sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Tão delicado é o traço, com que se desenham os sonhos
pela delicadeza adivinhada,
na firme mestria do teu traço;
foste suave melodia, quando te disse por mim amada
e me era tão urgente o teu abraço.
dias imperfeitos se tornaram puros,
porque de ti tive conhecimento.
tuas palavras iluminaram-me os dias escuros,
ainda que, fátuo o fogo, fosse tão breve o momento.
agora és-me somente uma saudade,
que tudo invade...
orgia de cores em abruptos cambiantes,
de tudo se assenhorando despudoradamente.
paraíso perfeito para Homens e deuses serem amantes…
vã liturgia… sou já um sol poente!
escureço lentamente
numa Intencional transumância,
em que regresso às monótonas planícies do anonimato e escuridão.
amordaço neste desterro, o desejo latente,
onde buscava ainda, a feliz circunstancia,
de poder explorar geografia de montanhas nos sulcos das linhas de vida da tua mão.
adeus meu amor…
adeus ritmo maior da minha emoção.
foi talvez, demasiado simples o pormenor:
ser tão etérea a ilusão.
como podia ser meu teu coração!?
leal maria
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
panteão dos sonhos
fui eu, que mudo,
pelo meio do vosso silêncio vistes passar.
despojei-me de tudo;
para que a palavra não me denunciasse a urgência de gritar.
a custo, respeitei-vos o silêncio e mantive-me calado.
passei adiante do tanto que tinha para dizer.
deixei o significado das coisas no verbo amordaçado,
e depois disso,
vi-o definhar até morrer.
se fosse hoje…ai se fosse hoje…
gritaria a plenos pulmões!
seria outra caixa,
albergando novos males e uma nova esperança para que uma outra Pandora a abrisse!
da minha alma emergiriam vocábulos em magnificas erupções;
cataclismo gigantesco,
que no futuro, outro igual, mais ninguém ouvisse.
ai se fosse hoje…
seria o sexo com todo o corpo que existe!
a sublimação para além do bem e do mal…
miscelânea entre o alegre e o triste…
grito rugido no tempo fundamental!
mas não foi hoje…
foi ontem e o ontem já passou.
perdi a derradeira oportunidade
de apanhar esse singular navio, que neste cais que sou, aportou.
hoje;
resta-me o remorso de não ter quebrado a regra mais elementar.
não ter forçado os limites que me impuseram.
ignorei as vozes que na altura me estavam a chamar.
não fruí as quimeras que me venderam.
ao sonhos que ao longo dos anos fui juntando,
já lhes subtraí a parte maior.
e por serem poucos aqueles que posso ir desfrutando;
dou agora maior intensidade ao pormenor.
mas será já tão tarde?
esmorecerá o fogo que em mim arde,
numa lenta e dolorosa erosão,
para que não possa voltar a unir todos os fragmentos que me vão caindo da mão?
disperso-me em mil e um desejos por cumprir…
sou a parte amputada de um deus que enganou ao prometer-se eterno.
um passo dado em frente sempre à espera do outro para partir;
a meio do caminho entre o céu e o inferno.
sim! é já tão tarde!
sou naufrago,
mesmo aqui, resguardado nos teus abraços.
dás-me afecto e eu não tenho onde o guarde…
de tudo me despojei nos caminhos por onde erraram os meus passos.
mas… que raio…
que me interessa o sonho que se cumpriu!?
que prazer tirei nos objectivos alcançados?
busco a plenitude que ainda ninguém sentiu…
quero habitar a cidade dos espíritos pelas tormentas acossados!
sei que já ali,
há uma nova esperança.
ali mesmo, ao virar da esquina da possibilidade!
mas recuso-a, porque lhe adivinho a bonança;
e sinto-me enteado da quietude e filho da tempestade.
há-de de novo em mim trovejar!
levantar-se-ão os meus oceanos da sua placidez!
neles serei o argonauta quase a naufragar…
e a recusar o fim uma e outra vez.
serei a persistência dos trezentos espartanos,
na Termópilas a batalhar!
serei holocausto num panteão consagrado a deuses desconhecidos!
sou o baralho do tudo e do nada que um divino arquitecto está a baralhar…
sou a alma dos homens ainda não nascidos!
leal maria
pelo meio do vosso silêncio vistes passar.
despojei-me de tudo;
para que a palavra não me denunciasse a urgência de gritar.
a custo, respeitei-vos o silêncio e mantive-me calado.
passei adiante do tanto que tinha para dizer.
deixei o significado das coisas no verbo amordaçado,
e depois disso,
vi-o definhar até morrer.
se fosse hoje…ai se fosse hoje…
gritaria a plenos pulmões!
seria outra caixa,
albergando novos males e uma nova esperança para que uma outra Pandora a abrisse!
da minha alma emergiriam vocábulos em magnificas erupções;
cataclismo gigantesco,
que no futuro, outro igual, mais ninguém ouvisse.
ai se fosse hoje…
seria o sexo com todo o corpo que existe!
a sublimação para além do bem e do mal…
miscelânea entre o alegre e o triste…
grito rugido no tempo fundamental!
mas não foi hoje…
foi ontem e o ontem já passou.
perdi a derradeira oportunidade
de apanhar esse singular navio, que neste cais que sou, aportou.
