sobretudo
a memória de fragmentos de manhãs
e um corpo fêmea molde do meu desejo
respirar mudo
amiúde violado com palavras vãs
não fosse denunciar-se em mim a urgência do beijo
inapropriado palco
para a representação de uma peça de ingénuo argumento
minha perfeita actuação de um triste entardecer
tosca dramaturgia
fazendo-me dramaturgo do perpétuo lamento
busca desesperada
de um sinal no olhar que me fazia enternecer
há ténues brisas sobre o que resta desses dias
levantam o pó
ao que agora são dolorosas recordações
pondo a descoberto
uma saudade mal diluída em palavras de poesias
remetidas para um baú sobrelotado de emoções
sou também Atlas
carrego sobre as costas um secreto mundo
cheio de nações a que não posso dar nome
sem retirar às palavras o seu significado mais profundo
empenho-me num inócuo chamamento que em ecos se some
sempre amei com o amor impossível da mitologia
fecundo de tanta ilusão
mas daquela luz que no horizonte luzia
não logrei reclamar para mim um quinhão
perdido o alento
para continuar em demanda de quimeras que persegui
resta-me desconstruir as que a resignação ainda não desmoronou
evitarei os caminhos que então segui
extemporânea decisão
que já não permite reencontrar-me com o que verdadeiramente sou
leal maria
domingo, 12 de dezembro de 2010
domingo, 28 de novembro de 2010
teoria do caos
num e outro olhar
vi a solidão reflectida
sonhos a desmoronar
uma má vontade para com a vida
é para o que me dá agora
alimentar-me da desesperança alheia
enquanto espero a ansiada hora…
erupção
de todas as fúrias que por estes dias se semeia
como anseio que a anarquia chegue
o regresso ao estado virginal
irmanados na mesma esperança em que se persegue
a razão fundamental
o caos na sua mais crua natureza
o questionar de todas as fundações
engenharia de espírito abalando o que mais se preza
ausência de paz em todos os corações
a promessa de um novo mundo
emirja dos escombros
reivindicando-se interprete do nosso desejo mais profundo
alguém exija ser levado em ombros
como sempre foi
olhá-lo-emos como providencial salvador
mó malsã que toda a vontade mói
libertos de um jugo
de boa vontade submeter-nos-emos a outro senhor
ovelhas de coeso rebanho
norteamo-nos sempre pelo cajado do pastor
esquecidos que nos destinam ser o puro anho
a ser imolado
num holocausto como devido penhor
óh
muita é a vontade com que desejo
ver tanta humanidade à perene escravatura submetida
oferecendo sempre a face ao traiçoeiro beijo
deixar que tão poucos
decidam por tantos a vida a ser vivida
óh
como bem lá no fundo
somos tão mansos
chapéu na mão a expressar um respeito profundo
em troca de uma paz
que nos vai permitindo regalados descansos
depressa esquecemos as humilhações
rei morto
e logo faremos com que outro ocupe o seu lugar
subtraímo-nos aos turbilhões
silenciando a indignação que nos fazia gritar
da maioria
seja satisfeita a vontade
venha a ansiada anarquia
para que das ruínas se erga a mesmíssima cidade
depois de soltas as fúrias
quer-se é as coisas na sua torpe quietude
nas naturezas espúrias
conquanto tenham uma pacificadora retórica
só se lhes vê virtude
ainda que nada nos valha a indignação
( e milhares de anos dão inolvidável testemunho
de que as coisas ficarão sempre como estão
ainda que contra elas tenha-mos erguido o punho)
a resignação não pode ser o que nos resta
nunca será inócua a nossa luta
se enquanto o caos durar fizermos a festa
olho por olho e dente por dente for a permuta
leal maria
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
a metamorfose forçada dos sentidos
faltam as palavras que me sobram
indecifráveis
cheias de ocultos significados
Insubmissos símbolos
que nem à minha vontade se dobram
suspensos num limbo
onde tantos sonhos foram sacrificados
sobejaram-me de um intenso sentir
esconsos alicerces agora caídos
testemunhos do eterno que acabaram por ruir
caos emergido
da metamorfose forçada dos sentidos
trôpegos são os passos que dou
ébrio de memórias a que não sei dar nome
algo indefinido que comigo ficou
e num lento desvanecer definitivamente se some
dolorosa amputação
