terça-feira, 26 de outubro de 2010

...deste mundo cá dentro

na desesperada procura de um sentido para tudo
alicercei-me
de toscas retóricas que falseiam a realidade
ignóbil dialéctica
com que substanciei um idioma quase mudo
obstinado esbater de fronteiras entre a mentira e a verdade

quis o sonho promessa de um paraíso possível
recusei dar-lhe forma em limites aceitáveis
aos tropeções
avancei de um para outro nível
permutei essências não permutáveis

agora
quando já só me resta uma cidade em escombros
somente gritos habitam as suas ruínas
pretéritas irresponsabilidades
pesam-me em demasia sobre os ombros
como se concretizassem
todos os anátemas a mim lançados em dia de más sinas

caminho por entre corpos caídos
há neles fisionomias que no passado me desenharam o rosto
vitoriosos semblantes
na mais natural posição dos vencidos
como se fossem laureados a contra-gosto

confrontado com esta minha natureza ubíqua
perante a contradição de sentir-me de tudo exilado
travo uma batalha improfícua
onde combato num e outro lado

não há outro resultado possível que não seja a minha vitória
ainda que isso implique derrotar-me
procuro concluir uma paradoxal história
emaranhado labirinto onde espero encontrar-me

e se tantas foram as vezes em que me perdi
sei-o agora
nunca logrei achar-me
novamente embrenhado nas barbaras nuances das emoções que então senti
tenho como único intuito continuar a procurar-me



leal maria

domingo, 17 de outubro de 2010

Mascaras

máscaras 

é-me perene o tempo de partida.
à minha alma,
fecunda-a um adeus assim que ela se move.
procuro na intrínseca natureza da despedida,
a essência dogmática de uma qualquer retórica que aprove.

mas nunca sou eu que parto.
nem quando à janela daquele comboio a sair da estação.
e ainda que farto,
invisto-me como fiel depositário da solidão.

sim, sou sempre eu no cais;
de mão no ar, a desenhar um adeus pouco convicto.
a tentar mais e mais,
chamar a atenção para o silêncio opressor do meu pretenso grito.

sou o que se força a entristecer.
a carpir mágoas pela forçada ausência.
ponho no semblante,
a expressão de alguém que acompanha outro alguém a morrer;
como se necessitasse o mundo dessa evidência.

sim,
quero revelar-me ao mundo frágil como me pretendo.
condição essencial para a publicitação da intensidade do meu sentir.
fazer alarde da minha dor e mostrar que a entendo,
uma etapa mais rumo à sublimação que ando a perseguir.

é irrelevante todas as mutações,
em mim se processarem com uma naturalidade desarmante.
mais que sentidas, quero a intelectualidade das emoções;
lágrimas sulcando-me no rosto a fisionomia do sofrido amante.

testemunhe o mundo o quão elevado é o por mim sentido.
reconheça-me possuidor das mais subtis  humanas fraquezas.
oculte-se-lhe que represento personagens à luz trazidas,
das minhas impenetráveis profundezas.

máscaras que tenho para usar nas circunstâncias dos dias.
tantas, que me perco nos seus enredos.
disperso pela diversidade das suas fisionomias;
deixando em cada uma fragmentos dos meus mais íntimos segredos.

actuo perante a vida como se fosse ela uma atenta plateia,
observando-me  desenvolver as personagens que atravessam toda trama.
intersecções, perpendiculares, paralelas,… rumos de uma emaranhada teia,
conjugando-se para a elaboração do drama.

como poderia eu abster-me de ser o actor!?
não substanciar de intensos sentimentos toda esta dramaturgia!?
ainda que fingido, não deixa de ser amor,
quando o cinzel e o escopo com que o talhamos é a poesia.

poesia… poetas…
já só cá faltava a referência a estas vetustas figuras.
tretas, tretas, tretas!
o ficcional mundo das sensibilidades… feminis ternuras.

não!
do húmus que é a génese do poeta, não se encontrará em mim nenhum.
outros se comprazam nessa onanista designação.
demasiadamente embrutecido para deles ser mais um;
escrevo poemas como quem ao vir-lhe o apetite, come pão.