hoje;
resta-me o remorso de não ter quebrado a regra mais elementar.
não ter forçado os limites que me impuseram.
ignorei as vozes que na altura me estavam a chamar.
não fruí as quimeras que me venderam.
ao sonhos que ao longo dos anos fui juntando,
já lhes subtraí a parte maior.
e por serem poucos aqueles que posso ir desfrutando;
dou agora maior intensidade ao pormenor.
mas será já tão tarde?
esmorecerá o fogo que em mim arde,
numa lenta e dolorosa erosão,
para que não possa voltar a unir todos os fragmentos que me vão caindo da mão?
disperso-me em mil e um desejos por cumprir…
sou a parte amputada de um deus que enganou ao prometer-se eterno.
um passo dado em frente sempre à espera do outro para partir;
a meio do caminho entre o céu e o inferno.
sim! é já tão tarde!
sou naufrago,
mesmo aqui, resguardado nos teus abraços.
dás-me afecto e eu não tenho onde o guarde…
de tudo me despojei nos caminhos por onde erraram os meus passos.
mas… que raio…
que me interessa o sonho que se cumpriu!?
que prazer tirei nos objectivos alcançados?
busco a plenitude que ainda ninguém sentiu…
quero habitar a cidade dos espíritos pelas tormentas acossados!
sei que já ali,
há uma nova esperança.
ali mesmo, ao virar da esquina da possibilidade!
mas recuso-a, porque lhe adivinho a bonança;
e sinto-me enteado da quietude e filho da tempestade.
há-de de novo em mim trovejar!
levantar-se-ão os meus oceanos da sua placidez!
neles serei o argonauta quase a naufragar…
e a recusar o fim uma e outra vez.
serei a persistência dos trezentos espartanos,
na Termópilas a batalhar!
serei holocausto num panteão consagrado a deuses desconhecidos!
sou o baralho do tudo e do nada que um divino arquitecto está a baralhar…
sou a alma dos homens ainda não nascidos!
leal maria
domingo, 10 de janeiro de 2010
alma em estado de sitio
silencia-se a voz que outrora em mim gritava.
há um mutismo mudo,
que me percorre toda a alma, à desfilada.
mas desisto…
desisto de procurar onde já nada há!
urgente é que procure a luz da manhã!
preciso desesperadamente das coisas do mundo…
o bulício e o cheiro da multidão!
reintegrar nela o meu eu mais profundo;
sentir-lhe o sabor; pisar o mesmo chão!
preenchida de vazio,
deixo a folha em branco na qual tenho uma luta pendente.
sinto frio…
a solidão espreita-me; latente…
saio para a rua
tento despir a alma de todas as minhas absolutas verdades.
quero-a nua…
permeável a todas as fragilidades.
a fria luminosidade esmaece o fim de tarde
e abraça-me como a um velho amigo que há muito não se vê.
devagar, sem alarde,
ponho, ainda pouco firme, na realidade, o meu pé.
é como se me embrenhasse no desconhecido.
o passo, só gradualmente, torna-se-me temerário.
ainda letárgico para todo e qualquer sentido;
deixo-me dominar pelo acaso arbitrário.
mas insubmisso;
perscruto os espaços à procura uma alma mãe…
alguma esperança a que me possa agarrar.
anseio meu a que não responde ninguém;
é uma anárquica deriva este meu navegar!
perante o irrefutável facto,
de me estarem a morrer as poesias;
decido, num último e desesperado acto,
despir-me de todo o preconceito,
que sempre usei no comum dos dias.
não sei como nem quando,
perdi o sentido que tanto me atormentou.
obedeci tão cegamente ao seu mando;
que a essa cega obediência, a minha alma se moldou.
agora, amputado desse sentido,
quedo-me imóvel no espanto das coisas perdidas.
perante a possibilidade de tudo me ser permitido,
sinto-me incapaz de incorporar outras vidas.
senti demasiado!
desejei demasiado!
sonhei demasiado!
e para quê tanto sentir?
vã perseguição de uma improvável quimera!
loucura da qual tento emergir…
sob os seus escombros, sepulto, jaz o sentido que em mim houvera.
olho em meu redor;
o mundo continua o que sempre foi!
há nele ódio; indiferença; amor; …
mas em mim, um nada de tudo isso, que tanto me dói.
queria-me diferente,
mas sou apenas mais um entre iguais.
ainda que albergue na alma, múltiplas fisionomias,
não posso almejar mais,
que o que me oferece a rotineira passagem dos dias.
foi fugaz a minha imortalidade!
falta-me alento para continuar-me!
pelejei sempre em desigualdade...
será pela desistência que lograrão derrotar-me?
se o nada é a natureza para o qual tudo pende,
o nada será a substância dos sonhos que em mim voltarem a germinar!
couraçar-me-ei na essencial ideia que com naturalidade se apreende;
e nos faz persistir num caminho sem que desejemos a algum lado chegar.
nas ruas que calcorreio à sorte,
testemunho a vida no seu permanente desafio à morte.
quero também irmanar-me na solidariedade de quem tem esperança.
que no íntimo me emerja uma outra poética.
ainda que desprovida de corpo maduro ou de uma ética…
tão somente criança!
decido regressar...
regressar à luta à qual virei as costas!
alinharei as ideias num ataque em linhas sobrepostas.
contornarei o nada com o absoluto!