morfologia d´alma alterada à minha revelia
como me dói
a ensurdecedora normalidade do bater do meu coração
rufar triste de tambor prefaciando uma elegia
enlutados
os tantos que sou têm semblantes de uma alegria contida
como se tudo o que foi
não deixasse a suas indeléveis marcas
sôfregos
agarram a mais ínfima prova de vida
recusando habitar os pantanosos terrenos das parcas
sobreviventes natos à dor
são a soma de tudo o que sou subtraída à tristeza
o amor
é somente um corpo estranho
de quando em vez contaminando a minha natureza
leal maria
indecifráveis
cheias de ocultos significados
Insubmissos símbolos
que nem à minha vontade se dobram
suspensos num limbo
onde tantos sonhos foram sacrificados
sobejaram-me de um intenso sentir
esconsos alicerces agora caídos
testemunhos do eterno que acabaram por ruir
caos emergido
da metamorfose forçada dos sentidos
trôpegos são os passos que dou
ébrio de memórias a que não sei dar nome
algo indefinido que comigo ficou
e num lento desvanecer definitivamente se some
dolorosa amputação
morfologia d´alma alterada à minha revelia
como me dói
a ensurdecedora normalidade do bater do meu coração
rufar triste de tambor prefaciando uma elegia
enlutados
os tantos que sou têm semblantes de uma alegria contida
como se tudo o que foi
não deixasse a suas indeléveis marcas
sôfregos
agarram a mais ínfima prova de vida
recusando habitar os pantanosos terrenos das parcas
sobreviventes natos à dor
são a soma de tudo o que sou subtraída à tristeza
o amor
é somente um corpo estranho
de quando em vez contaminando a minha natureza
leal maria
domingo, 14 de novembro de 2010
superficialidades
de tantas fontes provêm
as lágrimas que ao longo da vida se vai vertendo
a ver bem
vertemo-las por “dá-cá-aquela-palha”
umas doce outras amargas
assim vai a humanidade vivendo
na ilusão
que todas se justificam e haverá um deus que nos valha
também as verti
com ranho e tudo mais à mistura
vertidas ao longo dos muitos anos que vivi
lágrimas de ódio
desespero e ternura
mas das que chorei,
em nenhumas encontrei uma causa sublime
nem a tristeza ou alegria que nelas houve me perdurou
algo reprime
e impregna de superficialidade
todo aquele sentido que em mim germinou
mais que a substância
tenho centrado o meu interesse na forma
ainda assim
em sintonia com a factual circunstância
de não convir muito sair da norma
sim
pela norma é que me tenho regulado
sigo a direcção que a multidão tomou
mas não tenho a certeza se me levará a algum lado
marchar ao ritmo da marcha a que o comum se moldou
qualquer coisa em mim grita estridentemente
e recusa o espartilho a que me obriga a convivência social
grávido de fúrias
parturiente de uma violência premente
tenho o ensejo de estar p´ra lá do bem e do mal
o ódio que tenho não é para isso suficiente
exigia-se um ódio extremado
inócua megalomania pelo tanto que sou de inconsequente
o eu que odeia
alterna amiúde com o que tem amado
sim eu amo pois então
ou melhor
amei
pelos menos tenho disso uma vaga recordação
mas definir com clareza o que sentia é que já não sei
havia um rosto a que o meu amor vinha sempre agregado
e quando assim é
parece coisa a sentir-se por toda a eternidade
tumultuosas águas que houvera navegado
e hoje só me desassossegam
com as densas brumas de uma indefinida saudade
provavelmente nem assim é
são tantos os subterfúgios
com que nos munimos para negar as maiores evidências
mas há que ter a ilusão ou a fé
de se poder moldar os sentimentos às nossas conveniências
sim
provavelmente amo como então amei
e é a resignação da perda que mo faz negar
não sei
ainda que ame já não quero amar
a vontade que nos habita alguma força há-de ter
se a decisão for a de amar então que se ame
eu decidi-me pela indiferença por tudo o que foi ou há-de ser
e recuso ter um nome pelo qual nos meus devaneios chame
sim
quero a forma superficial
ainda que venha ela com alguma imperfeição pela bitola do meu conceito
aperfeiçoarei com o meu desejo mais intrinsecamente carnal
a láctea pele do ainda pueril peito
o amor que em mim houver nunca seja profundo
