vejo-os irem
massa compacta em convicção absoluta
jurando-se de uma lealdade a toda a prova
não é esse o meu lado da luta
castrar-me-iam a curiosidade
que permanentemente em mim se renova
assediam-me com falsos brilhos
refulgentes
mas são outros os meus trilhos
egoísta
recuso contribuir para a dialéctica entre essa miríade de mentes
não avalizarei credos que outros têm
vãs glórias são os grande feitos por ser tanta a podridão que lhes houve
aliados não me convêm
sou submisso a uma razão que mais nenhuma razão ouve
às ideias que a tantos irmanaram
nenhuma tentação lhes encontrei
aos deuses que adoraram
não lhes fiz nenhuma libação
aos que querem saber para onde vou respondo que o não sei
tão pouco obedeço ao coração
insubmisso
vou sempre contra a corrente
ainda que ela
eventualmente
possa correr para o lado certo
sigo o rumo contrário ao de toda a gente
viro as costas ao oásis e tomo o caminho do deserto
nada me move a não ser a contradição
não gosto que me indiquem o caminho
recuso quem me estende a mão
é de uma só casta que faço o meu vinho
aliciam-me para que com eles eu vá
em doces palavras
mas digo-lhes adeus
acenando-lhes na sobranceria das minhas loucuras
são outras as minhas lavras
semeio uma miscelânea de ódios; indiferenças e ternuras
resisto
resisto até aos meus próprios desejos
e não desisto
enquanto a definitiva derrota não me violentar com os seus frios beijos
leal maria
sábado, 14 de novembro de 2009
sábado, 7 de novembro de 2009
Onírica soberania
fossem os sonhos soberanos
e erguer-me-ia de cada corpo
renascido
emergindo triunfante de todos os abismos em que me embrenhasse
sem que por nada fosse possuído
somente refém das memórias dos sentidos com que amasse
fossem os sonhos soberanos
e o meu país albergaria os lugares onde todos os desejos nasceriam
teria sua geografia a suave forma da ternura que se adivinha num abraço
as incertezas então seriam
diáfanas luzes preenchendo o que de vazio houvesse no meu espaço
fossem os sonhos soberanos
e bastar-me-ia um olhar para que tudo se dissesse
estenderia minha mão e a aceitariam sem constrangimentos
seria o mundo uma síntese do que eu quisesse
fluir-me-iam sem barreiras os sentimentos
fossem os sonhos soberanos
olharia em redor e vislumbraria múltiplas saídas
em aberto todas as possibilidades
um fruir ubíquo da vida em muitas mais vidas
ausentes somente as saudades
seja-me então o sonho soberano
erga-me do teu corpo renascido
emirja triunfante de todo o abismo em que me embrenhe
somente possuído
pela memória do sentido de que por ti ando há muito prenhe
sejam-me então o sonho soberano
faça de mim o país onde todos os desejos nascerão
e suave a sua geografia
como a prometida carícia exposta na tua impoluta mão
profusas e diáfanas luzes da poesia
me preencham a barbara alma
seja-me cada manhã uma incerteza
e somente me aquiete lá pela tarde calma
embriagado no perfume da tua humana natureza
leal maria
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
uma leitura dos silêncios
…e afinal,
há mais para além dos silêncios
que ausências tornaram um espaço vazio:
ouve-se o sussurro das palavras que ficaram por dizer.
são elas um corpo frio…
acabarão por perecer.
as certezas são aparentes e adivinham-se-me fingidas.
Imponho convicção aos gestos para que me não denunciem.
exíguas singularidades de tão repartido por tantas vidas
há mais para além dos silêncios
que ausências tornaram um espaço vazio:
ouve-se o sussurro das palavras que ficaram por dizer.
são elas um corpo frio…
acabarão por perecer.
as certezas são aparentes e adivinham-se-me fingidas.
Imponho convicção aos gestos para que me não denunciem.
exíguas singularidades de tão repartido por tantas vidas
suspenso
ávido por um qualquer sinal que me enviem.
quanto mais avanço,
ávido por um qualquer sinal que me enviem.
quanto mais avanço,
mais me afasto do que quero.
