domingo, 6 de março de 2011

liquido amniótico da brutalidade

deixei que o silêncio
se sobrepusesse às minhas maiores vontades
a resignação como um lugar de aconchego
descobrir tão etéreo
a natureza do que tomei como absolutas verdades
forçou-me a apropriar-me das coisas com muito menos apego

se perguntas houve a que não soube dar resposta
acabei por desistir de as formular
não arrisquei tudo
e não arriscar foi uma má aposta
hesitei entre o passo em frente e o recuar

hesitação que me fez marcar passo
abster-me da dinâmica de um grito de revolta
recusei vincular-me a todo o contrato lavrado num simples abraço
embrenhar-me em labirintos
em que não tivesse a certeza de encontrar o caminho de volta

o sossego valorizado em demasia
interessava evitar a inquietude acima de tudo
outrora perdido na sinuosa geografia da poesia
optei por chegar calado e partir mudo

e assim ancorado à covardia
em lugar nenhum logrei encontrar um porto de abrigo
perdido um dos possíveis futuros ao recusar o que já havia
falta-me definir o que agora persigo

porque de volta à vertigem dos sentidos
onde a miragem é em si mesma algo de muito substancial
dou comigo a ser cinzel que esculpe corpos com rostos repetidos
sem que lhes descubra no âmago a essência fundamental

falta-me a voz quando tento articular uma primeira palavra
a persistência do meu forçado silêncio é-me algo ensurdecedor
nada resta de virgem na minha alma
e ainda que nela cave bem fundo com o brutal esforço de uma dolorosa lavra
dou comigo indiferente até à dor

o amoral desapego substanciou a minha brutalidade
dando-lhe a consistência do granito
sem dar por isso
passei p´ra lá da mais complexa sentimentalidade
um rugido de fúria é o que se ouve sempre que grito


leal maria

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

livre consciência

violento não é
o fluir das estrelas no espaço Sideral
nem o adeus que definitivamente se disse
tão pouco
a retórica sem a frase fundamental
ou passar pelo sonho sem que ele nos possuísse

a dor que nos infligem
a mentira com que nos difamaram
as demagogias que nos impingem
o amor que queríamos dar e o rejeitaram

não
nisso nada há de muito violento
é a efémera superficialidade da dor
contratempo de nos contrariarem o intento
o breve esfriar do ardor

nas regras em que nos espartilham
não temos que aceitar a violência que nela pretendem
de violência na escassez do que partilham
somente a haverá
se aceitarmos passivos a justificações que darem-nos entendem

violento é negarmo-nos a tudo
ir contra os nossos mais primários desejos
ouvir a melodia
e a canção manter-se aprisionada no nosso lábio mudo
amar-se um corpo
sem o profanar com violentos beijos

violento é calar a indignação
erguer-se bem alto alicerçado na bajulice
falta de firmeza na defesa da nossa razão
compactuar com a intrujice

não
não é violento os anátemas que nos lançam
há dor maior do que as opressões a que somos sujeitos
poderemos vir a insistir
nos objectivos que por agora não se alcançam
e purgar-nos de todas as angustias que emergem em nossos peitos

a vontade d´outros prevalecendo sobre a nossa
sem que a consciência o justifique
aderir a uma causa
em que não acreditamos e pela qual lutar não se possa
somente para que o que sempre foi fique

isso é violentarmo-nos profundamente
isso sim
sepultar o olhar no chão quando nos olham de frente
esperar no canto da arena que o combate chegue ao fim


violento
é ser-mos pequenos pelo prisma em que nos olhamos
a palavra sair titubeante quando advogamos a nossa causa
deixar-nos escravizar somente pela preservação da paz que amamos
deixar a luta a meio permitindo-nos a uma pausa

o desistir
sujeitarmo-nos à infâmia de nos verem soçobrar
persistir na obstinada crença
de um paraíso que um furibundo deus tarda em cumprir
em nome de uma qualquer  fraternidade abdicar de lutar

aceitemos o desafio das pedras que nos atirarem
não tiremos o olhar do pau que sobre nós se ergue
as pedras serão devolvidas com o dobro da violência com que nos chegarem
ao pau faremos com que à nossa vontade se vergue