não se projecte para lá do mais imediato instante
total desprezo por essas minudências do mundo
intruso nas feminis entranhas com a suave frieza do bom amante
é este o meu desejo mais intenso:
a mesma placidez
seja qual for os cambiantes de paisagem que vejo pela janela
humores subservientes àquilo que penso
somente regulado pela condição que de mim faz pó de uma estrela
leal maria
as lágrimas que ao longo da vida se vai vertendo
a ver bem
vertemo-las por “dá-cá-aquela-palha”
umas doce outras amargas
assim vai a humanidade vivendo
na ilusão
que todas se justificam e haverá um deus que nos valha
também as verti
com ranho e tudo mais à mistura
vertidas ao longo dos muitos anos que vivi
lágrimas de ódio
desespero e ternura
mas das que chorei,
em nenhumas encontrei uma causa sublime
nem a tristeza ou alegria que nelas houve me perdurou
algo reprime
e impregna de superficialidade
todo aquele sentido que em mim germinou
mais que a substância
tenho centrado o meu interesse na forma
ainda assim
em sintonia com a factual circunstância
de não convir muito sair da norma
sim
pela norma é que me tenho regulado
sigo a direcção que a multidão tomou
mas não tenho a certeza se me levará a algum lado
marchar ao ritmo da marcha a que o comum se moldou
qualquer coisa em mim grita estridentemente
e recusa o espartilho a que me obriga a convivência social
grávido de fúrias
parturiente de uma violência premente
tenho o ensejo de estar p´ra lá do bem e do mal
o ódio que tenho não é para isso suficiente
exigia-se um ódio extremado
inócua megalomania pelo tanto que sou de inconsequente
o eu que odeia
alterna amiúde com o que tem amado
sim eu amo pois então
ou melhor
amei
pelos menos tenho disso uma vaga recordação
mas definir com clareza o que sentia é que já não sei
havia um rosto a que o meu amor vinha sempre agregado
e quando assim é
parece coisa a sentir-se por toda a eternidade
tumultuosas águas que houvera navegado
e hoje só me desassossegam
com as densas brumas de uma indefinida saudade
provavelmente nem assim é
são tantos os subterfúgios
com que nos munimos para negar as maiores evidências
mas há que ter a ilusão ou a fé
de se poder moldar os sentimentos às nossas conveniências
sim
provavelmente amo como então amei
e é a resignação da perda que mo faz negar
não sei
ainda que ame já não quero amar
a vontade que nos habita alguma força há-de ter
se a decisão for a de amar então que se ame
eu decidi-me pela indiferença por tudo o que foi ou há-de ser
e recuso ter um nome pelo qual nos meus devaneios chame
sim
quero a forma superficial
ainda que venha ela com alguma imperfeição pela bitola do meu conceito
aperfeiçoarei com o meu desejo mais intrinsecamente carnal
a láctea pele do ainda pueril peito
o amor que em mim houver nunca seja profundo
não se projecte para lá do mais imediato instante
total desprezo por essas minudências do mundo
intruso nas feminis entranhas com a suave frieza do bom amante
é este o meu desejo mais intenso:
a mesma placidez
seja qual for os cambiantes de paisagem que vejo pela janela
humores subservientes àquilo que penso
somente regulado pela condição que de mim faz pó de uma estrela
leal maria
sábado, 13 de novembro de 2010
confiança
ainda os ouço… ténues rumores…
sopro de vento, promíscuo entre árvores nuas.
inquietantes sussurros de outras dores;
quimeras, que num ultimo estertor,
vêm tombar sobre a calçada polida das minhas ruas.
o prazo de validade acaba-se-lhes em definitivo.
relegadas para o mais recôndito lugar da memória.
procuro agora, ainda que esconso, um lenitivo…
couraço-me na convicção
de que não sairei derrotado da história.
derrotado nunca, isso não me declaro!
exangue; prostrado; quase a soçobrar;… tudo isso.
tendo a força de vontade como amparo;
pouco mais necessito para devolver ao rosto o sorriso.
interessa-me o porvir.
a intensidade da força que no presente se faz.
o espanto confiante… não temer o que surgir.
gládio não mão,
preparado para a guerra ou o saudar da paz.
é o tempo de todas as possibilidades.
lugar possível para o tentar concretizar tudo aquilo que se quis.