Inevitavelmente,
Inevitavelmente,
preso às memórias do que vai ficando para trás.
espero,
impacientemente, mas espero,
aquele sossego d´alma que nos irmana com a paz.
haverá sempre alguém a partir…
olha-se o horizonte na esperança de ver outro alguém chegar.
devia talvez,
espero,
impacientemente, mas espero,
aquele sossego d´alma que nos irmana com a paz.
haverá sempre alguém a partir…
olha-se o horizonte na esperança de ver outro alguém chegar.
devia talvez,
tomar o destino em mãos e ser eu a ir,
de encontro ao que quero achar.
mas já nada me move para além da inércia usual...
deixo-me levar ao sabor do acaso.
nada relativizo e tudo aceito como fundamental.
vejo sinais de um destino maior em todo o caminho por onde passo .
leio silêncios com sobranceira literacia,
numa enviesada e conveniente leitura.
tentativa de espremer-lhes uma impossível poesia,
com que daria corpo a uma possível ternura.
todo eu sou uma intensidade letárgica.
avassalador turbilhão contido num corpo que o tempo vai vencendo.
a toada trágica,
de um personagem que, ingloriamente, vai da peça desaparecendo…
leal maria
de encontro ao que quero achar.
mas já nada me move para além da inércia usual...
deixo-me levar ao sabor do acaso.
nada relativizo e tudo aceito como fundamental.
vejo sinais de um destino maior em todo o caminho por onde passo .
leio silêncios com sobranceira literacia,
numa enviesada e conveniente leitura.
tentativa de espremer-lhes uma impossível poesia,
com que daria corpo a uma possível ternura.
todo eu sou uma intensidade letárgica.
avassalador turbilhão contido num corpo que o tempo vai vencendo.
a toada trágica,
de um personagem que, ingloriamente, vai da peça desaparecendo…
leal maria
domingo, 25 de outubro de 2009
assassino de deuses me confesso
putrefactas,
vi as palavras dos profetas jazidas pelo chão...
obscuras actas,
da divina escuridão.
adivinhei-lhes todos os grilhões com que amordaçaram ideias.
ouvi-lhes todos os gritos dos que torturaram em nome da fé.
senti o cheiro a gordura
dos cadáveres que alimentaram as suas candeias;
soube-lhes todas as artimanhas com que derrubaram o Homem em pé.
para quê a suas promessas de eternidade?
que felicidade encerra uma perpétua submissão?
se a isso chamam a comunhão com a divindade;
com orgulho me declaro mortal,
que minha mãe é a terra e meu ventre foi o seu chão.
os deuses que em mim houve, morreram...
definharam consoante me ia clareando o dia.
obtusa negação das razões pelas quais em mim nasceram;
esconjurei-os pela liberdade que em mim nascia.
apátrida de todo o prometido céu,
aliei-me à pureza instintiva do demónio que em mim existe.
com orgulho me assumo réu;
por obstinada recusa em lhes talhar a fisionomia furibunda e triste.
afastei o cálice que me estenderam…
meu sangue e lágrimas não dará ao seu nefasto conteúdo o sabor.
serei aquele que eles para sempre perderam;
dual, alternado entre o ódio e o amor.
nego proselitismo ao seus ministérios.
anárquico, sempre, perante os divinos critérios!
morreram os deuses que me habitaram.
há muito os sepultei.
ao olhar a obra que criaram,
nenhum remorso me subsiste…
com alegria em mim os matei!
leal maria
vi as palavras dos profetas jazidas pelo chão...
obscuras actas,
da divina escuridão.
adivinhei-lhes todos os grilhões com que amordaçaram ideias.
ouvi-lhes todos os gritos dos que torturaram em nome da fé.
senti o cheiro a gordura
dos cadáveres que alimentaram as suas candeias;
soube-lhes todas as artimanhas com que derrubaram o Homem em pé.
para quê a suas promessas de eternidade?
que felicidade encerra uma perpétua submissão?
se a isso chamam a comunhão com a divindade;
com orgulho me declaro mortal,
que minha mãe é a terra e meu ventre foi o seu chão.
os deuses que em mim houve, morreram...
definharam consoante me ia clareando o dia.
obtusa negação das razões pelas quais em mim nasceram;
esconjurei-os pela liberdade que em mim nascia.
apátrida de todo o prometido céu,
aliei-me à pureza instintiva do demónio que em mim existe.
com orgulho me assumo réu;
por obstinada recusa em lhes talhar a fisionomia furibunda e triste.
afastei o cálice que me estenderam…
meu sangue e lágrimas não dará ao seu nefasto conteúdo o sabor.
serei aquele que eles para sempre perderam;
dual, alternado entre o ódio e o amor.
nego proselitismo ao seus ministérios.