Investirei na contenda com um espírito resoluto!
a palavra surgir-me-á, nem que seja para nada dizer.
é algo que tenho que fazer,
para que as coisas fluam com naturalidade.
e um tempo sem idade,
funda num só,
o passado; o presente e o futuro;
num cósmico nó,
que derrube com a intemporalidade esse alto muro,
que são os instintos amordaçados nas conveniências…
a demasiada relevância dada às minudências.
mas na folha ainda virgem,
oprime-me a natureza de coisa nenhuma preenchida.
não lhe encontro a loucura; a vertigem; …
a esperança que me traga de volta à intensidade da vida?
assim imaculada na sua brancura,
faz-se-me maior a ausência da ternura.
é o vazio que nos preenche ao perder-mos algo que nos preenchia.
nas toscas e incompreendidas palavras que inventei;
quanto do sentido, em êxtase, no meu peito ardia?
tentei, mas nada criei,
que perene, me alimentasse a poesia.
acordo para os dias, sabendo-me definitivamente ausente.
afasto-me de a cada passo que dou.
esbate-se-me a memória outrora tão presente
e embaraça-me ver-me despojo de um sonho que se abandonou.
pudera eu acomodar-me ao desespero;
abandonar-me a liturgias de solidão.
desistir de tudo aquilo que quero;
mas persiste-me a esperança ao tactear a densa escuridão.
preciso de luz!
preciso libertar-me deste medo!
este medo que tenho e me reduz,
à inócua substância de um desnecessário segredo.
exilarei o sossego e a quietude,
para a pacifica placidez de uma qualquer virtude.
em mim emergirá um novo almejo!
e a necessidade absoluta do absoluto desejo,
desenhará em mim a forma do maior querer.
buscarei a imensidão na economia das palavras essenciais!
garatujar-se-me-á a alma até nem mais uma palavra caber ;
embrenhar-me-ei em fonéticas orgias fenomenais!
a ausência incrustar-se-á em mim diamante…
será a minha intrínseca natureza!
mas suspenso, sempre, naquele instante,
em que seres-me eterna, era uma certeza .
leal maria
há um mutismo mudo,
que me percorre toda a alma, à desfilada.
mas desisto…
desisto de procurar onde já nada há!
urgente é que procure a luz da manhã!
preciso desesperadamente das coisas do mundo…
o bulício e o cheiro da multidão!
reintegrar nela o meu eu mais profundo;
sentir-lhe o sabor; pisar o mesmo chão!
preenchida de vazio,
deixo a folha em branco na qual tenho uma luta pendente.
sinto frio…
a solidão espreita-me; latente…
saio para a rua
tento despir a alma de todas as minhas absolutas verdades.
quero-a nua…
permeável a todas as fragilidades.
a fria luminosidade esmaece o fim de tarde
e abraça-me como a um velho amigo que há muito não se vê.
devagar, sem alarde,
ponho, ainda pouco firme, na realidade, o meu pé.
é como se me embrenhasse no desconhecido.
o passo, só gradualmente, torna-se-me temerário.
ainda letárgico para todo e qualquer sentido;
deixo-me dominar pelo acaso arbitrário.
mas insubmisso;
perscruto os espaços à procura uma alma mãe…
alguma esperança a que me possa agarrar.
anseio meu a que não responde ninguém;
é uma anárquica deriva este meu navegar!
perante o irrefutável facto,
de me estarem a morrer as poesias;
decido, num último e desesperado acto,
despir-me de todo o preconceito,
que sempre usei no comum dos dias.
não sei como nem quando,
perdi o sentido que tanto me atormentou.
obedeci tão cegamente ao seu mando;
que a essa cega obediência, a minha alma se moldou.
agora, amputado desse sentido,
quedo-me imóvel no espanto das coisas perdidas.
perante a possibilidade de tudo me ser permitido,
sinto-me incapaz de incorporar outras vidas.
senti demasiado!
desejei demasiado!
sonhei demasiado!
e para quê tanto sentir?
vã perseguição de uma improvável quimera!
loucura da qual tento emergir…
sob os seus escombros, sepulto, jaz o sentido que em mim houvera.
olho em meu redor;
o mundo continua o que sempre foi!
há nele ódio; indiferença; amor; …
mas em mim, um nada de tudo isso, que tanto me dói.
queria-me diferente,
mas sou apenas mais um entre iguais.
ainda que albergue na alma, múltiplas fisionomias,
não posso almejar mais,
que o que me oferece a rotineira passagem dos dias.
foi fugaz a minha imortalidade!
falta-me alento para continuar-me!
pelejei sempre em desigualdade...
será pela desistência que lograrão derrotar-me?
se o nada é a natureza para o qual tudo pende,
o nada será a substância dos sonhos que em mim voltarem a germinar!
couraçar-me-ei na essencial ideia que com naturalidade se apreende;
e nos faz persistir num caminho sem que desejemos a algum lado chegar.
nas ruas que calcorreio à sorte,
testemunho a vida no seu permanente desafio à morte.
quero também irmanar-me na solidariedade de quem tem esperança.
que no íntimo me emerja uma outra poética.
ainda que desprovida de corpo maduro ou de uma ética…
tão somente criança!
decido regressar...
regressar à luta à qual virei as costas!
alinharei as ideias num ataque em linhas sobrepostas.
contornarei o nada com o absoluto!