é límpido o clamor das mais intensas vontades…
assunção total das responsabilidades… desejar ser feliz.
uma miríade de horizontes onde resgatar-me de toda a escuridão.
há muito me expurguei de toda a vassalagem.
vou ao encontro de outros sonhos que me estendam a mão.
um passo a seguir ao outro;
sopro de vento, promíscuo entre árvores nuas.
inquietantes sussurros de outras dores;
quimeras, que num ultimo estertor,
vêm tombar sobre a calçada polida das minhas ruas.
o prazo de validade acaba-se-lhes em definitivo.
relegadas para o mais recôndito lugar da memória.
procuro agora, ainda que esconso, um lenitivo…
couraço-me na convicção
de que não sairei derrotado da história.
derrotado nunca, isso não me declaro!
exangue; prostrado; quase a soçobrar;… tudo isso.
tendo a força de vontade como amparo;
pouco mais necessito para devolver ao rosto o sorriso.
interessa-me o porvir.
a intensidade da força que no presente se faz.
o espanto confiante… não temer o que surgir.
gládio não mão,
preparado para a guerra ou o saudar da paz.
é o tempo de todas as possibilidades.
lugar possível para o tentar concretizar tudo aquilo que se quis.
é límpido o clamor das mais intensas vontades…
assunção total das responsabilidades… desejar ser feliz.
uma miríade de horizontes onde resgatar-me de toda a escuridão.
há muito me expurguei de toda a vassalagem.
vou ao encontro de outros sonhos que me estendam a mão.
um passo a seguir ao outro;
até completar a minha parte da viagem.
leal maria
leal maria
terça-feira, 26 de outubro de 2010
...deste mundo cá dentro
na desesperada procura de um sentido para tudo
alicercei-me
de toscas retóricas que falseiam a realidade
ignóbil dialéctica
com que substanciei um idioma quase mudo
obstinado esbater de fronteiras entre a mentira e a verdade
quis o sonho promessa de um paraíso possível
recusei dar-lhe forma em limites aceitáveis
aos tropeções
avancei de um para outro nível
permutei essências não permutáveis
agora
quando já só me resta uma cidade em escombros
somente gritos habitam as suas ruínas
pretéritas irresponsabilidades
pesam-me em demasia sobre os ombros
como se concretizassem
todos os anátemas a mim lançados em dia de más sinas
caminho por entre corpos caídos
há neles fisionomias que no passado me desenharam o rosto
vitoriosos semblantes
na mais natural posição dos vencidos
como se fossem laureados a contra-gosto
confrontado com esta minha natureza ubíqua
perante a contradição de sentir-me de tudo exilado
travo uma batalha improfícua
onde combato num e outro lado
não há outro resultado possível que não seja a minha vitória
ainda que isso implique derrotar-me
procuro concluir uma paradoxal história
emaranhado labirinto onde espero encontrar-me
e se tantas foram as vezes em que me perdi
sei-o agora
nunca logrei achar-me
novamente embrenhado nas barbaras nuances das emoções que então senti
tenho como único intuito continuar a procurar-me
leal maria
alicercei-me
de toscas retóricas que falseiam a realidade
ignóbil dialéctica
com que substanciei um idioma quase mudo
obstinado esbater de fronteiras entre a mentira e a verdade
quis o sonho promessa de um paraíso possível
recusei dar-lhe forma em limites aceitáveis
aos tropeções
avancei de um para outro nível
permutei essências não permutáveis
agora
quando já só me resta uma cidade em escombros
somente gritos habitam as suas ruínas
pretéritas irresponsabilidades
pesam-me em demasia sobre os ombros
como se concretizassem
todos os anátemas a mim lançados em dia de más sinas
caminho por entre corpos caídos
há neles fisionomias que no passado me desenharam o rosto
vitoriosos semblantes
na mais natural posição dos vencidos
como se fossem laureados a contra-gosto
confrontado com esta minha natureza ubíqua
perante a contradição de sentir-me de tudo exilado
travo uma batalha improfícua
onde combato num e outro lado
não há outro resultado possível que não seja a minha vitória
ainda que isso implique derrotar-me
procuro concluir uma paradoxal história
emaranhado labirinto onde espero encontrar-me
e se tantas foram as vezes em que me perdi
sei-o agora
nunca logrei achar-me
novamente embrenhado nas barbaras nuances das emoções que então senti
tenho como único intuito continuar a procurar-me
leal maria
domingo, 17 de outubro de 2010
Mascaras
máscaras
é-me perene o tempo de partida.