anárquico, sempre, perante os divinos critérios!
morreram os deuses que me habitaram.
há muito os sepultei.
ao olhar a obra que criaram,
nenhum remorso me subsiste…
com alegria em mim os matei!
leal maria
domingo, 18 de outubro de 2009
sobrevive a esperança ao bucólico desencanto
deu a alma toda dispondo o corpo completo
à gula de quem tomou como traje a pele do predador
submissa, aguardou que algum afecto
fosse o desejado bálsamo para a sua dor
mas ausências amputaram-lhe sonhos
tão grávida de segredos
dentro de si os trouxe como se fora filhos
havia-os gerado nos esforços medonhos
ao desbravar novos trilhos
mas ali,
suave como sempre o fora
decantou com o olhar
tudo o que a flor tinha como essência da primeira hora
e desejou-a um mundo perfeito
forma do grito trazido amordaçado no peito
que crescesse junto ao suave canto
que a trazia no espanto
das coisas a crescer anárquicas e sem espartilhos.
pétala a pétala ia-se descobrindo
moldando corpo e alma ao desejo
como a primeira nota da melodia de um deus rindo
ansioso lábio à espera do beijo
há muito fertilizava-a o pólen das coisas inquietas
às memórias dos tempos que foram duros
sobreporia a luz das manhãs despertas
libertar-se-ia das sombras existentes entre muros
em comunhão com o destino da flor
perenes
somente ser-lhe-iam as boas recordações
ainda que efémeras as glórias do amor
numa ideia de eternidade germinar-lhe-iam as emoções
leal maria
à gula de quem tomou como traje a pele do predador
submissa, aguardou que algum afecto
fosse o desejado bálsamo para a sua dor
mas ausências amputaram-lhe sonhos
tão grávida de segredos
dentro de si os trouxe como se fora filhos
havia-os gerado nos esforços medonhos
ao desbravar novos trilhos
mas ali,
suave como sempre o fora
decantou com o olhar
tudo o que a flor tinha como essência da primeira hora
e desejou-a um mundo perfeito
forma do grito trazido amordaçado no peito
que crescesse junto ao suave canto
que a trazia no espanto
das coisas a crescer anárquicas e sem espartilhos.
pétala a pétala ia-se descobrindo
moldando corpo e alma ao desejo
como a primeira nota da melodia de um deus rindo
ansioso lábio à espera do beijo
há muito fertilizava-a o pólen das coisas inquietas
às memórias dos tempos que foram duros
sobreporia a luz das manhãs despertas
libertar-se-ia das sombras existentes entre muros
em comunhão com o destino da flor
perenes
somente ser-lhe-iam as boas recordações
ainda que efémeras as glórias do amor
numa ideia de eternidade germinar-lhe-iam as emoções
leal maria
marinheiros deste barco
tu
o outro de mim que lá vens
sossega o passo e adia o destino que levas
senta-te aqui e mostra-me o que dentro de ti conténs
a cada descanso que te permites
é mais um lugar onde a luz dissipa as trevas
sei que contigo não trazes nenhuma verdade
por isso reclamo a tua companhia
basta-me saber que do futuro sentes saudade
e ao passado olha-o como se fora um verso mais da universal poesia
deixa-te aqui estar mais um bocadinho
falemos dos amores que perdemos mas também do que podemos vir a encontrar
que quando definitivamente te fores
não irás sozinho
ver-me-ás ao teu lado caminhar
afinal
desde sempre os nossos caminhos seguem paralelos
e ainda que muitas das vezes divirja-mos sobre perspectiva com que um problema se deve abordar
são sempre os nossos diálogos tão belos
que inexoravelmente é a um mar de novas perguntas onde acabamos por desaguar
é bom ser este rio sem um peixe costumeiro
sinuoso mas ainda assim inteiro
onde o navegar não se espartilha numa ciência exacta
e nenhuma barragem nos mata
porque nesta nossa flexibilidade
encontramos sempre uma outra possibilidade
recanto onde acentuamos a erosão
e nos permite passarmos adiante
perene tentativa de domar o destino na mão
contribuindo um pouco mais para o ancestral sonho do infante
levantemo-nos então
olhemos o caminho em frente com a original emoção
como se de agora em diante fosse o primeiro dos dias
seja-mos marinheiros sequiosos de matinais maresias
agarremos firmes os cabos e a esperança
ancorados somente na determinação
que o sonho nunca se alcança
se ganharem raízes os pés quando os pousamos no chão