honra e força seja a nossa divisa
sem prestar vassalagem a um qualquer deus ou ideologia
somente vinculados à premissa:
violento é não obedecer à consciência que nos guia


leal maria

sábado, 18 de dezembro de 2010

nos dias em que te amava

nos dias em que te amava
eram as coisas tão mutáveis como o são hoje
amiúde
o que tinha como certo mudava
havia também esse algo indefinido
que continuo a tentar alcançar e me foge

naqueles dias
em que era grande o meu amor por ti
de tantas promiscuidades contaminando-me os sentidos
tão grande era o desespero como o que agora senti
ao intuir definitivamente perdidos
os mundos que de te amar construí

sim
nada têm de diferente os dias de agora
por comparação com aqueles em que desesperava por ver-te
o mesmo vazio perante a inexorável multiplicação da hora
a mesma desesperada procura
das palavras com que lograria vencer-te

e não sendo diferentes dos de então
têm a desvantagem
de serem massa pouco moldável à disposição da minha vontade
anarquia migrante
dos meus sentimentos em perpétua viagem
manietados
tendente a regressar sempre a uma pretérita idade

mas há que seguir adiante
na contínua fuga à memória dos dias em que te amava
desejar a indefinida linha lá tão distante
onde não se ouçam os ecos
de quando desesperado por ti chamava

que é a vida senão uma fuga em frente
a inevitável impossibilidade de voltar-mos atrás
resta-me a ilusão
que em mim nenhum amor por ti se sente
e a sempre frustrada tentativa
de nos dias somados encontrar alguma paz


leal maria

domingo, 12 de dezembro de 2010

d´outro tempo que a memória foi buscar

sobretudo
a memória de fragmentos de manhãs
e um corpo fêmea molde do meu desejo
respirar mudo
amiúde violado com palavras vãs
não fosse denunciar-se em mim a urgência do beijo

inapropriado palco
para a representação de uma peça de ingénuo argumento
minha perfeita actuação de um triste entardecer
tosca dramaturgia
fazendo-me dramaturgo do perpétuo lamento
busca desesperada
de um sinal no olhar que me fazia enternecer

há ténues brisas sobre o que resta desses dias
levantam o pó
ao que agora são dolorosas recordações
pondo a descoberto
uma saudade mal diluída em palavras de poesias
remetidas para um baú sobrelotado de emoções

sou também Atlas
carrego sobre as costas um secreto mundo
cheio de nações a que não posso dar nome
sem retirar às palavras o seu significado mais profundo
empenho-me num inócuo chamamento que em ecos se some

sempre amei com o amor impossível da mitologia
fecundo de tanta ilusão
mas daquela luz que no horizonte luzia
não logrei reclamar para mim um quinhão

perdido o alento
para continuar em demanda de quimeras que persegui
resta-me desconstruir as que a resignação ainda não desmoronou
evitarei os caminhos que então segui
extemporânea decisão
que já não permite reencontrar-me com o que verdadeiramente sou


leal maria

domingo, 28 de novembro de 2010

teoria do caos

 num e outro olhar
 vi a solidão reflectida
 sonhos a desmoronar
 uma má vontade para com a vida

 é para o que me dá agora
 alimentar-me da desesperança alheia
 enquanto espero a ansiada hora…
 erupção
 de todas as fúrias que por estes dias se semeia

 como anseio que a anarquia chegue
 o regresso ao estado virginal
 irmanados na mesma esperança em que se persegue
 a razão fundamental

 o caos na sua mais crua natureza
 o questionar de todas as fundações
 engenharia de espírito abalando o que mais se preza
 ausência de paz em todos os corações

 a promessa de um novo mundo
 emirja dos escombros
 reivindicando-se interprete do nosso desejo mais profundo
 alguém exija ser levado em ombros

 como sempre foi
 olhá-lo-emos como providencial salvador
 mó malsã que toda a vontade mói
 libertos de um jugo
 de boa vontade submeter-nos-emos a outro senhor

 ovelhas de coeso rebanho
 norteamo-nos sempre pelo cajado do pastor
 esquecidos que nos destinam ser o puro anho
 a ser imolado
 num holocausto como devido penhor