à minha alma,
fecunda-a um adeus assim que ela se move.
procuro na intrínseca natureza da despedida,
a essência dogmática de uma qualquer retórica que aprove.
mas nunca sou eu que parto.
nem quando à janela daquele comboio a sair da estação.
e ainda que farto,
invisto-me como fiel depositário da solidão.
sim, sou sempre eu no cais;
de mão no ar, a desenhar um adeus pouco convicto.
a tentar mais e mais,
chamar a atenção para o silêncio opressor do meu pretenso grito.
sou o que se força a entristecer.
a carpir mágoas pela forçada ausência.
ponho no semblante,
a expressão de alguém que acompanha outro alguém a morrer;
como se necessitasse o mundo dessa evidência.
sim,
quero revelar-me ao mundo frágil como me pretendo.
condição essencial para a publicitação da intensidade do meu sentir.
fazer alarde da minha dor e mostrar que a entendo,
uma etapa mais rumo à sublimação que ando a perseguir.
é irrelevante todas as mutações,
em mim se processarem com uma naturalidade desarmante.
mais que sentidas, quero a intelectualidade das emoções;
lágrimas sulcando-me no rosto a fisionomia do sofrido amante.
testemunhe o mundo o quão elevado é o por mim sentido.
reconheça-me possuidor das mais subtis humanas fraquezas.
oculte-se-lhe que represento personagens à luz trazidas,
das minhas impenetráveis profundezas.
máscaras que tenho para usar nas circunstâncias dos dias.
tantas, que me perco nos seus enredos.
disperso pela diversidade das suas fisionomias;
deixando em cada uma fragmentos dos meus mais íntimos segredos.
actuo perante a vida como se fosse ela uma atenta plateia,
observando-me desenvolver as personagens que atravessam toda trama.
intersecções, perpendiculares, paralelas,… rumos de uma emaranhada teia,
conjugando-se para a elaboração do drama.
como poderia eu abster-me de ser o actor!?
não substanciar de intensos sentimentos toda esta dramaturgia!?
ainda que fingido, não deixa de ser amor,
quando o cinzel e o escopo com que o talhamos é a poesia.
poesia… poetas…
já só cá faltava a referência a estas vetustas figuras.
tretas, tretas, tretas!
o ficcional mundo das sensibilidades… feminis ternuras.
não!
do húmus que é a génese do poeta, não se encontrará em mim nenhum.
outros se comprazam nessa onanista designação.
demasiadamente embrutecido para deles ser mais um;
escrevo poemas como quem ao vir-lhe o apetite, come pão.
não que as palavras me alimentem.
que são afinal, para que delas nos alimentemos?
possuindo-as na sua versão fonética ou gráfica, os corpos nada sentem.
para quê então, tanto as queremos?
confesso, delas sou dependente.
viciado pelo tanto de mal ou bem que lhes fiz.
necessidade premente,
de por elas me fixar nas coisas nas quais não sou bem sucedido em lançar raiz.
sem elas, como justificar-me tão fogo fátuo… tão dado à inconstância?
pois, poeta não serei.
quando muito, tenho dos demais alguma da jactância.
mas não ganho concursos e nem os meus aforismos são lei.
sirvo-me das palavras prostituindo-as.
vergo-as à vontade do que tenho para dizer.
advertindo-as,
das graves consequências que sobrevém a quem não me obedecer.
aí está: a jactância de poeta a vir ao de cima!
pobre de mim que sou refém das personagens que há muito represento.
promiscuidade que constantemente me ensina,
já somente sentir o que fingi ser sincero sentimento.
leal maria
domingo, 19 de setembro de 2010
... de um adeus possível
os silêncios sobrepõem-se a tudo.
indecifráveis são-me as palavras onde busquei o pulsar do teu sentir.
fico mudo…
já só vejo o teu recorte,
no horizonte dessa estrada por onde estás a ir.
para onde vais não o sei.
abstenho-me de te o perguntar.
vás para onde vás, lá, a minha vontade não será lei;
abdico do meu direito de essas latitudes tentar conquistar.
deixo-te ir como quem vê a passagem do tempo
resignado a que o não possa reter.
vais-te, e o ires-te em nada contamina a naturalidade.
obediente ao acaso e ao teu querer,
fico guardião de uma mais-que-anunciada saudade.
ocuparei esse posto até a fadiga me dizer que já basta.
abandoná-lo-ei, claro,
quando pouco mais me fores que uma vaga lembrança.
o tempo; esse furibundo senhor que de tudo nos afasta,
devolver-me-á a capacidade de sentir esperança.
não sei a forma que terás então.
são infinitas as morfologias dos sonhos que ruíram.
