quarta-feira, 11 de março de 2009

o querer

O homem não amansou
Porque não encontrou
O que tanto buscou
Só fragmentos
Marcando-lhe os momentos
Fazendo-o dar o salto
Perante o precipício
Improvável resquício
De um amargo amor
Divino desperdício
Que faz amargo todo o sabor

E impele-o a vontade
No seguir em frente
Quimera de uma verdade
Parida no ranger do dente

E o sonho,
Mesmo ali ao alcance
De um espírito que não descanse
De um querer que o agarre
Que fortemente o amarre
E não o deixe ir embora
Aguarda ser sonhado
Num ultimo adeus que é dado
Antes de tudo acabado
Antes da última lágrima que se chora


leal maria

lusitana vontade

Dão-se os corpos aos desejos
Numa entrega sem condições
E ódios dão lugar aos beijos
Num efémero reinado de ilusões

Mas soçobram as vontades
No prolongar do festim
Violentadas as virgindades
Impõe-se o indesejável fim

Outras vontades se levantam
Encarnadas no corpo do homem
Imagens que os sonhos lhe espantam
E como um fogo o consomem

Em catadupa vêm-lhe os porquês
Fazendo-o ansiar a imortalidade
E o homem português
Continua a busca da sonhada cidade

Nos oceanos onde sulca o seu trilho
Orienta-se pelos astros e o sonho
O incerto ofusca-o com o seu brilho
Na esperança de um futuro risonho

Mas há-de vir o fim e o esquecimento
E o nada reinará como inevitável senhor
Mas eterno será todo o momento
De quem não se detém perante o temor




leal maria

sobrevivem as palavras...

Não restando sequer um adeus
Ficou a palavra esculpida
Emoldurando os sentimentos meus
Não deixando a dor ser esquecida

Mas com todas as cartas na mesa
Não há mais lugar para enganos
As coisas seguem a sua natureza
Todos os amores ficam profanos

E no meio da tempestade
Tento manter-me de pé
Com a mentira e a verdade
Merecendo-me a mesma fé

Incólume, já não me é possível passar
Só me resta desistir; deixar-me soçobrar
É em vão todo o esforço que faço
Ficará por dar o desejado abraço

Há mais caminho à minha frente
Sem passos que o tivessem caminhado
E ao arrepio do que minha alma sente
Deixarei para trás o que tanto foi amado

No meio da bárbara tempestade
Tentarei manter-me de pé
Mas a mentira e a verdade
Merecer-me-ão a mesma fé

Porque subtis, nos rostos, as expressões
Escondem o quanto doem os corações


leal maria

a memória dos sorrisos

O sorriso passado
Faz maior a lágrima de agora
Porque num amor acabado
Algo de nós se vai embora
E anárquicas; aos trambolhões
Vêm-nos as recordações
Que depois do adeus ficaram
E nas palavras sussurradas muito amaram
Assaltando-nos o pensamento
Trazendo à vida o sentimento
Que já não é mais que um lamento
No inexorável passar dos dias

Mas continuas a sonhar o que nesses beijos pedias
Porque a busca se faz incessante
E o perpétuo é só um fugaz instante
Há sonhos que nascem e morrem todos os dias


leal maria

inocência perdida

Da violência do teu passado
Se fez o vazio no teu olhar
Por nunca teres sido amado
Pouco mais sabes que odiar

Esse ódio é o teu alimento
Mantém-te acesso o desejo de justiça
Trata-o com desvelo e alento
Para que a vingança venha à liça

Por todos foste enganado
De ti ninguém quer saber
Se serás um eterno violado
Faz do ódio a tua razão de viver

Nasceste no berço errado da vida
Foi o que foi
Profanaram-te a alma e o corpo
Sem cuidarem do que isso dói

Vai
Caminha de cabeça erguida
Faz duro o teu coração
Nunca deixes uma humilhação esquecida
E só para ti canta a sonhada canção:

{Descansa meu pequenino/ Das aventuras vividas
Foste o herói destemido/ das donzelas perdidas
Chegada é a hora/ Do repouso que o sono dá
Dorme valente cavaleiro/ Num terno abraço da mamã}

Com essa canção embala
Uma sonhada infância
Porque foi mais
Que mera circunstância
Teres nascido no berço errado
Terem-te a alma e a vida profanado

Ninguém se importa com o que isso dói
Só tu podes fazer a justiça que o ódio constrói


leal maria

Perdido, no meio do caos que criei

Perdido no meio do caos que criei
Vou tacteando por entre a escuridão
Na esperança de tocar a ilusão
Que em tantos sonhos busquei
Que em tantos sonhos amei