 óh
 muita é a vontade com que desejo
 ver tanta humanidade à perene escravatura submetida
 oferecendo sempre a face ao traiçoeiro beijo
 deixar que tão poucos
 decidam por tantos a vida a ser vivida

 óh
 como bem lá no fundo
 somos tão mansos
 chapéu na mão a expressar um respeito profundo
 em troca de uma paz
 que nos vai permitindo regalados descansos

 depressa esquecemos as humilhações
 rei morto
 e logo faremos com que outro ocupe o seu lugar
 subtraímo-nos aos turbilhões
 silenciando a indignação que nos fazia gritar

 da maioria
 seja satisfeita a vontade
 venha a ansiada anarquia
 para que das ruínas se erga a mesmíssima cidade

 depois de soltas as fúrias
 quer-se é as coisas na sua torpe quietude
 nas naturezas espúrias
 conquanto tenham uma pacificadora retórica
 só se lhes vê virtude

 ainda que nada nos valha a indignação
 ( e milhares de anos dão inolvidável testemunho
 de que as coisas ficarão sempre como estão
 ainda que contra elas tenha-mos erguido o punho)
 a resignação não pode ser o que nos resta
 nunca será inócua a nossa luta
 se enquanto o caos durar fizermos a festa
 olho por olho e dente por dente for a permuta


 leal maria

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

a metamorfose forçada dos sentidos

faltam as palavras que me sobram
indecifráveis
cheias de ocultos significados
Insubmissos símbolos
que nem à minha vontade se dobram
suspensos num limbo
onde tantos sonhos foram sacrificados

sobejaram-me de um intenso sentir
esconsos alicerces agora caídos
testemunhos do eterno que acabaram por ruir
caos emergido
da metamorfose forçada dos sentidos

trôpegos são os passos que dou
ébrio de memórias a que não sei dar nome
algo indefinido que comigo ficou
e num lento desvanecer definitivamente se some

dolorosa amputação
morfologia d´alma alterada à minha revelia
como me dói
a ensurdecedora normalidade do bater do meu coração
rufar triste de tambor prefaciando uma elegia

enlutados
os tantos que sou têm semblantes de uma alegria contida
como se tudo o que foi
não deixasse a suas indeléveis marcas
sôfregos
agarram a mais ínfima prova de vida
recusando habitar os pantanosos terrenos das parcas

sobreviventes natos à dor
são a soma de tudo o que sou subtraída à tristeza
o amor
é somente um corpo estranho
de quando em vez contaminando a minha natureza



leal maria

domingo, 14 de novembro de 2010

superficialidades

de tantas fontes provêm
as lágrimas que ao longo da vida se vai vertendo
a ver bem
vertemo-las por “dá-cá-aquela-palha”
umas doce outras amargas
assim vai a humanidade vivendo
na ilusão
que todas se justificam e haverá um deus que nos valha

também as verti
com ranho e tudo mais à mistura
vertidas ao longo dos muitos anos que vivi
lágrimas de ódio
desespero e ternura

mas das que chorei,
em nenhumas encontrei uma causa sublime
nem a tristeza ou alegria que nelas houve me perdurou
algo reprime
e impregna de superficialidade
todo aquele sentido que em mim germinou

mais que a substância
tenho centrado o meu interesse na forma
ainda assim
em sintonia com a factual circunstância
de não convir muito sair da norma

sim
pela norma é que me tenho regulado
sigo a direcção que a multidão tomou
mas não tenho a certeza se me levará a algum lado
marchar ao ritmo da marcha a que o comum se moldou

qualquer coisa em mim grita estridentemente
e recusa o espartilho a que me obriga a convivência social
grávido de fúrias
parturiente de uma violência premente
tenho o ensejo de estar p´ra lá do bem e do mal

o ódio que tenho não é para isso suficiente
exigia-se um ódio extremado
inócua megalomania pelo tanto que sou de inconsequente
o eu que odeia
alterna amiúde com o que tem amado

