segunda-feira, 1 de junho de 2009

e segui a direcção do teu olhar

e segui a direcção do teu olhar
mas não sei se fiquei para trás ou lhe passei adiante
porque não vi onde foi ele pousar
e perdi-te por nunca ter sabido do teu corpo ou o seu levante

podia existir o desejo de a ti regressar-me de alma desvirgem e sublime
como se fora Ulisses de volta a Ítaca ao filho e sua Penélope amada
deixar esta sede de imensidão que tanto me oprime
porque o vazio está à minha frente e o sonho é um tudo nada

mas quero renascer-me em ti e já não posso
tudo me prende aos lugares onde não estás nem eu estou
a terra nunca nos foi firme e o mar deixou de ser nosso
e se em deus nenhum acredito não diga a divindade que alguma vez me perdoou

de novo
levantar-se-me-ão os demónios que se desvaneceram quando pelas manhãs me nascias
cedo começarei a ouvir-lhes o ruminar a luz da tarde
os lugares serão de novo os lugares onde no antanho ainda não me existias
e a esmaecida memória mais frágil ficará por não ter onde te guarde

então sobre mim virá de novo a inquieta escuridão
quando tu nem eras quimera nem a tua forma por entre saudades a perdia
e anárquica ficará outra vez a carícia na minha mão
prostituindo-se em corpos secos de toda a poesia

diluir-te-ás no esquecimento do meu perpetuo voltar e ir embora
não serás este sentido que ainda me perdura
uma brisa preencherá de mais vazio o vazio da minha reflectiva hora
quando soçobrar ao desespero ansioso duma possível ternura

tudo em mim será de novo o nada sendo que nada é o que mais quero
nada ficará do que em mim foi tua sementeira
então deixará de haver a ausência de chegada no lugar onde te espero
e a solidão será a minha dilecta companheira

reinar-me-á uma paz nem que seja à força bruta
que o tudo mais é o resto de uma perpetua luta



leal maria

a soma de todas as fracções de que são feitos os instantes

sou a soma de todas as fracções de que são feitos os instantes
adivinhei a fonte das lágrimas que me agregaram ou subtraíram à felicidade
nos dialectos de tantos corpos amantes
ouvi o espanto que há nas palavras sussurradas com verdade

sonhei talvez o sonho na sua essência original
a ressurreição de todos os desejos que me precederam
uma paz entre o bem e o mal
no efémero sossego de todos “aqueles” que em mim pereceram

mas a mortalidade de mim não se ausentou
e o meu sémen não foi em esperança que se converteu
a demanda do maior sentido que outrora imperou
não logrou derrubar o tempo que o imenso muro ergueu

e em toda esta minha “fome”
ouço vozes iradas e de verve inflamada
um desespero na inquietação que me consome
pelas quimeras ancoradas no absoluto nada

mas o verbo continua meu e nele habita toda a minha intenção
hoje como ontem abjurando as nefastas retóricas e toscas sapiências
mas promessas são a espada de má aço que trago na mão
e há no adivinhar do fim como que um prenúncio de violências

quis o universo em nome da uma noção
escravizei-me na persecução do um ideal
espartilhado entre a escolha de um sim ou de um não
inventei novas nuances para pecado original

agora em todas as coordenadas me morrem os sonhos
oriento-me pelos azimutes da desesperança
embrenho-me nesses caminhos medonhos
onde o choro se ausenta até no anuncio do nascer de uma criança

sou o resquício da original substância do mundo
sou a má matéria de que ele é também feito
a espiral descendente de um fugaz segundo
a morte que sobrevem aos lábios sôfregos na doce suavidade de um peito

livres já não são os corpos quando a mim se dão
e a eternidade dissolve-se na fragmentação dos instantes
em que o coração se desenlaça do meu corpo e o corpo do meu coração
e os deuses deixam de invejarem serem também meus amantes

leal maria

vãs dialogos da divindade

Deus :
vem!! aproxima-te… eu te convoquei!
chega-te célere à minha mesa, pois sou o senhor!
reconhece-me como o único rei…
deslumbra-te com meu semblante inspirando temor.

Homem:
Perdoai, mas a verdade é que… venho incauto!
nem sei como aqui cheguei a este ponto do pensamento…
lavras-te contra mim algum auto?
que me recorde, era banal todo o meu sentimento!

