segunda-feira, 6 de julho de 2009

almas perdidas que a circunstância uniu

o momento convoca a frase ao escrutínio,
agora que os sentidos do corpo se calam saciados.
mas palavras foi o que nos faltou.
era tanto o fascínio,
foram outros os dialectos falados.

deixemos os silêncios falarem por si,
porque afinal,
um ao outro nada temos que dizer.
no espaço que sobrou entre mim e ti,
consumiu-se todo o nosso querer.

resta-nos o adeus...
cada qual seguirá o rumo que melhor lhe aprouver.
os sonhos que tinhas continuam a não ser os meus.
és-me somente mais um corpo de mulher.

que fiz meu por instantes,
pois então.
e se de ti tomei posse também a ti me dei.
mas o desenho que te faz e me ficara na mão,
durou apenas o efémero absoluto em que me permutei.

neste momento, aqui ao teu lado deitado,
com o suave roçagar da tua mão na minha;
não me pertences.
porque na realidade nada me foi dado.
ainda que no olhar,
te sinta uma suplica para não ficares sozinha.

não foi esse o trato e tão pouco é a minha natureza.
sou apátrida em todo o corpo que a mim se dá.
somente me motiva a inquietude e a incerteza;
o desconhecido e o improvável que nasce em cada manhã.

como poderia então recolher-me ao abrigo dos teus braços,
e deleitar-me no teu ventre leito de pele macia?
seria enredar-me em emaranhados laços,
que me prenderia o corpo e alma em nós de humana poesia.

não quero essa dolência que só é boa para se fazer filhos.
a minha descendência serão sempre os demónios do que poderia ser
a mim próprio nego esses trilhos,
em que todos os sentidos jogam para nos fazer perecer.

sou aquele cingido com a armadura de batalha.
crispam-se-me as mãos em antecipação aos choros e gritos.
é mais do que eu cada cicatriz que se me talha;
a minha paz é sempre um prefácio de tempos aflitos.

não... já te disse que não!
deixa de me dirigires as palavras que te adivinho no coração.
ali adiante, esperando-me, tenho a perdição …


leal maria

1 comentário:

~J disse...

É mesmo isso :))))
Retratas muito o " amor/mulher" nestes teus poemas.
O fascínio torna-se perigoso, por vezes... Mas nem damos por isso...