terça-feira, 14 de outubro de 2008

tatuagens

em mim tatuado
as formas dos corpos que abracei
substâncias do meu incerto fado
azimutes que em mim achei

alma minha alvoroçada
canções que em mim havia
poeiras de uma rima forçada
ensurdecedor barulho de uma má poesia


leal maria

dialectos

tu aí, tão só…
esfíngica suavidade.
de tudo alheada…
recolhida numa qualquer saudade.

o teu olhar
fala um dialecto antigo.


leal maria

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

gramática da ausência

foste-te embora
deixaste aberta a porta por onde saíste.
um gélido vento trespassa-me,
ao entrar pela porta,
que quando para mim vieste, abriste.

na morada em que me habitaste,
espero-te;
porque afinal, nenhuma porta tu fechaste.
só a marca dos teus passos,
me indicam a direcção da tua ausência
e falta-me os teus abraços..
treme-me o corpo com violência.

mas não venhas.
não regresses ao lugar onde nunca estiveste.
são apenas as minhas poesias prenhas,
do um amor que nunca me deste.

poeiras da minha memória,
depositando-se nos espaços vazios de ti.
ocupando-me a falta que me fazes,
numa adulterada gramática do que senti.



leal maria

domingo, 28 de setembro de 2008

ingenuidade

os deuses
que vais resgatar às tuas ilusões
vincula-los a uma humana doçura
e no proselitismo dessas tuas ilusões
desejas um mundo onde reine a ternura

eu
recuso essa mão que me estendes
apeio-me dessa tua fantasia
vê lá se me entendes
o sonho em mim morreu e disfarçou-se de poesia.



leal maria

despedida

é tempo de te libertar
dar-te o definitivo adeus
que os teus sonhos vás sonhar
eu ao perder-te
já sonhei mais de metade dos meus



leal maria

sem compromisso

quero ver um pássaro voar
sem que isso não me dê mais que o prazer
de ver-lhe a elegância do planar
e a distância vencer

a liberdade
de dar um grito só para me fazer ouvir.
sem amor ou saudade,
que na alma me andem a zurzir.


leal maria

sábado, 30 de agosto de 2008

chega o outono

entre o outono que se anuncia
e a primavera que passou
devoramos todas as ilusões que havia
num verão que perfeito se sonhou

houve lágrimas e houve gritos
sorrisos em orgias de muitos abraços
sôfregos beijos
de paixão tão aflitos
na areia
a marca dos nossos passos

nas árvores
as folhas
principiaram o seu voo de morte

 
 
leal maria

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

regresso

o cansaço
fim da jornada concluída
sem o reconforto de um abraço
apenas o retomar da vida

mal ou bem
regressei
numa confusão de emoções amontoadas
é este um cais igual a tantos onde aportei
são já de despedida
os gestos nas mãos para mim levantadas




leal maria

tarde de verão junto ao rio

o sol
num bailado morno
filtrado por entre meus dedos
jogo de paciências
no fruir de um dia claro e sem segredos

semicerro o olhar
filtro esta luminosidade languescente
de um verão que persiste em ficar
e à própria cronologia dos Homens mente

as doces águas deste rio
murmuram-me
tentando convencer-me da sua pureza

não lhes presto atenção
ocupado que estou
a representar aquilo que não sou
castrando-me à minha própria natureza…


leal maria

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

reflexo

a vida como que um espelho;
a passagem do tempo nele reflectido.
quase velho
e tanta coisa não faz ainda sentido.

fugidios instantes,
memória numa miríade de cores.
sentires de antes,
as mesmas dores.





leal maria