Deus:
aaaaaaaaarrrhhh….
homem de pouca fé, que te não criei para isto!
porque arrogante, te perdes em perguntas e explicações sem que eu te as peça?!
o muito do mundo que já houveras visto,
cingiu-te de arrogância sem que o medo te a impeça …

Homem:
em verdade te digo: todo aquele que oprime o convidado,
merece menor consideração que o réptil mais insignificante!
se por convite se entende algo que ao hóspede vai ser ofertado,
de bom tom seria deixa-lo livre na conveniência do seu instante.

Deus:
como começa mal este teu comparecer perante mim!
achas-me complacente e começas logo a abusar da confiança!
lembra-te que sou o Alfa e Ómega… o principio e o fim…
de mim deriva toda a circunstância!

por certo, toda a minha infinita benevolência,
me faz com que seja parcimonioso a olhar para vós.
mas não me é infinita a paciência,
que não venhas a ouvir a minha mais tonitruante voz.

Homem:
mas quê… será por ventura, o teu vociferar ainda mais medonho?
e o teu semblante muito mais iracundo?
não te basta teres-me raptado á beleza de um sonho,
ameaças-me com o teu abismo mais profundo!?




que te pedi eu, para que agora me venhas cobrar?
foi-me nefasta aceitar a escravidão de te servir!
há muito que por ti os melhores bezerros ando a matar;
e somente nos beiços gordurosos dos sacerdotes senti o teu existir.

deixa-me em paz por agora…!
esvai nas divinas entranhas essa taça que tens tão cheia…
é tempo de te ires embora…
que o sangue que se derrama já te não premeia!

dizes-me tolo pelo amor que tenho à ciência.
interditas-me tudo e mais alguma coisa.
mas para ti é que me vai faltando paciência.
o opróbrio há muito que sobre a tua cabeça poisa.
vai-te!

Deus:
como te atreves a tal heresia?
julgas acaso que o renegares-me te abre algum paraíso?
eu era antes de haver o que havia…
a mim me basto… em mim tudo existe do que preciso!

vai-te… vai-te… dizes-me tu!?
e no entanto os teus pés pisam o chão sagrado do meu paço!
a fúria que agora me põe perante ti tão nu,
anuncia a força bruta do meu divino abraço.

há muito que me vens renegando amiúde…
e o mais das vezes te tenho perdoado na minha infinita misericórdia.
tenho-te feito regressar ao caminho da virtude,
erguendo-te da mais abjecta mixórdia.

mas tu… a personificação da ingratidão;
sais do caminho que diligentemente para ti tracei.
e ousas levantar para mim a tua mão,
fazendo tábua rasa do verbo que te anunciei como lei.

mas obedecer-me-ás mesmo que o não queiras!
a minha omnipotência assim o determinou!
apodrecerá todo o cereal nas tuas eiras,
e lançar-te-ei ao Hades d´onde nunca ninguém voltou!




Homem:
seja como o deseja a tua vontade,
se tal for necessário para livrar de ti a minha descendência!
que o deus perante o qual me prostro se chama liberdade
e a sua sabedoria emana da ciência!

não deriva de ti outra coisa que não o acaso…
aliás; ele é toda a tua essência!
é por ele que se faz a geografia do meu passo;
à revelia da tua propalada sapiência.

a mim só me rege a boa ou má sorte!
e mesmo que em vão eu a tente domar;
só desistirei quando sobre mim vier a morte;
então habitarei esse hades
onde és lesto a mandar muitos lá morar !

outra coisa não me resta de que percorrer o caminho que puder!
e para o fazer trincarei toda e qualquer maçã!
e da sabedoria tirarei o mal ou bem que eu quiser!
e esperarei sempre o raiar do sol pela manhã….


continuará…


leal maria

quinta-feira, 14 de maio de 2009

crepúsculo

crepúsculo 

vê meu amor
o crepúsculo invade-me o país
anunciando fim onde pretendia eternidade.
os perfeitos dias que por ti fiz,
desvanecem-se com a frouxa luminosidade.

e desespero ver-te assim:
anjo sem céu e sem asas;
frágil, caída no chão…
já nem nas etéreas neblinas do sonho por aqui passas;
amiúde
tenho de resgatar-te ao limbo da recordação.

olha meu amor, meu país
sob a agreste carícia da solidão que em nós se  escondia.
seus campos incultos e abandonados...
o futuro anunciando-se 
desprovido do sol que outrora refulgia;
suas cidades vazias, 
à mercê dos vampiros esfomeados.