Investirei na contenda com um espírito resoluto!
a palavra surgir-me-á, nem que seja para nada dizer.
é algo que tenho que fazer,
para que as coisas fluam com naturalidade.
e um tempo sem idade,
funda num só,
o passado; o presente e o futuro;
num cósmico nó,
que derrube com a intemporalidade esse alto muro,
que são os instintos amordaçados nas conveniências…
a demasiada relevância dada às minudências.
mas na folha ainda virgem,
oprime-me a natureza de coisa nenhuma preenchida.
não lhe encontro a loucura; a vertigem; …
a esperança que me traga de volta à intensidade da vida?
assim imaculada na sua brancura,
faz-se-me maior a ausência da ternura.
é o vazio que nos preenche ao perder-mos algo que nos preenchia.
nas toscas e incompreendidas palavras que inventei;
quanto do sentido, em êxtase, no meu peito ardia?
tentei, mas nada criei,
que perene, me alimentasse a poesia.
acordo para os dias, sabendo-me definitivamente ausente.
afasto-me de a cada passo que dou.
esbate-se-me a memória outrora tão presente
e embaraça-me ver-me despojo de um sonho que se abandonou.
pudera eu acomodar-me ao desespero;
abandonar-me a liturgias de solidão.
desistir de tudo aquilo que quero;
mas persiste-me a esperança ao tactear a densa escuridão.
preciso de luz!
preciso libertar-me deste medo!
este medo que tenho e me reduz,
à inócua substância de um desnecessário segredo.
exilarei o sossego e a quietude,
para a pacifica placidez de uma qualquer virtude.
em mim emergirá um novo almejo!
e a necessidade absoluta do absoluto desejo,
desenhará em mim a forma do maior querer.
buscarei a imensidão na economia das palavras essenciais!
garatujar-se-me-á a alma até nem mais uma palavra caber ;
embrenhar-me-ei em fonéticas orgias fenomenais!
a ausência incrustar-se-á em mim diamante…
será a minha intrínseca natureza!
mas suspenso, sempre, naquele instante,
em que seres-me eterna, era uma certeza .
leal maria
sábado, 19 de dezembro de 2009
Poema de homenagem a mim solicitado, pela bela coordenadora da biblioteca do Agrupamento de Escolas de Arrancada do Vouga, Professora Teresa Alexandra Rodrigues Olaio, para homenagear a poetiza popular residente na Freguesia de Valongo do Vouga, Águeda, Júlia Magalhães. A singela homenagem realizou-se no dia 30 de Novembro de 2009, quando a poetiza, no âmbito da feira do livro que decorria no citado Agrupamento de escolas, aí se deslocou para falar sobre poesia e ter assistido a trabalhos sobre os seus poemas pelos alunos do 5ª ano da EB2+3 de Arrancada do Vouga
Segue o poema transcrito e edição de vídeo:
venerandos murmurios
voz de uma ainda tão presente ancestralidade.
na memoria mumificada sem os seus dias espúrios;
travestida com a realidade que lhe incutiu a saudade.
fala-nos de um tempo que se desejava só pureza.
quando era outra a linguagem dos afectos.
e o Homem,
em enviesada promiscuidade com a natureza,
tentava talhar-lhe com firme pulso a forma,
limitando-a em toscas paredes e tectos.
o testemunho dos dias,
em que presumia-mos falar o dialecto dos elementos.
singularidades em simples poesias;
pondo-nos a nu o passado,
descobrindo-lhe as alegrias, anseios e lamentos.
persistente;
resgata ao esquecimento a história.
para que não nos sobrevenha aquela absoluta morte,
que é um povo sem memória,
cujo destino foi entregue à anarquia da boa ou má sorte.
nessa voz,
há o som da força bruta com que se constrói um país.
e uma elegia aos corpos sacrificados em nome de algo que se julgou maior.
alimentada nessa primordial raiz,
que é a força da vontade e, quem sabe, talvez amor
do tanto do que esse passado era feito,
muito ainda nos vai substanciando a alma.
não o podemos renegar sem que algo nos seja amputado ao peito.
e esperamos irresignados
mais um dia do futuro que se nos anuncia em cada fim de uma tarde calma.
irmanados ainda no ancestral sonho,
sabemos que em nossa demanda não estamos sós.
em busca desse destino perfeito e medonho,
pelo voz do poeta, acompanhar-nos-ão os nossos avós!
leal maria
Segue o poema transcrito e edição de vídeo:
venerandos murmurios
voz de uma ainda tão presente ancestralidade.
na memoria mumificada sem os seus dias espúrios;
travestida com a realidade que lhe incutiu a saudade.
fala-nos de um tempo que se desejava só pureza.
quando era outra a linguagem dos afectos.
e o Homem,
em enviesada promiscuidade com a natureza,
tentava talhar-lhe com firme pulso a forma,
limitando-a em toscas paredes e tectos.
o testemunho dos dias,
em que presumia-mos falar o dialecto dos elementos.