Mas são tantas as dores em que tropeço
Tanto esforço feito a cada recomeço
Num constante adiamento
Do que será o inevitável momento
Quando em definitivo te fores
Deixando-me com estes meus amores

E as linhas do teu rosto
Fazem-se limites do meu pensamento
Solitário sentimento
De uma geografia em desgosto

Olho e não vejo a luz esperada
Não tem fim este túnel em que ando
É tão grande a distância alcançada
Que há muito passei o que andava buscando

Cada passo que dou é uma tragédia
Pelo muito que de ti me afasto
Mas rio alto como se tudo fosse comédia
Para que a tristeza não faça de mim seu repasto

E as linhas do teu rosto
Fazem-se limites do meu pensamento
Solitário sentimento
De uma geografia em desgosto

leal maria

dura o amor mais que as palavras...

Meu eterno poema
Original vocábulo da minha criação
Angular pedra do primordial esquema
Linha de vida da minha mão

segunda-feira, 9 de março de 2009

onde estão os punhos erguidos?

onde estão os punhos erguidos
que já não os vejo?
que é feito dos gestos decididos
tentando cumprir o desejo?

amorfos, há rostos que desviam o olhar
órfãos da vontade
hesitantes entre a inacção e o lutar
vivendo sob a ilusão de uma esconsa liberdade

e tu… alicias-me com um sorriso
soterras-me em carícias a indignação
argumentas mil e uma razões sobre o que preciso
mostras-me mundos que trazias escondidos na mão

é doce dormência a que me abandono
soporífero castrador de toda a minha raiva
o imperfeito sono
de mim se assenhorando sem que eu o saiba

mas ao longe há vozes que se não calam
sobrepõem-se a todos os gemidos dos amantes
gritam… gesticulam... falam… falam…
e assistem-lhes razões do agora do depois e do antes

há já quem vá despertando da letargia
há já quem gradeie as fúrias com os dedos
esperando a hora certa para soltar a anarquia
numa noite de parto de todos os segredos

deixa-me então apartar o meu corpo do teu
quero esquecer as doçuras do amor e da paz
nada quero do tanto que o teu beijo me prometeu
pois sinto o cheiro a sangue que a fúria me traz

ouve… são meus companheiros os que aí vêm
olha e verás como nos une a mesma sorte
desentranharemos os despojos que os vampiros contêm
dar-lhe-emos um novo rosto para a morte

nada de novo haverá naquilo que fizermos
será a mesma velha violência que irromperá
um tempo em que faremos o que quisermos
num intervalo dessa velha ordem que prevalecerá

reinaremos somente nesse entretanto
proclamar-nos-emos a vanguarda da esperança
e depois de passado o espanto
renovar-se-á o olhar vazio do homem e o choro da criança

e então já não terei os teus braços
solícitos, como um portão aberto
exilado que estarei de todos os espaços
habitando um sonho vazio, num mundo que desejaram deserto


leal maria

quarta-feira, 4 de março de 2009

...

quem são aqueles, precedendo-me no caminho?
vêm agarrados aos paradoxos da minha memória...
neles mal me reconheço;
e no entanto sinto-os habitarem-me a história!

tanto foi o que me ficou para trás...
já pouco há dos que fui neste que aqui vou!
personificações das minhas esperanças tão vãs...
muito do que de mim neles houve se evaporou!

mas há marcas que ainda me tatuam a alma!
recordações,
que o tempo não deixa de devorar na lenta erosão da sua passagem.
uma promiscuidade entre a fúria e a calma…
mansas águas de um rio que ousaram galgar a margem.

resta-me o continuar em frente;
de encontro à linha do horizonte inalcançável.
na procura de uma outra quimera que me tente;
couraçar-me na vontade inquebrável…

o caminho ficará inevitavelmente a meio!
não é, em todo caso, o fim que lhe procuro.
mas o que lhe está de permeio;
o desafio de transpor mais um muro…

o fim, esse; chegar-me-á sempre de surpresa!
como um velho conhecido de quem não sinto saudades!
de nada me adianta ter a vida presa…
tão pouco sobreviverão as pedras das minhas “cidades”.

fui germinado num caldo de efémeros ingredientes…
matéria de volátil natureza!
uma sucessão de causas aleatórias e inconsequentes…
resíduo cósmico impregnado de impureza…



leal maria

domingo, 1 de março de 2009

será talvez preciso...


será talvez preciso

passar de novo a Taprobana
degustar-te em novo festim de carne e suor
para que perdure o silêncio dos cães
quando passar a caravana
e nem um só gemido nos denuncie o amor

nos montes e vales que o teu corpo é,
nasce um país de original geografia
uma renovada fé
vogais e consoantes a parir  com dor a poesia.




leal maria