sábado, 12 de dezembro de 2009

Um soldado de tocaia

as tuas mãos,
assim, firmemente cerradas;
hoje, como tantas outrora, ansiosas;
preparam-se para dar à luz,
os mesmos gritos que profanaram virgens madrugadas;
na mesma lei do dente por dente e olho por olho tão ciosas.
 
houve um tempo em que só caricias as ocupavam.
longínqua memória,
quando as manhãs te despertavam
ainda folha em branco,
onde havia a possibilidade de escreveres uma outra história.
 
mas se faz tão tarde...
tão tarde e tu sabe-lo bem!
em teu peito todo o amor sucumbiu ao ódio que nele arde;
és tu e mais ninguém!
 
acercas das virtudes da castrense camaradagem,
tantas foram as dissertações que ouviste.
vã sapiência,
que não evitou que viesses a ocupar, no grande rio da vida, a outra margem.
aí, bem firme e de pé, sabes bem que já caíste!
 
tombaste para o lado onde mais reina a solidão.
não interessa quantos são os abraços sempre que ganhas uma batalha.
a luz é efémera e em ti é lesta a sobrevir a escuridão;
habita-la e é já mais golpe menos golpe que na tua alma se talha.
 
hoje, como outros igual a ti ontem, semeias os mesmos medos.
fertilizas de sangue campos de morte;
embrenhando-te no mais terrível dos degredos,
que é a fraqueza de tentar fazer prevalecer a vontade do mais forte.
 
enviaram-te e tu, voluntarioso, sonhaste com a glória...
fortaleceste os músculos e apuraste as técnicas do eficiente matar.
reivindicas-te autor de uma parte substancial da história;
mas da tua obra, faz-se maior o ensurdecedor som do órfão a chorar!
 
tudo tem um término, porque cansa tudo o que tende a eternizar-se.
voltarás e homenagear-te-ão;
dizendo que continuas a ser parte importante da engrenagem de um projecto ainda a realizar-se.
uma medalha e um aperto de mão
e no alto pedestal do seu orgulho, deixarão ainda, a tua pessoa manifestar-se.
 
depois, remeter-te-ão ao subtil silêncio do dever cumprido.
paulatinamente, serás esquecido por haver outros em teu lugar.
mais frescos, sem que nada ainda os haja comprometido.
o choque da perda de inocência, não lhes fará buscar justificações para o indiscriminado matar.  
 
ouvirás ministrarem-lhes as mesmas ideologias tealogais
com que te conquistaram a alma para do teu corpo usufruírem.
e quando por fim os vires embarcar, heróicos, num triste cais,
anteverás o morrer de sonhos quando alguns por terra caírem.
 
dirás, para teu próprio consolo, que não tiveste alternativa.
que perante o chamamento do dever, não vacilaste.
pelo teu esforço é que a razão dos teus se mantém viva.
e que isso, por si só, justifica todos os que mataste.
 
em tua honra erguerás triunfante uma taça de vinho.
atrás dessa, outra virá, antecedendo muitas mais que virão.
quando olhares em teu redor, outros como tu fazer-te-ão sentir ainda mais sozinho.
e passarás a fruir os dias numa letárgica subtracção.
 
quando por fim, o tempo te subtrair o último dia,
encontrar-te-à sem honra nem glória, numa imunda sarjeta de uma qualquer cidade.
o incomodo do teu cadáver não merecerá uma elegia,
apodrecerá com a tua carne tudo aquilo que agora é em ti vontade.
 
mas que importa o futuro?!
interessa é alimentar essa raiva que te mantém alerta!
há que ser duro...
não tarda, alimentarás de mais dor a guerra, em mais um dia que desperta!
 
leal maria 

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