não que as palavras me alimentem.
que são afinal, para que delas nos alimentemos?
possuindo-as na sua versão fonética ou gráfica, os corpos nada sentem.
para quê então, tanto as queremos?

confesso, delas sou dependente.
viciado pelo tanto de mal ou bem que lhes fiz.
necessidade premente,
de por elas me fixar nas coisas nas quais não sou bem sucedido em lançar raiz.

sem elas, como justificar-me tão fogo fátuo… tão dado à inconstância?
pois, poeta não serei.
quando muito, tenho dos demais alguma da jactância.
mas não ganho concursos e nem os meus aforismos são lei.

sirvo-me das palavras prostituindo-as.
vergo-as à vontade do que tenho para dizer.
advertindo-as,
das graves consequências que sobrevém a quem não me obedecer.

aí está: a jactância de poeta a vir ao de cima!
pobre de mim que sou refém das personagens que há muito represento.
promiscuidade que constantemente me ensina,
já somente sentir o que fingi ser sincero sentimento.

leal maria


domingo, 19 de setembro de 2010

... de um adeus possível

os silêncios sobrepõem-se a tudo.
indecifráveis são-me as palavras onde busquei o pulsar do teu sentir.
fico mudo…
já só vejo o teu recorte,
no horizonte dessa estrada por onde estás a ir.

para onde vais não o sei.
abstenho-me de te o perguntar.
vás para onde vás, lá, a minha vontade não será lei;
abdico do meu direito de essas latitudes tentar conquistar.

deixo-te ir como quem vê a passagem do tempo
resignado a que o não possa reter.
vais-te, e o ires-te em nada contamina a naturalidade.
obediente ao acaso e ao teu querer,
fico guardião de uma mais-que-anunciada saudade.

ocuparei esse posto até a fadiga me dizer que já basta.
abandoná-lo-ei, claro,
quando pouco mais me fores que uma vaga lembrança.
o tempo; esse furibundo senhor que de tudo nos afasta,
devolver-me-á a capacidade de sentir esperança.

não sei a forma que terás então.
são infinitas as morfologias dos sonhos que ruíram.
Ruínas, que por certo(as assolará um vento suão),
darão fraco testemunho dos amores que se sentiram.




leal maria

domingo, 12 de setembro de 2010

no verão que acaba, o fim do amor

 na desesperada procura de um sentido para tudo
 alicercei-me
 de toscas retóricas que falseiam a realidade
 ignóbil dialéctica
 com que substanciei um idioma quase mudo
 obstinado esbater de fronteiras entre a mentira e a verdade

 quis o sonho promessa de um paraíso possível
 recusei dar-lhe forma em limites aceitáveis
 aos tropeções
 avancei de um para outro nível
 permutei essências não permutáveis

 agora
 quando já só me resta uma cidade em escombros
 somente gritos habitam as suas ruínas
 pretéritas irresponsabilidades
 pesam-me em demasia sobre os ombros
 como se concretizassem
 todos os anátemas a mim lançados em dia de más sinas

 caminho por entre corpos caídos
 há neles fisionomias que no passado me desenharam o rosto
 vitoriosos semblantes
 na mais natural posição dos vencidos
 como se fossem laureados a contra-gosto

 confrontado com esta minha natureza ubíqua
 perante a contradição de sentir-me de tudo exilado
 travo uma batalha improfícua
 onde combato num e outro lado

 não há outro resultado possível que não seja a minha vitória
 ainda que isso implique derrotar-me
 procuro concluir uma paradoxal história
 emaranhado labirinto onde espero encontrar-me

 e se tantas foram as vezes em que me perdi
 sei-o agora
 nunca logrei achar-me
 novamente embrenhado nas barbaras nuances das emoções que então senti
 tenho como único intuito continuar a procurar-me



 leal maria

domingo, 5 de setembro de 2010

"é a vida..."