tu
o outro que eu sou
aquele que comigo o sonho buscou
vem daí e chama também os muitos outros que somos
saiba-mos realizar alguns dos sonhos que sonharam aqueles que fomos
e nesta promíscua multiplicidade
saibamos antever somente o ténue vislumbre da absoluta verdade
vai ser bom chegar ao fim e ainda tanto por realizar
saber que fica ainda tanto por navegar
leal maria
o outro de mim que lá vens
sossega o passo e adia o destino que levas
senta-te aqui e mostra-me o que dentro de ti conténs
a cada descanso que te permites
é mais um lugar onde a luz dissipa as trevas
sei que contigo não trazes nenhuma verdade
por isso reclamo a tua companhia
basta-me saber que do futuro sentes saudade
e ao passado olha-o como se fora um verso mais da universal poesia
deixa-te aqui estar mais um bocadinho
falemos dos amores que perdemos mas também do que podemos vir a encontrar
que quando definitivamente te fores
não irás sozinho
ver-me-ás ao teu lado caminhar
afinal
desde sempre os nossos caminhos seguem paralelos
e ainda que muitas das vezes divirja-mos sobre perspectiva com que um problema se deve abordar
são sempre os nossos diálogos tão belos
que inexoravelmente é a um mar de novas perguntas onde acabamos por desaguar
é bom ser este rio sem um peixe costumeiro
sinuoso mas ainda assim inteiro
onde o navegar não se espartilha numa ciência exacta
e nenhuma barragem nos mata
porque nesta nossa flexibilidade
encontramos sempre uma outra possibilidade
recanto onde acentuamos a erosão
e nos permite passarmos adiante
perene tentativa de domar o destino na mão
contribuindo um pouco mais para o ancestral sonho do infante
levantemo-nos então
olhemos o caminho em frente com a original emoção
como se de agora em diante fosse o primeiro dos dias
seja-mos marinheiros sequiosos de matinais maresias
agarremos firmes os cabos e a esperança
ancorados somente na determinação
que o sonho nunca se alcança
se ganharem raízes os pés quando os pousamos no chão
tu
o outro que eu sou
aquele que comigo o sonho buscou
vem daí e chama também os muitos outros que somos
saiba-mos realizar alguns dos sonhos que sonharam aqueles que fomos
e nesta promíscua multiplicidade
saibamos antever somente o ténue vislumbre da absoluta verdade
vai ser bom chegar ao fim e ainda tanto por realizar
saber que fica ainda tanto por navegar
leal maria
domingo, 11 de outubro de 2009
migrações
demoras-te por aqui
e eu já me habituei à tua companhia.
lentamente,
vais tomando posse do lugar que para ti reservei.
ainda que continues a contaminar-me a poesia,
sou já imune à memória daquele dia,
em que, invocando-te pelo nome, acordei.
deixaste de me ocupar todos os espaços…
arrumei-te a um canto de mim,
algures entre o desespero e a resignação.
sinto na alma o suave roçagar dos teus passos;
mas já não é isso suficiente para me desassossegar o coração.
passeio agora o tempo como se estivesse a flutuar…
há muito que de ti mais não espero do que a parte que comigo ficou.
e é bom o desprendimento nesta maneira de amar:
não esperar retorno do que de livre vontade se amou.
somam-se novos dias aos velhos dias;
e velhos sonhos como novos se vão em mim renovando.
esbatem-se os significados cifrados daquilo que me dizias;
subsiste uma outra perspectiva do que em ti andava buscando.
velhos desejos são sobrepostos sedimentos munindo-me de uma dura couraça.
nada do que neles almejei me sobrevive agora.
retorno à antiga memória que, violentamente, de novo me amordaça…
censura-se-me a demora.
o caminho, mal ou bem, fazer-se-á !
e ainda que destino nenhum eu alcance;
nada foi desperdício, nem a esperança vã;
novas inquietações impelem-me a que avance.
liberto do que fui,
libertar-me-ei do que sou e serei livre para o que está para vir…
às cegas, vou tacteando as possibilidades!
recuar é apenas uma outra táctica para continuar a ir,
contornando o obstáculo das saudades.
demora-te em mim o tempo que quiseres!
afinal, és parte substancial das minhas mais ternas memórias.
mas quando em definitivo te fores,
faz o mais silêncio que puderes:
para que não te veja partir e a tristeza não me resgate de outras histórias .
