sábado, 19 de dezembro de 2009

sonho-a

sonho-a…
na verdade nunca a quis realmente.
foi sempre como sonho que a desejei.
tê-la comigo, assim, primordial semente;
louca quimera que a um deus egoísta roubei.

como sonho,
é mais cómodo tê-la em mim:
ser senhor de a continuar a amar ou decidir dar-lhe um fim.
sim, é muito melhor eu a sonhar!

não que não deseje que as minhas mãos a moldem ao meu querer.
agarrar-lhe as ancas e,
com ímpetos viris, dela tomar posse como minha mulher;
mas isso seria profanar a minha maneira de a amar.

conspurcaria a memória que em mim há,
do seu olhar prenhe de meiguice.
corromper-se-ia o dogmático sentido que em palavras lhe disse.
a subordinação do que sinto, às fomes de que trago o corpo farto,
fa-la-ia em mim renascer, num novo e agoniante parto.

sim,
como sonho é minha perene companheira.
é-me a sua fisionomia imutável.
gosto de a sentir à minha beira;
quando à imensidão da saudade vou resgatar o seu sorriso amável.

mas tudo está em mutação...
não sou sequer o mesmo que era há um minuto atrás.
os dias, vertiginosos, passam-me de raspão;
trazendo-me um poente de memórias que não me satisfaz.

esmaga-me a passagem do tempo e a sua inevitabilidade.
mas ela mantem-se a principal razão,
porque calcorreio os caminhos, onde em vão, procuro a ideal idade.

sonho-a…
a sua memória tem sido o leito sobre o qual adormeço.
a falta que me faz é a primeira a dar-me os bons dias.
eterno recomeço...
etéreo e ubíquo corpo que reparto desigual pelo meu desejo e poesias.





leal maria

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