“é a vida…”
 sim, é a vida, eu sei.
 evidente constatação de um inócuo lugar-comum.
 reticências onde todos lá cabem
 e há sempre lugar para mais um.

 ideal lugar para eu habitar.
 três pontinhos que tudo deixam em aberto.
 de ubíqua natureza, vivo a realidade a sonhar;
 estou longe estando perto.

 em desespero, esperei quem não veio.
 vi sempre um adeus nos braços de quem me abraçava.
 meu desejo desaguou em anónimo seio.
 não reconheci quem disse que me amava.

 num jogo de azar ou sorte,
 deixei que momentaneamente,
 o aleatório predominasse sobre a vontade.
 observei como a vida se alimenta de outra vida,
 metamorfoseando-a em morte;
 voraz autofagia que nunca atinge a saciedade.

 filho do mutável,
 corri o risco de perder o umbilical sentido de pertença.
 mas nada dei como permutável,
 porque somente possuo o adquirido à nascença.

 meu choro inicial foi prenuncio de um grito de guerra.
 declaração possível de uma independência total.
 convicto na fúria de quem o seu primordial dogma berra;
 declarei a liberdade como bem fundamental.

 mas ai de mim,
 nada disso me exigiu sacrifícios.
 foi delito de consciência a que ninguém quis dar fim.
 e do fragores de batalhas somente há resquícios,
 daquelas que travei dentro de mim.

 batalhas… se em tantas pelejei,
 de nenhuma saí vencedor.
 nada encontrei daquilo que nelas busquei,
 para além de um efusivo clamor.

 clamor de falsos gritos de vitória.
 soube sempre ser inevitável a derrota.
 vã orgulho de quem somente lhe resta a gloria,
 de tentar endireitar uma vida que nasceu torta.

 “é a vida…”
 sim, é a vida, pois é…
 lugar-comum que não dá a resposta que me é devida.
 mesmo assim, manter-me-ei de pé:
 esperando que no crepuscular horizonte, se esconda ainda a luz,
 que todas as manhãs obriga a escuridão a declarar-se vencida.


 leal maria

segunda-feira, 30 de agosto de 2010



 não há glória maior do que esta:
 ser-se filho do acaso.
 obstinado espermatozóide
 ejaculado durante uma divina sesta;
 fêmea emprenhada,
 para que se preenchesse o vazio do caminho por onde agora passo.



 leal maria

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

crónica para amantes alucinados

a bem dizer, esse olhar nem sei se o conheço…
apenas de relance o vi.
e a imagem que de mim reconheço,
no reflexo que me devolveu não a reconheci.

as viagens que lá encontrei, estavam ainda por realizar.
aos sonhos,
cobria-os uma suave neblina.
complexo mundo,
não se deixando facilmente rebelar…
encantatória (quem sabe com que enganos) frescura vespertina.

para tanto me bastou,
as subtis e imprecisas insinuações
como universais verdades vertidas por sábios.
definir o que me encantou?
não sei!
talvez a luz nele adivinhada de um sorriso a desenhar-se em belos lábios.

os lábios…
a esses, sei-lhes o harmonioso arco de que se faz a sua perfeição.
complemento do uma beleza ainda mais basta.
não, senhores não falo de tesão:
mas sublimação maior; que tanto nos atrai como nos afasta.

não… não lhe chamemos amor:
Já um vulgaríssimo lugar comum.
não serve para dar a exacta medida à dor,
que é desejar-nos no reflexo de um olhar e só esse nos servir e mais nenhum.

seja como for, um nome é apenas isso: um nome.
nada me impede deles fazer um uso diferente dos demais
é sentimento que aos poucos em mim se some
um destes dias achar-me-ei só e sem saber o que espero naquele cais.

até lá… dou-me como perdido.


leal maria

liberdade de escolha

caminhai…
segui esse rumo, se assim melhor vos aprouver.
eu, vai não vai,
algum caminho hei-de também escolher.

por enquanto, escolho aqui ficar.
agrada-me este vazio de promessas.
nada esperar:
fruir de vida sem ansiedades ou pressas.

esta é a minha imediata revolução:
ver-vos ir sem que me tente o horizonte que perseguis.
esvaziarei de todo o adeus a minha mão;
e aqui, senhor na minha vontade, serei feliz.

