sábado, 12 de dezembro de 2009

golpe de mão

as tuas mãos
assim, firmemente cerradas
hoje, como tantas outrora, ansiosas
têm nelas a germinar
os mesmos gritos que profanaram virgens madrugadas
na mesma lei do dente por dente e olho por olho tão ciosas.

houve um tempo em que só caricias as ocupavam
longínqua memória
quando as manhãs te despertavam
ainda folha em branco,
onde havia a possibilidade de uma outra estória.

mas se faz tão tarde...
tão tarde e tu sabe-lo bem
em teu peito todo o amor sucumbiu ao ódio que nele arde
és tu e mais ninguém

acerca das virtudes da castrense camaradagem
tantas foram as dissertações que ouviste
vã sapiência
que não evitou que viesses a ocupar, no grande rio da vida, a outra margem
aí, bem firme e de pé, sabes bem que já caíste

tombaste para o lado onde mais reina a solidão
não interessa os abraços a celebrar vitória na batalha.
a feérica luz é efémera e em ti é lesta a sobrevir a escuridão
habita-la e é já mais golpe menos golpe que na tua alma se talha

hoje, como outros igual a ti ontem, semeias os mesmos medos
fertilizas de sangue campos de morte
embrenhando-te no mais terrível dos degredos
que é a fraqueza de tentar fazer prevalecer a vontade do mais forte.

enviaram-te e tu
voluntarioso, sonhaste com a glória
fortaleceste os músculos e apuraste as técnicas no eficiente matar.
reivindicas-te autor de uma parte substancial da história
mas da tua obra, faz-se maior o ensurdecedor som do órfão a chorar

tudo tem um término, porque cansa tudo o que tende a eternizar-se
voltarás e homenagear-te-ão
dizendo que continuas a ser parte importante da engrenagem de um projecto ainda a realizar-se
uma medalha e um aperto de mão
e no alto pedestal do seu orgulho, deixarão ainda, a tua pessoa manifestar-se

depois, remeter-te-ão ao subtil silêncio do dever cumprido
paulatinamente, serás esquecido por haver outros em teu lugar
mais frescos, sem que nada ainda os haja comprometido
o choque da perda de inocência, não lhes fará buscar justificações para o indiscriminado matar

ouvirás ministrarem-lhes as mesmas ideologias tealogais
com que te conquistaram a alma para do teu corpo usufruírem
e quando por fim os vires embarcar
heróicos, num triste cais
anteverás o morrer de sonhos quando muitos por terra caírem

dirás, para teu próprio consolo, que não tiveste alternativa
que perante o chamamento do dever, não vacilaste
pelo teu esforço é que a razão dos teus se mantém viva
e que isso, por si só, justifica todos os que mataste

em tua honra erguerás triunfante uma taça de vinho
atrás dessa, outra virá, antecedendo muitas mais que virão
quando olhares em teu redor, outros como tu fazer-te-ão sentir ainda mais sozinho
e passarás a fruir os dias numa letárgica subtracção

quando por fim, o tempo te subtrair o último dia
encontrar-te-á sem honra nem glória, numa imunda sarjeta de uma qualquer cidade
o incomodo do teu cadáver não merecerá uma elegia
apodrecerá com a tua carne tudo aquilo que agora é em ti vontade

mas que importa o futuro?
interessa é alimentar essa raiva que te mantém alerta
há que ser duro...
não tarda, alimentarás de mais dor a guerra, em mais um dia que desperta

leal maria

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