leal maria
domingo, 4 de outubro de 2009
Vou, não sei para onde, mas vou
vendo bem
nem sei à quanto tempo
desertei do ventre de minha mãe
de lá para cá
foram tantos os rostos que usei
já não lhes sei a idade
fui sempre mais alguém
em mim mora permanente uma saudade de sentir saudade
em rosto nenhum me reconheço
talhou-os o cinzel das aleatórias circunstâncias
nada têm daquele que usei no começo
esse
perdi-o nos azimutes das minhas transumâncias
àqueles que fui e àquele que agora sou
pouco importa o tempo em grafia no bilhete de identidade
mantém-se a procura e nada ainda se achou
e bem pode ser isso
um dos traços fisionómicos da eternidade
a minha idade é os meus sonhos
e estes não têm forma
não há cansaços que me embaracem em sua demanda
em cada alma que a dor da minha como sua toma
dou testemunho da recusa em aceitar que o tempo manda
nos disseram surgidos de nascimento
e que assim nasce todo e qualquer ser
mas o mesmo é dizer que o sentimento
existe porque houve um querer
antes da haver o querer teve que haver a vontade
antes de haver a vontade teve que haver a sua ausência
para haver a ausência teve que a anteceder uma ansiedade…
é uma espiral a forma da nossa essência
exilado no meu existir
vou ansioso e sempre com a mesma resolução
de encontro ao que está para vir
e no punho fechado
aprisiono a caixa de Pandora na mão
há segredos que revelei
há manifestos que obriguei ao silêncio dos segredos
desbravei caminhos e a lado nenhum cheguei
mas nas suas sombras desbaratei o meu pecúlio de medos
para onde vou não o sei
tampouco me servem de guia aqueles que me precedem
olho para trás
nenhum trilho vislumbro dos que caminhei
e não me reconheço naqueles que me seguem
sou ubíquo nos lugares onde ainda não logrei chegar
desde sempre os habitou o meu desejo
por isso persisto em caminhar
que algures
ainda virgem
há um lábio à espera do meu beijo
leal maria
nem sei à quanto tempo
desertei do ventre de minha mãe
de lá para cá
foram tantos os rostos que usei
já não lhes sei a idade
fui sempre mais alguém
em mim mora permanente uma saudade de sentir saudade
em rosto nenhum me reconheço
talhou-os o cinzel das aleatórias circunstâncias
nada têm daquele que usei no começo
esse
perdi-o nos azimutes das minhas transumâncias
àqueles que fui e àquele que agora sou
pouco importa o tempo em grafia no bilhete de identidade
mantém-se a procura e nada ainda se achou
e bem pode ser isso
um dos traços fisionómicos da eternidade
a minha idade é os meus sonhos
e estes não têm forma
não há cansaços que me embaracem em sua demanda
em cada alma que a dor da minha como sua toma
dou testemunho da recusa em aceitar que o tempo manda
nos disseram surgidos de nascimento
e que assim nasce todo e qualquer ser
mas o mesmo é dizer que o sentimento
existe porque houve um querer
antes da haver o querer teve que haver a vontade
antes de haver a vontade teve que haver a sua ausência
para haver a ausência teve que a anteceder uma ansiedade…
é uma espiral a forma da nossa essência
exilado no meu existir
vou ansioso e sempre com a mesma resolução
de encontro ao que está para vir
e no punho fechado
aprisiono a caixa de Pandora na mão
há segredos que revelei
há manifestos que obriguei ao silêncio dos segredos
desbravei caminhos e a lado nenhum cheguei
mas nas suas sombras desbaratei o meu pecúlio de medos
para onde vou não o sei
tampouco me servem de guia aqueles que me precedem
olho para trás
nenhum trilho vislumbro dos que caminhei
e não me reconheço naqueles que me seguem
sou ubíquo nos lugares onde ainda não logrei chegar
desde sempre os habitou o meu desejo
por isso persisto em caminhar
que algures
ainda virgem
há um lábio à espera do meu beijo
leal maria
sábado, 26 de setembro de 2009
desperta a manhã e surpreende incautos os amantes
sabe que muitas das vezes acordo para os dias
e não estou para poesias
emirjo na manhã sob uma poeira de desencanto
ao poema perco-lhe o sentido
fraqueja-me a voz a meio do canto
e dou por mim a lamentar tê-lo construído
afoito
procuro ajuda àqueles com que me habitei em cidade
e eles são-me uma imensa multidão
anónimos
nascidos da fornicação entre minha alma e a curiosidade
foram criados para me diluírem a peçonhenta solidão
mas inevitavelmente
