domingo, 4 de outubro de 2009

Vou, não sei para onde, mas vou

vendo bem
nem sei à quanto tempo
desertei do ventre de minha mãe
de lá para cá
foram tantos os rostos que usei
já não lhes sei a idade
fui sempre mais alguém
em mim mora permanente uma saudade de sentir saudade

em rosto nenhum me reconheço
talhou-os o cinzel das aleatórias circunstâncias
nada têm daquele que usei no começo
esse
perdi-o nos azimutes das minhas transumâncias

àqueles que fui e àquele que agora sou
pouco importa o tempo em grafia no bilhete de identidade
mantém-se a procura e nada ainda se achou
e bem pode ser isso
um dos traços fisionómicos da eternidade

a minha idade é os meus sonhos
e estes não têm forma
não há cansaços que me embaracem em sua demanda
em cada alma que a dor da minha como sua toma
dou testemunho da recusa em aceitar que o tempo manda

nos disseram surgidos de nascimento
e que assim nasce todo e qualquer ser
mas o mesmo é dizer que o sentimento
existe porque houve um querer

antes da haver o querer teve que haver a vontade
antes de haver a vontade teve que haver a sua ausência
para haver a ausência teve que a anteceder uma ansiedade…
é uma espiral a forma da nossa essência

exilado no meu existir
vou ansioso e sempre com a mesma resolução
de encontro ao que está para vir
e no punho fechado
aprisiono a caixa de Pandora na mão

há segredos que revelei
há manifestos que obriguei ao silêncio dos segredos
desbravei caminhos e a lado nenhum cheguei
mas nas suas sombras desbaratei o meu pecúlio de medos

para onde vou não o sei
tampouco me servem de guia aqueles que me precedem
olho para trás
nenhum trilho vislumbro dos que caminhei
e não me reconheço naqueles que me seguem

sou ubíquo nos lugares onde ainda não logrei chegar
desde sempre os habitou o meu desejo
por isso persisto em caminhar
que algures
ainda virgem
há um lábio à espera do meu beijo


leal maria

5 comentários:

Lúcia disse...

Às vezes, por um beijo - por 'aquele' beijo, valem a pena as encruzilhadas, as guerras de identidades; as ansiedades...
Ou queremos achar que sim, para dar um sentido a tanto guerrear - muitas vezes, internamente - connosco.

Abraço
(nem sempre comento, mas é um prazer enorme passar por aqui):))

Anónimo disse...

Escreves mal como caralho! Estamos no século 21, acorda!

JMS

leal maria disse...

Caro Zé Marito S (espero que não me leves a mal a familiaridade do tratamento, mas vós, os "pequenitos", gostam de serem chamados por diminutivos), não é a frase lapidar e definitiva que me desilude: mas a boçalidade do "Escreves mal como caralho!” Ainda por sem o pronome oblíquo átono a fazer a correcta junção da afirmação. O correcto seria: Escreves mal como o caralho!
Agradeço a tua preocupação em me despertar para o Século XXI, mas façamos o seguinte exercício:
“Recreio
Caruma, raízes escuras, manchas
de luz entre as árvores. Enquanto
ali estávamos o colégio era um
vulto branco a arder ao sol,
lugar de gramática e geografia,
salas onde a voz do ditado
ecoava e a que nem sempre
queríamos regressar. Às vezes
a tarde imobilizava-se quando
partíamos pinhões com pedras
aguçadas e sentíamos nos dedos
a textura da resina. Jogávamos
à bola com pinhas, usávamos
cuspo para limpar o pó dos sapatos
ortopédicos, esfolávamos joelhos
– rituais infantis como tantos outros,
condenados à nostalgia.”
José Mário Silva in luz indecisa, Oceanos, 2009

Lido o poema, o que nele vês? Uma suave descrição de autor, recorrendo às memórias de infância, nomeadamente do colégio onde estudou, com a óbvia conclusão: “rituais infantis como tantos outros, condenados à nostalgia.” Óbvia, porque até quem teve uma miserável infância sente-lhe a saudade. Tudo o que ele tem de verdadeira substância poética são as fracas metáforas do: “vulto branco a arder ao sol” e “Às vezes
a tarde imobilizava-se…” Ou seja, um poema bonito de se ler, mas faltando-lhe o essencial: intemporalidade! O que faz dele um poemazito com um claro bilhete de identidade. Nasceu numa época e nessa época morrerá sem deixar nada que perdure para além desse tempo. Daqui por uns séculos quem se vai rever nessas vivências? É isto que queres que eu escreva? É isto a “bela poesia do século XXI?

leal maria disse...

Atenta agora no meu poema:
“vendo bem
nem sei à quanto tempo
desertei do ventre de minha mãe
de lá para cá
foram tantos os rostos que usei
já não lhes sei a idade
fui sempre mais alguém
em mim mora permanente uma saudade de sentir saudade

em rosto nenhum me reconheço
talhou-os o cinzel das aleatórias circunstâncias
nada têm daquele que usei no começo
esse
perdi-o nos azimutes das minhas transumâncias”

Goste-se ou não do estilo algo arcaico da minha escrita, reconhecerás que eu falo no poema do que de mais intrínseco há no ser humano. Aquela insanável contradição de nos reconhecermos o mesmo de sempre nas muitas mutações que ao longo da vida vamos sofrendo, com as consequentes paradoxais emoções que nos assolam a alma, condicionando as nossas opções e tornando complexo todo um processo de autoconhecimento. Isso é algo imutável à passagem dos séculos! Se por acaso alguém daqui por dois séculos, ler este poema, mesmo que num contexto diametralmente oposto ao que vivo agora, vai reconhecer-se nessa ambiguidade subjacente ao seus sentires…

Vendes a poesia numa perspectiva preguiçosa: na falta de talento para alinhavar uma ideia, numa economia de palavras que a não deixe à mercê da subjectividade de cada um, recusais a ritmo fonética da rima para vos embrenhares em vacuidades que mais não são do que uma mama de aguado leite.
O vernáculo a despropósito não é motivo suficiente para que te censure o comentário. Antes pelo contrário: agradeço teres-te dado ao trabalho de comentar o que escrevo.
Nada mais me agrada que não haver unanimidade e se diga o que realmente se pensa. Tenho é pena que te limites a ser tão taxativo sem concretizares o real motivo do teu desagrado. Vê bem; com um comentário feito às 4 da madrugada, posso ser tentado a pensar que houve uma frustração qualquer e resolveste fazer a catarse dela pela maneira errada.

És sempre bem vindo aqui. Mais ainda se cá vieres criticar o que de mal escrevo. Mas disseca-me os poemas e diz de tua justiça.

Luis Leal

PS: “magnum opus
Um verso apenas – ou menos ainda”.

José Mário Silva in luz indecisa, oceanos, 2009

Este então… bonito, mas claramente feito para ocupar uma folha inteirinha, por quem pouco tem a dizer!

leal maria disse...

Mas se gostas de Moderna Poesia, aqui vai umas sugestões de uma poética realmente inovadora:

http://nomadaonirico.blogspot.com/

http://joaonegreiros.blogspot.com/

http://www.letrasigneas.blogspot.com/