singularidades em simples poesias;
pondo-nos a nu o passado,
descobrindo-lhe as alegrias, anseios e lamentos.
persistente;
resgata ao esquecimento a história.
para que não nos sobrevenha aquela absoluta morte,
que é um povo sem memória,
cujo destino foi entregue à anarquia da boa ou má sorte.
nessa voz,
há o som da força bruta com que se constrói um país.
e uma elegia aos corpos sacrificados em nome de algo que se julgou maior.
alimentada nessa primordial raiz,
que é a força da vontade e, quem sabe, talvez amor
do tanto do que esse passado era feito,
muito ainda nos vai substanciando a alma.
não o podemos renegar sem que algo nos seja amputado ao peito.
e esperamos irresignados
mais um dia do futuro que se nos anuncia em cada fim de uma tarde calma.
irmanados ainda no ancestral sonho,
sabemos que em nossa demanda não estamos sós.
em busca desse destino perfeito e medonho,
pelo voz do poeta, acompanhar-nos-ão os nossos avós!
leal maria
sonho-a
sonho-a…
na verdade, nunca a quis realmente.
foi sempre como sonho que a desejei.
tê-la comigo assim, primordial semente;
louca quimera que a um deus egoísta roubei.
como sonho,
é mais cómodo tê-la em mim:
ser senhor de a continuar a amar ou decidir dar-lhe um fim.
sim, é muito melhor eu a sonhar.
não que não deseje que as minhas mãos a moldem ao meu querer.
agarrar-lhe as ancas e com viris ímpetos, dela tomar posse como minha mulher;
mas isso seria profanar a minha maneira de a amar.
conspurcaria a memória que em mim há
do seu olhar prenhe de meiguice.
corromper-se-ia o dogmático sentido que em palavras lhe disse.
a subordinação do que sinto às fomes de que trago o corpo farto,
fa-la-ia em mim renascer, num novo e agoniante parto.
sim,
como sonho é minha perene companheira.
é-me a sua fisionomia imutável.
gosto de a sentir à minha beira;
quando à imensidão da saudade vou resgatar o seu sorriso amável.
mas tudo está em mutação...
não sou sequer o mesmo de há um minuto atrás.
os dias, vertiginosos, passam-me de raspão
trazendo-me um poente de memórias que não me satisfaz.
esmaga-me a passagem do tempo e a sua inevitabilidade.
mas ela mantem-se a principal razão,
porque calcorreio os caminhos onde em vão, procuro a ideal idade.
sonho-a…
a sua memória tem sido o leito sobre o qual adormeço.
a falta que me faz é a primeira a dar-me os bons dias.
eterno recomeço...
etéreo e ubíquo corpo que reparto desigual pelo meu desejo e poesias.
leal maria
na verdade, nunca a quis realmente.
foi sempre como sonho que a desejei.
tê-la comigo assim, primordial semente;
louca quimera que a um deus egoísta roubei.
como sonho,
é mais cómodo tê-la em mim:
ser senhor de a continuar a amar ou decidir dar-lhe um fim.
sim, é muito melhor eu a sonhar.
não que não deseje que as minhas mãos a moldem ao meu querer.
agarrar-lhe as ancas e com viris ímpetos, dela tomar posse como minha mulher;
mas isso seria profanar a minha maneira de a amar.
conspurcaria a memória que em mim há
do seu olhar prenhe de meiguice.
corromper-se-ia o dogmático sentido que em palavras lhe disse.
a subordinação do que sinto às fomes de que trago o corpo farto,
fa-la-ia em mim renascer, num novo e agoniante parto.
sim,
como sonho é minha perene companheira.
é-me a sua fisionomia imutável.
gosto de a sentir à minha beira;
quando à imensidão da saudade vou resgatar o seu sorriso amável.
mas tudo está em mutação...
não sou sequer o mesmo de há um minuto atrás.
os dias, vertiginosos, passam-me de raspão
trazendo-me um poente de memórias que não me satisfaz.
esmaga-me a passagem do tempo e a sua inevitabilidade.
mas ela mantem-se a principal razão,
porque calcorreio os caminhos onde em vão, procuro a ideal idade.
sonho-a…
a sua memória tem sido o leito sobre o qual adormeço.
a falta que me faz é a primeira a dar-me os bons dias.
eterno recomeço...
etéreo e ubíquo corpo que reparto desigual pelo meu desejo e poesias.
leal maria
sábado, 12 de dezembro de 2009
exílio
…é assim que de repente,
me vejo exilado nas memórias.
e como quem não sente,
nelas não reconheço as minhas histórias.
de onde venho esqueci...
tão pouco sei para onde vou!
estou exilado aqui
e o rosto que me dá forma não mostra o que sou.
deixei para trás,
dissolvidas nos lábios que em despedida beijei,
estéreis para os vindouros amanhãs,
as sementes que nesses corpos alheios semeei .
acompanha-me uma sensação de orfandade,
gerado num voluntário esquecimento.
prisão feita dessa liberdade,
onde nenhuma ânsia nos faz antecipar o momento.
volátil;
limito-me ao fruir dos dias
na mais absoluta lassidão.
