mão
contribuindo um pouco mais para o ancestral sonho do infante
levantemo-nos então
olhemos o caminho em frente com a original emoção
como se de agora em diante fosse o primeiro dos dias
seja-mos marinheiros sequiosos de matinais maresias
agarremos firmes os cabos e a esperança
ancorados somente na determinação
que o sonho nunca se alcança
se ganharem raízes os pés quando os pousamos no chão
tu
o outro que eu sou
aquele que comigo o sonho buscou
vem daí e chama também os muitos outros que somos
saiba-mos realizar alguns dos sonhos que sonharam aqueles que fomos
e nesta promíscua multiplicidade
saibamos antever somente o ténue vislumbre da absoluta verdade
vai ser bom chegar ao fim e ainda tanto por realizar
saber que fica ainda tanto por navegar
leal maria
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