sim eu amo pois então
ou melhor
amei
pelos menos tenho disso uma vaga recordação
mas definir com clareza o que sentia é que já não sei

havia um rosto a que o meu amor vinha sempre agregado
e quando assim é
parece coisa a sentir-se por toda a eternidade
tumultuosas águas que houvera navegado
e hoje só me desassossegam
com as densas brumas de uma indefinida saudade

provavelmente nem assim é
são tantos os subterfúgios
com que nos munimos para negar as maiores evidências
mas há que ter a ilusão ou a fé
de se poder moldar os sentimentos às nossas conveniências

sim
provavelmente amo como então amei
e é a resignação da perda que mo faz negar
não sei
ainda que ame já não quero amar

a vontade que nos habita alguma força há-de ter
se a decisão for a de amar então que se ame
eu decidi-me pela indiferença por tudo o que foi ou há-de ser
e recuso ter um nome pelo qual nos meus devaneios chame

sim
quero a forma superficial
ainda que venha ela com alguma imperfeição pela bitola do meu conceito
aperfeiçoarei com o meu desejo mais intrinsecamente carnal
a láctea pele do ainda pueril peito

o amor que em mim houver nunca seja profundo
não se projecte para lá do mais imediato instante
total desprezo por essas minudências do mundo
intruso nas feminis entranhas com a suave frieza do bom amante

é este o meu desejo mais intenso:
a mesma placidez
seja qual for os cambiantes de paisagem que vejo pela janela
humores subservientes àquilo que penso
somente regulado pela condição que de mim faz pó de uma estrela


leal maria

sábado, 13 de novembro de 2010

confiança

ainda os ouço… ténues rumores…
sopro de vento, promíscuo entre árvores nuas.
inquietantes sussurros de outras dores;
quimeras, que num ultimo estertor,
vêm tombar sobre a calçada polida das minhas ruas.

o prazo de validade acaba-se-lhes em definitivo.
relegadas para o mais recôndito lugar da memória.
procuro agora, ainda que esconso, um lenitivo…
couraço-me na convicção
de que não sairei derrotado da história.

derrotado nunca, isso não me declaro!
exangue; prostrado; quase a soçobrar;… tudo isso.
tendo a força de vontade como amparo;
pouco mais necessito para devolver ao rosto o sorriso.

interessa-me o porvir.
a intensidade da força que no presente se faz.
o espanto confiante… não temer o que surgir.
gládio não mão,
preparado para a guerra ou o saudar da paz.

é o tempo de todas as possibilidades.
lugar possível para o tentar concretizar tudo aquilo que se quis.
é límpido o clamor das mais intensas vontades…
assunção total das responsabilidades… desejar ser feliz.

uma miríade de horizontes onde resgatar-me de toda a escuridão.
há muito me expurguei de toda a vassalagem.
vou ao encontro de outros sonhos que me estendam a mão.
um passo a seguir ao outro;
até completar a minha parte da viagem.





leal maria

terça-feira, 26 de outubro de 2010

...deste mundo cá dentro

na desesperada procura de um sentido para tudo
alicercei-me
de toscas retóricas que falseiam a realidade
ignóbil dialéctica
com que substanciei um idioma quase mudo
obstinado esbater de fronteiras entre a mentira e a verdade

quis o sonho promessa de um paraíso possível
recusei dar-lhe forma em limites aceitáveis
aos tropeções
avancei de um para outro nível
permutei essências não permutáveis

agora
quando já só me resta uma cidade em escombros
somente gritos habitam as suas ruínas
pretéritas irresponsabilidades
pesam-me em demasia sobre os ombros
como se concretizassem
todos os anátemas a mim lançados em dia de más sinas

caminho por entre corpos caídos
há neles fisionomias que no passado me desenharam o rosto
vitoriosos semblantes
na mais natural posição dos vencidos
como se fossem laureados a contra-gosto

confrontado com esta minha natureza ubíqua
perante a contradição de sentir-me de tudo exilado
travo uma batalha improfícua
onde combato num e outro lado