Vendo desfilar diante de mim,
as suas horas só aparentemente vazias,
sem que tente segurar-lhes as rédeas na mão.
não quero exercer sobre eles qualquer soberania...
prefiro-os assim anárquicos!
a incerteza com o que tem de poesia;
à segurança dos dias estáticos!
sou migrante do sentido.
caminhante da sua sinuosa geografia…
à beira do precipício sustido;
entre a saudade do que vai haver e a ânsia do que havia…
leal maria
me vejo exilado nas memórias.
e como quem não sente,
nelas não reconheço as minhas histórias.
de onde venho esqueci...
tão pouco sei para onde vou!
estou exilado aqui
e o rosto que me dá forma não mostra o que sou.
deixei para trás,
dissolvidas nos lábios que em despedida beijei,
estéreis para os vindouros amanhãs,
as sementes que nesses corpos alheios semeei .
acompanha-me uma sensação de orfandade,
gerado num voluntário esquecimento.
prisão feita dessa liberdade,
onde nenhuma ânsia nos faz antecipar o momento.
volátil;
limito-me ao fruir dos dias
na mais absoluta lassidão.
Vendo desfilar diante de mim,
as suas horas só aparentemente vazias,
sem que tente segurar-lhes as rédeas na mão.
não quero exercer sobre eles qualquer soberania...
prefiro-os assim anárquicos!
a incerteza com o que tem de poesia;
à segurança dos dias estáticos!
sou migrante do sentido.
caminhante da sua sinuosa geografia…
à beira do precipício sustido;
entre a saudade do que vai haver e a ânsia do que havia…
leal maria
golpe de mão
as tuas mãos
assim, firmemente cerradas
hoje, como tantas outrora, ansiosas
têm nelas a germinar
os mesmos gritos que profanaram virgens madrugadas
na mesma lei do dente por dente e olho por olho tão ciosas.
houve um tempo em que só caricias as ocupavam
longínqua memória
quando as manhãs te despertavam
ainda folha em branco,
onde havia a possibilidade de uma outra estória.
mas se faz tão tarde...
tão tarde e tu sabe-lo bem
em teu peito todo o amor sucumbiu ao ódio que nele arde
és tu e mais ninguém
acerca das virtudes da castrense camaradagem
tantas foram as dissertações que ouviste
vã sapiência
que não evitou que viesses a ocupar, no grande rio da vida, a outra margem
aí, bem firme e de pé, sabes bem que já caíste
tombaste para o lado onde mais reina a solidão
não interessa os abraços a celebrar vitória na batalha.
a feérica luz é efémera e em ti é lesta a sobrevir a escuridão
habita-la e é já mais golpe menos golpe que na tua alma se talha
hoje, como outros igual a ti ontem, semeias os mesmos medos
fertilizas de sangue campos de morte
embrenhando-te no mais terrível dos degredos
que é a fraqueza de tentar fazer prevalecer a vontade do mais forte.
enviaram-te e tu
voluntarioso, sonhaste com a glória
fortaleceste os músculos e apuraste as técnicas no eficiente matar.
reivindicas-te autor de uma parte substancial da história
mas da tua obra, faz-se maior o ensurdecedor som do órfão a chorar
tudo tem um término, porque cansa tudo o que tende a eternizar-se
voltarás e homenagear-te-ão
dizendo que continuas a ser parte importante da engrenagem de um projecto ainda a realizar-se
uma medalha e um aperto de mão
e no alto pedestal do seu orgulho, deixarão ainda, a tua pessoa manifestar-se
depois, remeter-te-ão ao subtil silêncio do dever cumprido
paulatinamente, serás esquecido por haver outros em teu lugar
mais frescos, sem que nada ainda os haja comprometido
o choque da perda de inocência, não lhes fará buscar justificações para o indiscriminado matar
ouvirás ministrarem-lhes as mesmas ideologias tealogais
com que te conquistaram a alma para do teu corpo usufruírem
e quando por fim os vires embarcar
heróicos, num triste cais
anteverás o morrer de sonhos quando muitos por terra caírem
dirás, para teu próprio consolo, que não tiveste alternativa
que perante o chamamento do dever, não vacilaste
pelo teu esforço é que a razão dos teus se mantém viva
e que isso, por si só, justifica todos os que mataste
em tua honra erguerás triunfante uma taça de vinho
atrás dessa, outra virá, antecedendo muitas mais que virão
quando olhares em teu redor, outros como tu fazer-te-ão sentir ainda mais sozinho
e passarás a fruir os dias numa letárgica subtracção
quando por fim, o tempo te subtrair o último dia
encontrar-te-á sem honra nem glória, numa imunda sarjeta de uma qualquer cidade
o incomodo do teu cadáver não merecerá uma elegia
apodrecerá com a tua carne tudo aquilo que agora é em ti vontade
mas que importa o futuro?
interessa é alimentar essa raiva que te mantém alerta
há que ser duro...
não tarda, alimentarás de mais dor a guerra, em mais um dia que desperta
leal maria
assim, firmemente cerradas
hoje, como tantas outrora, ansiosas
têm nelas a germinar
os mesmos gritos que profanaram virgens madrugadas
na mesma lei do dente por dente e olho por olho tão ciosas.
houve um tempo em que só caricias as ocupavam
longínqua memória
quando as manhãs te despertavam
ainda folha em branco,
onde havia a possibilidade de uma outra estória.