talvez, quem sabe,
ainda venha a escolher um caminho ao vosso oposto.
pode ser que ainda acabe,
por encontrar um outro lugar,onde eterna a liberdade e sempre Agosto.

sim; é isso o que afinal procuro.
não me tentam riquezas ou glória:
conquanto haja a possibilidade de sonhar um futuro,
onde a luz seja perene testemunha da história.

guerreiro…
de uma maneira ou de outra é forçoso ser-se sempre guerreiro.
mesmo em batalhas a sonhar, o sangue colore a morte.
marinheiro...
navegar à bolina, contrariando o vento-norte.

do que encontrei,
nada definitivamente me moldou... nada me serviu.
mas não sou já a mesma matéria.
lodo… talvez o mesmo lodo que originalmente se viu;
só que agora atrás de uma mascara mais séria.

assim tem que ser!
somos sempre mais que a imagem que projectamos:
complexos universos num constante morrer e renascer,
contaminados à priori por aquilo que desejamos.

luta-se…
nunca o soçobro seja perante o medo.
caído em desgraça ou alçado vitorioso,
sejam os temores meu maior segredo.

segredo que de mim mesmo guardarei...
faça minha vontade a escolha.
única lei...
em meu olhar, por ela,
a mesma reverência do devoto que o seu poderoso deus olha.





leal maria

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

crónica da impossibilidade de um possível amor


sabes? dá-me agora para a nostalgia.
sim;
vêm-me à memória aqueles nossos calmos passeios à beira mar.
mãos entrelaçadas; comentava-mos as fúrias que ele escondia…
a imensidão, essa; aprisionava-la no teu olhar.

e no campo;
as correrias que o teu largo e sincero sorriso tornavam instáveis…
como tão nítida, com a memória, agora te vejo.
coisas que me davas e não eram permutáveis.
a ternura do teu abraço lançava às feras o meu desejo.

as noites… lembras-te que as dizia-mos só nossas?
com que ímpetos nos oferecia-mos sem qualquer pudor...
de nada valem as realidades que apresentar-me possas,
se já nada influis neste meu amor.  

não; tu não o sabes e, provavelmente, nem o sonhas,
o quanto toda esta nostalgia te faz presente em mim.
que interessa os contrários argumentos que como obstáculo nesta minha saudade ponhas;
se no mais intimo de nós as coisas raramente têm um fim.

sim, é bom recordar esses momentos muito nossos.
ainda que me digas louco,
arrepio-me até aos ossos;
ao recordar-me que não quantificava-mos o amor em muito ou pouco .

sim, serei louco; alucinado; …
amo-te como nunca a outrem amei!
pouco importa ser nostalgia de momentos que nunca entre nós se tenham passado.
a minha realidade tem como substância o etéreo brilho que no teu olhar vislumbrei.


leal maria

terça-feira, 17 de agosto de 2010

anatomia em sob-luz (inspirado na fotografia de Francesca Woodman)

alma…
obstinadamente a procuro
ao devassar corpos
ao exigir a subserviência do olhar
sim, a alma
esse primordial húmos
que promete resgatar-me à putrefacção
que em desespero tento adiar

e as sombras
decifrando-me a morfologia dos sentidos
numa ideal grafia para imperfeitos dialectos
sustêm as ruínas
albergue dos meus amores perdidos
numa anatomia de sob-luz que desejo perfeita e feita de afectos

subtis desejos
vindimo-os no anárquico turbilhão do que sinto
e com eles profano
o total despojamento de anónimos lugares
ínfimos instantes
em que não sei se falo a verdade ou minto
as memórias como refinados vinhos esquecidos em esconsos lagares

tudo em mim converge numa alucinada espiral
para o limiar de uma porta
onde se realiza uma crucificação pagã
dogma a tinta indelével sobre uma linha direita
onde um semi-deus escreveu numa caligrafia torta
inúteis instruções
para a tentação que tenho em comer a maçã

num abraço frio e virgem
a terra acolhe todos os corpos que amei
assim inertes, têm a dinâmica da vertigem
mas não lhes reconheço no rosto a alma que neles invoquei



leal maria