não há outro resultado possível que não seja a minha vitória
ainda que isso implique derrotar-me
procuro concluir uma paradoxal história
emaranhado labirinto onde espero encontrar-me

e se tantas foram as vezes em que me perdi
sei-o agora
nunca logrei achar-me
novamente embrenhado nas barbaras nuances das emoções que então senti
tenho como único intuito continuar a procurar-me



leal maria

domingo, 17 de outubro de 2010

Mascaras

máscaras 

é-me perene o tempo de partida.
à minha alma,
fecunda-a um adeus assim que ela se move.
procuro na intrínseca natureza da despedida,
a essência dogmática de uma qualquer retórica que aprove.

mas nunca sou eu que parto.
nem quando à janela daquele comboio a sair da estação.
e ainda que farto,
invisto-me como fiel depositário da solidão.

sim, sou sempre eu no cais;
de mão no ar, a desenhar um adeus pouco convicto.
a tentar mais e mais,
chamar a atenção para o silêncio opressor do meu pretenso grito.

sou o que se força a entristecer.
a carpir mágoas pela forçada ausência.
ponho no semblante,
a expressão de alguém que acompanha outro alguém a morrer;
como se necessitasse o mundo dessa evidência.

sim,
quero revelar-me ao mundo frágil como me pretendo.
condição essencial para a publicitação da intensidade do meu sentir.
fazer alarde da minha dor e mostrar que a entendo,
uma etapa mais rumo à sublimação que ando a perseguir.

é irrelevante todas as mutações,
em mim se processarem com uma naturalidade desarmante.
mais que sentidas, quero a intelectualidade das emoções;
lágrimas sulcando-me no rosto a fisionomia do sofrido amante.

testemunhe o mundo o quão elevado é o por mim sentido.
reconheça-me possuidor das mais subtis  humanas fraquezas.
oculte-se-lhe que represento personagens à luz trazidas,
das minhas impenetráveis profundezas.

máscaras que tenho para usar nas circunstâncias dos dias.
tantas, que me perco nos seus enredos.
disperso pela diversidade das suas fisionomias;
deixando em cada uma fragmentos dos meus mais íntimos segredos.

actuo perante a vida como se fosse ela uma atenta plateia,
observando-me  desenvolver as personagens que atravessam toda trama.
intersecções, perpendiculares, paralelas,… rumos de uma emaranhada teia,
conjugando-se para a elaboração do drama.

como poderia eu abster-me de ser o actor!?
não substanciar de intensos sentimentos toda esta dramaturgia!?
ainda que fingido, não deixa de ser amor,
quando o cinzel e o escopo com que o talhamos é a poesia.

poesia… poetas…
já só cá faltava a referência a estas vetustas figuras.
tretas, tretas, tretas!
o ficcional mundo das sensibilidades… feminis ternuras.

não!
do húmus que é a génese do poeta, não se encontrará em mim nenhum.
outros se comprazam nessa onanista designação.
demasiadamente embrutecido para deles ser mais um;
escrevo poemas como quem ao vir-lhe o apetite, come pão.

não que as palavras me alimentem.
que são afinal, para que delas nos alimentemos?
possuindo-as na sua versão fonética ou gráfica, os corpos nada sentem.
para quê então, tanto as queremos?

confesso, delas sou dependente.
viciado pelo tanto de mal ou bem que lhes fiz.
necessidade premente,
de por elas me fixar nas coisas nas quais não sou bem sucedido em lançar raiz.

sem elas, como justificar-me tão fogo fátuo… tão dado à inconstância?
pois, poeta não serei.
quando muito, tenho dos demais alguma da jactância.
mas não ganho concursos e nem os meus aforismos são lei.

sirvo-me das palavras prostituindo-as.
vergo-as à vontade do que tenho para dizer.
advertindo-as,
das graves consequências que sobrevém a quem não me obedecer.

aí está: a jactância de poeta a vir ao de cima!
pobre de mim que sou refém das personagens que há muito represento.
promiscuidade que constantemente me ensina,
já somente sentir o que fingi ser sincero sentimento.

leal maria