ela logra tomar conta de mim
absorto que estou de tudo o resto quando neste oficio de sentir
perante o precipício de um não em contra-ponto a um sim
dou sempre o evitável passo em frente e deixo-me cair
no entanto, são virgens as tuas mãos
quando pela manhã sobre as minhas pousam
e há no teu olhar um solstício de verão
claro e longo dia que fruir os deuses não ousam
porque a pureza mora perfeita na sinfonia do teu coração
resgata-me o abraço que me dás
desperta-me a palavra que sussurras em lânguida liturgia
suavíssimo despertar de manhãs
em que de novo me embranqueço para a poesia
sim
são virgens as tuas mãos sobre as minhas assim tão mansas
confesso que nelas se me desenha o mundo exterior a cores
e tu persistes nessa esperança de que nunca te cansas
esperando de mim uma altruística permuta de amores
ainda assim
a noite resguardar-me-á novamente em frio e desamor
para que os grilhões desses teus encantos me não prendam
é há noite que disseco a tua anatomia ao pormenor
no intuito que os sentidos da alma aos do corpo se rendam
no teu sexo me encarno em puro egoísmo
faço-me senhor do agora e do depois
que o passado não me proporciona o almejado heroísmo
que é unir-me a ti e continuar a ser somente um de dois
é neste intermitente castrar de memória
que me vou furtando à entrega absoluta
em cada dia és-me renovada história
e cada dia mais profunda e irresolúvel a minha permanente luta
quero sempre as manhãs nascidas da incerteza
ler o poema que no teu corpo escrevi e não me reconhecer
apagar todo o sinal com que te profanei a beleza
para que em cada noite escreva outro tempo e de novo em ti me faça renascer
leal maria
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
liberdade de expressão
tristes são as palavras
quando as habita a vacuidade
escravas de quem nada tem ou sabe dizer
são largadas em anárquica liberdade
destinadas a definhar no limbo das frases sem sentido
onde acabarão por morrer
com o argumento de recusarem todo o espartilho
negligenciam dar-lhes o necessário rumo
que límpido e claro
não lhes ofuscasse o brilho
semear frases é um levantar paredes a fio de prumo
não se corta uma oração a meio
só para lhe dar a forma de poema
como se a poesia fosse um ressequido seio
e nos nutrisse sem a suavidade do fonema
toscos
assanham-se por toda a critica contrária
solícitos a pôr o ferrete da inveja
são pedantes na sua posse de eminência luminária
castram-se de toda a crueza com que se deseja
masturbam a alma em segredo
porque ínfima a substância
há que ter delicadeza
ciosos guardiães de um degredo
vivem para cá dos Homens
contaminados de tanta e tanta pureza
heróicos sobreviventes do aborrecimento
barricados atrás de uma pseudo cultura
vão moendo o mesmo sentimento
na esperança de lhe fazer surgir algo parecido com ternura
deixemo-los comprazidos nos seus rituais onanistas
são agora ubíquos e máximo denominador comum
depois de tantas conquistas
no terreno da liberdade há sempre lugar para mais um
leal maria
quando as habita a vacuidade
escravas de quem nada tem ou sabe dizer
são largadas em anárquica liberdade
destinadas a definhar no limbo das frases sem sentido
onde acabarão por morrer
com o argumento de recusarem todo o espartilho
negligenciam dar-lhes o necessário rumo
que límpido e claro
não lhes ofuscasse o brilho
semear frases é um levantar paredes a fio de prumo
não se corta uma oração a meio
só para lhe dar a forma de poema
como se a poesia fosse um ressequido seio
e nos nutrisse sem a suavidade do fonema
toscos
assanham-se por toda a critica contrária
solícitos a pôr o ferrete da inveja
são pedantes na sua posse de eminência luminária
castram-se de toda a crueza com que se deseja
masturbam a alma em segredo
porque ínfima a substância
há que ter delicadeza
ciosos guardiães de um degredo
vivem para cá dos Homens
contaminados de tanta e tanta pureza
heróicos sobreviventes do aborrecimento
barricados atrás de uma pseudo cultura
vão moendo o mesmo sentimento
na esperança de lhe fazer surgir algo parecido com ternura
deixemo-los comprazidos nos seus rituais onanistas
são agora ubíquos e máximo denominador comum
depois de tantas conquistas
no terreno da liberdade há sempre lugar para mais um
leal maria
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