e tanta palavra…
procuro-nos e já não nos reconheço 
nessas geografias do afecto.
pedaços de minha e tua alma desperdiçados.
em cada verso
meu rosto de tanta resignação circunspecto.
nação em plena metamorfose
na terra dos sonhos eternamente procastinados.

tudo foi muito,
ainda que nos parecesse tão pouco...
mas nada resta 
do genuíno que houve em ti e em mim.
e daqueles dias em que nos habitava as ternuras de um louco,
remanesce um amor sentido a que urge dar fim.

olha meu amor, tanta desolação...
sentes como eu esta sensação de orfandade?
por um fugaz instante tive a ilusão
que o teu olhar me falou num dialecto de saudade...

leal maria

segunda-feira, 11 de maio de 2009

pouco mais que um sonho...

pouco mais que um sonho é o que tu me és agora
algo difuso e vago
como uma recordação de alguém que há muito se foi embora
ou aquela sensação que nos fica depois de um terno afago

sei-te sem nada de ti conhecer
porque naqueles dias me bastava amar-te
havia o deslumbre do improvável renascer
e a desesperada ânsia de encontrar-te

mas hoje nem me és passado nem me és presente
tenho-te em mim e não sei o lugar que me ocupas
somente te substancia o que por ti meu coração sente
e é ao tempo que imputo todas as culpas

cada um de nós recolheu-se no seu próprio mundo
tentando reconhecer-se num novo ou antigo afecto
mas perdidos em algo muito mais profundo
sobrou-nos os corpos insaciados e as almas a descoberto

o verbo deixou de nos habitar os poemas
castramos o ritmo e a rima ao verso
e do amor
perdemos a ciência para lhe entender os esquemas
e deixamos de reivindicar-nos senhores do universo

orbitamos as ilusões perdidas
somos a espiral de um mundo ao avesso
desvanecem-se as dores sentidas
e eu renego o eterno amor que em meu olhar te confesso



leal maria

domingo, 10 de maio de 2009

rompemos a densidade da escuridão

ouve… rompemos a densidade da escuridão!
sentes como eu os sussurros do amor que aí vem?
escuta-lhe os passos com que no silêncio pisa o chão…
atreves-te a perguntar-lhe quem é quem?

porque te ilude a suavidade com que se aproxima?
terás por ventura, a vã ilusão da sua boa intenção?
vejo-te inebriada nos efémeros elogios com que te sublima…
doces e belas palavras amolecendo-te o coração!

aaaaah!
perdoa… não te acompanho nesse teu engano!
ainda que tenha já crispados nas tuas carnes, os dedos…
mas neste leito em lençóis de bom pano
não logrei descobrir-te ainda todos os segredos.

nada ficará deste lugar a que agora chamamos de nosso!
estamos cercados e acabaremos por soçobrar!
entre mim e tu persiste o imenso fosso
que é esta ânsia de sermos perfeitos a amar!

tudo nos impele para o precipício!
temo-nos um ao outro e um do outro nos alimentamos…
damo-nos como se fora um sagrado sacrifício
em demanda de uma divindade que no corpo buscamos .

mas castraram-nos desse Olimpo que nos foi prometido!
somos clandestinos no ventre que nos pariu!
deuses despojados de tudo o que nos dava sentido …
as dores de parto de uma virgem que ao coito fugiu!

ouve… contenta-te com a carne e o seu sabor!
enlaça-me no permeio das tuas pernas e deixa-me entrar em ti
não pronuncies palavras com a entoação do amor…
e traz-me de volta… dessa tua ilusão onde já me perdi!

leal maria

sábado, 9 de maio de 2009

imortalidade

… o limite da imensidão
no eclipsar do tempo
divina ilusão
sepultando a eternidade num momento

ínfimo instante de imortalidade
tragado
no incomensurável bocejar de Deus
ignomínia de um anjo expulso da celestial cidade
que os Homens tomou como seus