Ruínas, que por certo(as assolará um vento suão),
darão fraco testemunho dos amores que se sentiram.
leal maria
indecifráveis são-me as palavras onde busquei o pulsar do teu sentir.
fico mudo…
já só vejo o teu recorte,
no horizonte dessa estrada por onde estás a ir.
para onde vais não o sei.
abstenho-me de te o perguntar.
vás para onde vás, lá, a minha vontade não será lei;
abdico do meu direito de essas latitudes tentar conquistar.
deixo-te ir como quem vê a passagem do tempo
resignado a que o não possa reter.
vais-te, e o ires-te em nada contamina a naturalidade.
obediente ao acaso e ao teu querer,
fico guardião de uma mais-que-anunciada saudade.
ocuparei esse posto até a fadiga me dizer que já basta.
abandoná-lo-ei, claro,
quando pouco mais me fores que uma vaga lembrança.
o tempo; esse furibundo senhor que de tudo nos afasta,
devolver-me-á a capacidade de sentir esperança.
não sei a forma que terás então.
são infinitas as morfologias dos sonhos que ruíram.
Ruínas, que por certo(as assolará um vento suão),
darão fraco testemunho dos amores que se sentiram.
leal maria
domingo, 12 de setembro de 2010
no verão que acaba, o fim do amor
na desesperada procura de um sentido para tudo
alicercei-me
de toscas retóricas que falseiam a realidade
ignóbil dialéctica
com que substanciei um idioma quase mudo
obstinado esbater de fronteiras entre a mentira e a verdade
quis o sonho promessa de um paraíso possível
recusei dar-lhe forma em limites aceitáveis
aos tropeções
avancei de um para outro nível
permutei essências não permutáveis
agora
quando já só me resta uma cidade em escombros
somente gritos habitam as suas ruínas
pretéritas irresponsabilidades
pesam-me em demasia sobre os ombros
como se concretizassem
todos os anátemas a mim lançados em dia de más sinas
caminho por entre corpos caídos
há neles fisionomias que no passado me desenharam o rosto
vitoriosos semblantes
na mais natural posição dos vencidos
como se fossem laureados a contra-gosto
confrontado com esta minha natureza ubíqua
perante a contradição de sentir-me de tudo exilado
travo uma batalha improfícua
onde combato num e outro lado
não há outro resultado possível que não seja a minha vitória
ainda que isso implique derrotar-me
procuro concluir uma paradoxal história
emaranhado labirinto onde espero encontrar-me
e se tantas foram as vezes em que me perdi
sei-o agora
nunca logrei achar-me
novamente embrenhado nas barbaras nuances das emoções que então senti
tenho como único intuito continuar a procurar-me
leal maria
domingo, 5 de setembro de 2010
"é a vida..."
“é a vida…”
sim, é a vida, eu sei.
evidente constatação de um inócuo lugar-comum.
reticências onde todos lá cabem
e há sempre lugar para mais um.
ideal lugar para eu habitar.
três pontinhos que tudo deixam em aberto.
de ubíqua natureza, vivo a realidade a sonhar;
estou longe estando perto.
em desespero, esperei quem não veio.
vi sempre um adeus nos braços de quem me abraçava.
meu desejo desaguou em anónimo seio.
não reconheci quem disse que me amava.
num jogo de azar ou sorte,
deixei que momentaneamente,
o aleatório predominasse sobre a vontade.
observei como a vida se alimenta de outra vida,
metamorfoseando-a em morte;
voraz autofagia que nunca atinge a saciedade.
filho do mutável,
corri o risco de perder o umbilical sentido de pertença.
mas nada dei como permutável,
porque somente possuo o adquirido à nascença.
meu choro inicial foi prenuncio de um grito de guerra.
declaração possível de uma independência total.
convicto na fúria de quem o seu primordial dogma berra;
declarei a liberdade como bem fundamental.
mas ai de mim,
nada disso me exigiu sacrifícios.
foi delito de consciência a que ninguém quis dar fim.
e do fragores de batalhas somente há resquícios,
daquelas que travei dentro de mim.
batalhas… se em tantas pelejei,
de nenhuma saí vencedor.
nada encontrei daquilo que nelas busquei,
para além de um efusivo clamor.
clamor de falsos gritos de vitória.
soube sempre ser inevitável a derrota.
vã orgulho de quem somente lhe resta a gloria,
de tentar endireitar uma vida que nasceu torta.
“é a vida…”
sim, é a vida, pois é…
lugar-comum que não dá a resposta que me é devida.
mesmo assim, manter-me-ei de pé:
esperando que no crepuscular horizonte, se esconda ainda a luz,
que todas as manhãs obriga a escuridão a declarar-se vencida.
leal maria
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