sexta-feira, 6 de setembro de 2024

casal de cinco (velocidades de motorizada)

à memória do meu pai. à minha mãe e aos meus irmãos.


era de cinco; casal de cinco,

assim pelo povo comummente chamada.

na difusa memória,

é de cromado com óleo de motor e azul esbatido que a pinto;

e aos cinco de uma só vez, todos transportava,

ainda tão cheios da possibilidade de tudo e sem posse de nada.


sim, éramos cinco, que o outro, bom moço,

haveria de chegar mais tarde.

necessário hiato, que o constante parir requer do corpo muito esforço

e esmaece o fogo que nele arde.


os cinco dos seis que haveriamos de ser,

éramos confiantes passageiros na competência do timoneiro dessa magnífica barcaça;

que no mau asfalto ou terra batida, 

a navegava como no mar houvera de ser

e as velas pelo vento enfunadas era o escape a expelir fumaça. 


etéreo testemunho de explosão que se desvanecia  em brevidade.  

luz cedendo espaço ao intenso cheiro de hidro-carboneto queimado.

Imperfeita metáfora da saudade,

que não logra levantar do chão esse timoneiro ao húmus retornado.


é o que é, assim, a natureza de toda a coisa:

indiferente ao negro manto do luto e do remorso que sobre mim poisa.

aprisionada na Ininterrupta e natural sucessão de metamorfoses num eterno universo.

que perante a impossibilidade do verbo do princípio;

agarra a divindade possível da saudosa memória lavrada num verso.


Luís Filipe Soares Leal