é o rugir de todas as fúrias
na sede de um chão de sangue coberto
as palavras tornadas espúrias
na multidão de espíritos em provação no deserto

são esgares de rostos em sofrimento
desmoronados leitos onde lágrimas outrora correram
perdidos num ou outro contratempo
esvaídos dos vãs anseios daqueles que morreram

e continua pungente a batalha
alimentando-se na castração dos corpos aos seus sonhos
embelezada fisionomia de morte que na carne se talha
litúrgico burburinho dos cânticos medonhos

mas sobressai no clamor do guerrear
um choro convulso de uma criança
e entre o golpe que se recebe e o que se quer dar
agarra-se com desespero uma réstia de esperança

põe-se a fé ancorada à multiplicação das vidas
como se não existira desde sempre a ubiquidade da mentira
busca-se por entre ruínas quimeras há muito esquecidas
e de novo regressa a imortalidade quando a razão se retira


leal maria

quarta-feira, 6 de maio de 2009

deixa-me sonhar-te esta noite

deixa-me sonhar-te esta noite
num sonho feito do mais carnal desejo
porque nada quero que a alma me afoite
em ânsias e suspiros tenho-te eu de sobejo

deixa-me cobrir-te com o meu corpo
no anonimato da escuridão
ser a âncora que te segura
num ponto qualquer desse imenso espaço
ler-te a fisionomia
no desenho que de ti fizer a minha mão
e exangue fique
no violento naufrágio do teu abraço

que o meu corpo se funda com o teu
e em tudo isso
não vejamos mais que a normalidade
a natural posse
de algo que sempre se nos prometeu
e de que nem chegamos a sentir saudade

grita profundamente todos o silêncios manietados
em total insubmissão ao destino voraz e predador
deixa-me deslizar pelos azimutes suados
das tuas geografias sulcadas por um divino semeador

quero emprenhar-te da mais crua luxúria
dar-lhe a forma delicada do teu seio
e morder-te em convulsão e majestosa fúria
no orgasmo alucinante de um animal sem freio

vem com tudo o que tens
oferece-te a mim
faz-te a oferenda imerecida
que eu aceitarei com sobranceria
então
poder-se-á decretar ao bárbaro tempo o seu fim
e no teu olhar lerei
a perfeita e derradeira poesia



leal maria

domingo, 3 de maio de 2009

lonjura

a tua ausência violenta-me
pela carícia que essa lonjura me recusa
reinventa-me
numa estranha ubiquidade d´alma difusa

e de nada me vale os dias de sol
faltando-me o teu calor
por certo é bela toda esta luminosidade
mas ausente o teu amor
tudo o que deles me perdura
soterra-o a triste saudade

dispersei-me nos mil desejos
que era o espanto do teu corpo a estremecer
teus lábios transbordando de beijos
numa anatomia em constante renascer

mas tudo agora me falta de ti
o sorriso; as linhas do rosto; o sexo;…
falta-me a ânsia que senti
falta-me a frase de circunstância e sem nexo

ficam as coisas tão desprovidas de sentido
no meu horizonte sem o poema que és
o vazio como prémio prometido
um trilho que nunca terá a marca dos meus pés


leal maria

sábado, 2 de maio de 2009

... é nas mãos vazias

… e é nas mãos vazias
nestas minhas mãos rudes e nuas
prenhes de tantas poesias
que trago gravada
toda a geografia das tuas ruas

em cada nome que lhes dás sei-te de cor
reconheço-te no anonimato de cada recanto
vejo as cicatrizes do teu ódio e do teu amor
ouço os gritos dos dias em que te possuiu o espanto

sei-te como és no teu eu mais profundo
intui-te assim tão por inteiro
um universo quedo no meu primeiro segundo
como se ousasse sonhar um deus verdadeiro

tomo como meu o que em ti se desejou
tudo aquilo que te despertou os sentidos
húmus do que violentamente germinou
em gloria de vencedores e honra de vencidos

sei-te na mais pura essência do que és
pois possuo-te no limbo que medeia o sonho e a realidade
um ter-te numa inconstância de marés
em que a mentira se metamorfoseia em verdade

tenho-te tão em mim que há muito te perdi
e faz já muito tempo que te fostes embora
mas continuo a ter-te na memória do que senti
ou ainda sinto…
mas dobram os sinos, anunciando a derradeira hora

cinzela-se o epitáfio daqueles bárbaros dias
em que o silêncio mal imperava no tanto que havia a dizer
gestos dando forma a falsas profecias
decidido que estava o profeta ter de morrer

da terra será o que a terra reclama
ao sonho será devolvido o que diz que é seu
mas é teu corpo que o meu corpo chama
quando se faz senhor
de um outro qualquer corpo que o acaso lhe deu

vem… cinge-me de novo a alma com o teu olhar
deixa que em ti eu veja aquilo que sou; que fui ou que era
olha os pássaros…
vão-se... migram tão graciosos no seu voar
e com eles esvai-se de esperança toda esta quimera



leal maria