mas se faz tão tarde...
tão tarde e tu sabe-lo bem
em teu peito todo o amor sucumbiu ao ódio que nele arde
és tu e mais ninguém
acerca das virtudes da castrense camaradagem
tantas foram as dissertações que ouviste
vã sapiência
que não evitou que viesses a ocupar, no grande rio da vida, a outra margem
aí, bem firme e de pé, sabes bem que já caíste
tombaste para o lado onde mais reina a solidão
não interessa os abraços a celebrar vitória na batalha.
a feérica luz é efémera e em ti é lesta a sobrevir a escuridão
habita-la e é já mais golpe menos golpe que na tua alma se talha
hoje, como outros igual a ti ontem, semeias os mesmos medos
fertilizas de sangue campos de morte
embrenhando-te no mais terrível dos degredos
que é a fraqueza de tentar fazer prevalecer a vontade do mais forte.
enviaram-te e tu
voluntarioso, sonhaste com a glória
fortaleceste os músculos e apuraste as técnicas no eficiente matar.
reivindicas-te autor de uma parte substancial da história
mas da tua obra, faz-se maior o ensurdecedor som do órfão a chorar
tudo tem um término, porque cansa tudo o que tende a eternizar-se
voltarás e homenagear-te-ão
dizendo que continuas a ser parte importante da engrenagem de um projecto ainda a realizar-se
uma medalha e um aperto de mão
e no alto pedestal do seu orgulho, deixarão ainda, a tua pessoa manifestar-se
depois, remeter-te-ão ao subtil silêncio do dever cumprido
paulatinamente, serás esquecido por haver outros em teu lugar
mais frescos, sem que nada ainda os haja comprometido
o choque da perda de inocência, não lhes fará buscar justificações para o indiscriminado matar
ouvirás ministrarem-lhes as mesmas ideologias tealogais
com que te conquistaram a alma para do teu corpo usufruírem
e quando por fim os vires embarcar
heróicos, num triste cais
anteverás o morrer de sonhos quando muitos por terra caírem
dirás, para teu próprio consolo, que não tiveste alternativa
que perante o chamamento do dever, não vacilaste
pelo teu esforço é que a razão dos teus se mantém viva
e que isso, por si só, justifica todos os que mataste
em tua honra erguerás triunfante uma taça de vinho
atrás dessa, outra virá, antecedendo muitas mais que virão
quando olhares em teu redor, outros como tu fazer-te-ão sentir ainda mais sozinho
e passarás a fruir os dias numa letárgica subtracção
quando por fim, o tempo te subtrair o último dia
encontrar-te-á sem honra nem glória, numa imunda sarjeta de uma qualquer cidade
o incomodo do teu cadáver não merecerá uma elegia
apodrecerá com a tua carne tudo aquilo que agora é em ti vontade
mas que importa o futuro?
interessa é alimentar essa raiva que te mantém alerta
há que ser duro...
não tarda, alimentarás de mais dor a guerra, em mais um dia que desperta
leal maria
sábado, 14 de novembro de 2009
individualismo
vejo-os irem
massa compacta em convicção absoluta
jurando-se de uma lealdade a toda a prova
não é esse o meu lado da luta
castrar-me-iam a curiosidade
que permanentemente em mim se renova
assediam-me com falsos brilhos
refulgentes
mas são outros os meus trilhos
egoísta
recuso contribuir para a dialéctica entre essa miríade de mentes
não avalizarei credos que outros têm
vãs glórias são os grande feitos por ser tanta a podridão que lhes houve
aliados não me convêm
sou submisso a uma razão que mais nenhuma razão ouve
às ideias que a tantos irmanaram
nenhuma tentação lhes encontrei
aos deuses que adoraram
não lhes fiz nenhuma libação
aos que querem saber para onde vou respondo que o não sei
tão pouco obedeço ao coração
insubmisso
vou sempre contra a corrente
ainda que ela
eventualmente
possa correr para o lado certo
sigo o rumo contrário ao de toda a gente
viro as costas ao oásis e tomo o caminho do deserto
nada me move a não ser a contradição
não gosto que me indiquem o caminho
recuso quem me estende a mão
é de uma só casta que faço o meu vinho
aliciam-me para que com eles eu vá
em doces palavras
mas digo-lhes adeus
acenando-lhes na sobranceria das minhas loucuras
são outras as minhas lavras
semeio uma miscelânea de ódios; indiferenças e ternuras
resisto
resisto até aos meus próprios desejos
e não desisto
enquanto a definitiva derrota não me violentar com os seus frios beijos
leal maria
massa compacta em convicção absoluta
jurando-se de uma lealdade a toda a prova
não é esse o meu lado da luta
castrar-me-iam a curiosidade
que permanentemente em mim se renova
assediam-me com falsos brilhos
refulgentes
mas são outros os meus trilhos
egoísta
recuso contribuir para a dialéctica entre essa miríade de mentes
não avalizarei credos que outros têm
vãs glórias são os grande feitos por ser tanta a podridão que lhes houve
aliados não me convêm
sou submisso a uma razão que mais nenhuma razão ouve
às ideias que a tantos irmanaram
nenhuma tentação lhes encontrei
aos deuses que adoraram
não lhes fiz nenhuma libação
aos que querem saber para onde vou respondo que o não sei
tão pouco obedeço ao coração
insubmisso
vou sempre contra a corrente
ainda que ela
eventualmente
possa correr para o lado certo
sigo o rumo contrário ao de toda a gente
viro as costas ao oásis e tomo o caminho do deserto
nada me move a não ser a contradição
não gosto que me indiquem o caminho
recuso quem me estende a mão
é de uma só casta que faço o meu vinho
aliciam-me para que com eles eu vá
em doces palavras
mas digo-lhes adeus
acenando-lhes na sobranceria das minhas loucuras
são outras as minhas lavras
semeio uma miscelânea de ódios; indiferenças e ternuras
resisto
resisto até aos meus próprios desejos
e não desisto
enquanto a definitiva derrota não me violentar com os seus frios beijos
leal maria
sábado, 7 de novembro de 2009
Onírica soberania
fossem os sonhos soberanos
e erguer-me-ia de cada corpo
renascido
emergindo triunfante de todos os abismos em que me embrenhasse
sem que por nada fosse possuído
somente refém das memórias dos sentidos com que amasse
fossem os sonhos soberanos
e o meu país albergaria os lugares onde todos os desejos nasceriam
teria sua geografia a suave forma da ternura que se adivinha num abraço
as incertezas então seriam
diáfanas luzes preenchendo o que de vazio houvesse no meu espaço
fossem os sonhos soberanos
e bastar-me-ia um olhar para que tudo se dissesse
estenderia minha mão e a aceitariam sem constrangimentos
seria o mundo uma síntese do que eu quisesse
fluir-me-iam sem barreiras os sentimentos
fossem os sonhos soberanos
olharia em redor e vislumbraria múltiplas saídas
em aberto todas as possibilidades
um fruir ubíquo da vida em muitas mais vidas
ausentes somente as saudades
seja-me então o sonho soberano
erga-me do teu corpo renascido
emirja triunfante de todo o abismo em que me embrenhe
somente possuído
pela memória do sentido de que por ti ando há muito prenhe
sejam-me então o sonho soberano
faça de mim o país onde todos os desejos nascerão
e suave a sua geografia
como a prometida carícia exposta na tua impoluta mão
profusas e diáfanas luzes da poesia
me preencham a barbara alma
seja-me cada manhã uma incerteza
e somente me aquiete lá pela tarde calma
embriagado no perfume da tua humana natureza
leal maria
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
uma leitura dos silêncios
…e afinal,
há mais para além dos silêncios
que ausências tornaram um espaço vazio:
ouve-se o sussurro das palavras que ficaram por dizer.
são elas um corpo frio…
acabarão por perecer.
as certezas são aparentes e adivinham-se-me fingidas.
Imponho convicção aos gestos para que me não denunciem.
exíguas singularidades de tão repartido por tantas vidas
há mais para além dos silêncios
que ausências tornaram um espaço vazio:
ouve-se o sussurro das palavras que ficaram por dizer.
são elas um corpo frio…
acabarão por perecer.
as certezas são aparentes e adivinham-se-me fingidas.
Imponho convicção aos gestos para que me não denunciem.
exíguas singularidades de tão repartido por tantas vidas
suspenso
ávido por um qualquer sinal que me enviem.
quanto mais avanço,
ávido por um qualquer sinal que me enviem.
quanto mais avanço,
mais me afasto do que quero.
Inevitavelmente,
Inevitavelmente,
preso às memórias do que vai ficando para trás.
espero,
impacientemente, mas espero,
aquele sossego d´alma que nos irmana com a paz.
haverá sempre alguém a partir…
olha-se o horizonte na esperança de ver outro alguém chegar.
devia talvez,
espero,
impacientemente, mas espero,
aquele sossego d´alma que nos irmana com a paz.
haverá sempre alguém a partir…
olha-se o horizonte na esperança de ver outro alguém chegar.
devia talvez,
tomar o destino em mãos e ser eu a ir,
de encontro ao que quero achar.
mas já nada me move para além da inércia usual...
deixo-me levar ao sabor do acaso.
nada relativizo e tudo aceito como fundamental.
vejo sinais de um destino maior em todo o caminho por onde passo .
leio silêncios com sobranceira literacia,
numa enviesada e conveniente leitura.
tentativa de espremer-lhes uma impossível poesia,
com que daria corpo a uma possível ternura.
todo eu sou uma intensidade letárgica.
avassalador turbilhão contido num corpo que o tempo vai vencendo.
a toada trágica,
de um personagem que, ingloriamente, vai da peça desaparecendo…
leal maria
de encontro ao que quero achar.
mas já nada me move para além da inércia usual...
deixo-me levar ao sabor do acaso.
nada relativizo e tudo aceito como fundamental.
vejo sinais de um destino maior em todo o caminho por onde passo .
leio silêncios com sobranceira literacia,
numa enviesada e conveniente leitura.
tentativa de espremer-lhes uma impossível poesia,
com que daria corpo a uma possível ternura.
todo eu sou uma intensidade letárgica.
avassalador turbilhão contido num corpo que o tempo vai vencendo.
a toada trágica,
de um personagem que, ingloriamente, vai da peça desaparecendo…
leal maria
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